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Cativa do Submndo
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Capítulo 6 O Jogo Antes do Toque img
Capítulo 7 Manual da Rendição img
Capítulo 8 A Ruína img
Capítulo 9 Nada É Tão Perigoso Quanto Nós img
Capítulo 10 O Prazer Não Pede Permissão img
Capítulo 11 A Mulher Que Ensina a Cair img
Capítulo 12 À beira do abismo img
Capítulo 13 Desejo e rendição img
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Capítulo 4 Entre o medo e a queda

Lizzie

Desde pequena, meu pai e minha madrasta trataram de me ensinar qual era o meu devido lugar. Não com palavras doces ou explicações pacientes, mas com silêncios longos, olhares calculados e pequenas humilhações diárias que moldam uma criança mais rápido do que qualquer castigo explícito. Eu era a primogênita e, ainda assim, a lembrança incômoda de que o primeiro casamento dele não fora fruto de amor, mas de obrigação familiar.

Minha mãe pagou esse preço todos os dias, ela aceitou o papel que lhe foi imposto com uma dignidade que hoje reconheço como coragem. Foi tolerada, nunca amada. Observada, nunca escolhida. Até que um acidente, grave demais para ser apenas azar, silencioso demais para não levantar suspeitas a arrancou de mim quando eu tinha apenas sete anos. No dia do enterro, enquanto eu ainda tentava entender a ausência definitiva daquele colo, meu pai trouxe para casa a amante... e as filhas bastardas.

Foi ali que compreendi tudo sem que ninguém precisasse explicar.

A partir daquele dia, a vida de princesa que me era prometida, por direito, por sangue, por primogenitura foi substituída por algo bem mais cruel: tornei-me o peso. A presença a ser ignorada. A herança inconveniente que precisava ser mantida à margem para não perturbar a nova ordem familiar.

Aprendi a baixar os olhos antes que me mandassem. A obedecer antes que pedissem. A falar pouco, ocupar pouco espaço, desejar menos ainda. Submissão tornou-se uma segunda pele, confortável o bastante para sobreviver, sufocante demais para esquecer quem eu poderia ter sido.

Mas há coisas que nem o desprezo contínuo consegue apagar, dentro de mim, algo permaneceu intocado. Uma resistência silenciosa. Uma força que nunca se dobrou por completo. Eu obedecia, sim. Eu cedia, sim. Mas observava. Guardava. Esperava.

Eles nunca perceberam que, enquanto me moldavam para ser dócil, estavam criando algo muito mais perigoso: uma mulher que aprendeu a suportar... sem jamais se quebrar.

E almas indomáveis, cedo ou tarde, encontram o momento certo para cobrar tudo o que lhes foi tirado.

Até mesmo a universidade me foi arrancada como tudo o mais. Apesar de ter as melhores notas, de ter feito tudo certo, tive de ceder lugar a Ariella. Segundo meu pai, não havia dinheiro suficiente para mandar as três para uma instituição de prestígio. Alguém precisava abrir mão. E, como sempre, esse alguém fui eu.

- Você é a mais velha, precisa entender. - ele disse, como se maturidade fosse sinônimo de abdicação. Como se obedecer fosse virtude.

Escolhi, ou me deixaram escolher uma universidade gratuita, sem nome, sem renome, sem futuro aos olhos dele. Uma concessão disfarçada de responsabilidade. Um sacrifício exigido em nome da harmonia familiar. Fiz o que esperavam de mim: abaixei a cabeça, engoli o gosto amargo da injustiça e aceitei.

Mas havia algo que eles não enxergaram, naquele lugar sem prestígio, onde ninguém sabia quem eu era, pela primeira vez não carreguei um sobrenome pesado demais para meus ombros. Não era a filha indesejada, não era a lembrança do casamento errado e não era a que precisava ceder sempre.

Ali, eu era apenas eu.

Pela primeira vez, respirei sem pedir permissão. Caminhei sem vigiar meus passos. Pensei sem medo de desagradar. A invisibilidade, que sempre fora minha punição, tornou-se meu refúgio. E enquanto acreditavam que eu havia sido reduzida, fui, na verdade, reconstruída.

Submissa por fora e atenta por dentro.

Eles me ensinaram a ceder, o mundo me ensinou a esperar e eu aprendi que algumas mulheres florescem exatamente nos lugares onde ninguém está olhando.

Mas algo mudou, o ar da casa amanheceu pesado, sério demais para ser ignorado. Ainda era cedo quando vozes ecoaram do andar de baixo, graves, firmes, ditas no tom de quem não pede, apenas anuncia.

Pelo modo como se espalhavam pelos corredores, compreendi que não se tratava de uma visita comum. Era alguém que deveria ser temido. Alguém capaz de acordar a casa inteira sem levantar a voz.

Aproximei-me da janela com cautela.

Lá fora, carros escuros estacionaram diante da residência, rompendo a falsa tranquilidade da manhã. Vi homens descerem primeiro, armados, atentos, formando um perímetro ao redor do segundo veículo. Moviam-se com precisão, como se cada passo já tivesse sido ensaiado. Então a porta se abriu.

Ela desceu.

Havia nela algo que não precisava de explicação. Um ar imponente, frio, absoluto. A postura de quem pertence ao lugar onde pisa, mesmo quando invade. Atrás dela, uma moça caminhava alguns passos atrás, discreta, obediente demais, claramente submissa à presença que a precedia. Era como se orbitasse em torno dela, existindo apenas em função daquele centro de poder.

Por um instante, fui incapaz de desviar o olhar.

Até que batidas firmes ecoaram na porta do meu quarto e sobressaltei-me.

A empregada entrou apressada, o rosto pálido, os olhos ansiosos. Quando me viu pronta, vestida, composta como sempre me ensinaram a estar, ela soltou um suspiro aliviado como se meu estado fosse a única coisa sob controle naquela manhã.

- Ainda bem... - murmurou, quase para si mesma.

Meu coração batia rápido demais para alguém que sempre aprendeu a obedecer e eu ainda não sabia quem era aquela mulher.

Mas, no fundo, compreendi algo essencial: nada naquela casa voltaria a ser como antes.

- Senhorita, seu pai solicita sua presença imediatamente na sala. - a criada anunciou com uma reverência mecânica, sem qualquer entusiasmo.

Havia verdade demais naquele gesto cansado: ela sabia, assim como todos naquela casa, que eu não mandava em nada ali. Assenti em silêncio, mas a curiosidade falou mais alto.

- Quem são as pessoas que chegaram? - perguntei, mantendo a voz baixa.

Ela hesitou por um instante, como se pronunciar aquele nome pudesse trazer consequências.

- Chamam-na de milady. - respondeu, por fim. - Dizem que construiu um império em menos de sete anos. Agora é temida... e respeitada por toda Nova Orleans. A palavra dela é lei. - Engoliu em seco antes de continuar. - Dizem também que tem um coração de gelo... tão racional quanto impenetrável.

Havia temor em sua voz, mas também algo parecido com admiração.

- Descerei em um minuto. - murmurei.

Ela concordou com um leve aceno e saiu, fechando a porta com cuidado excessivo, como se o próprio ar estivesse prestes a denunciar qualquer som indevido, voltei-me para o espelho.

As roupas que eu vestia eram em tons de cinza discretas demais, corretas demais, escolhidas para não chamar atenção alguma. Apagavam minha silhueta, minha presença, quase minha existência. Um uniforme silencioso para quem aprendeu a não ser vista. Estava vestida de forma casual, pronta para ir à faculdade, para cumprir mais um dia comum de uma vida cuidadosamente pequena.

Agora, porém, eu me atrasaria, não por escolha, mas por causa de uma visita que, pelo peso que já havia imposto à casa, claramente não era bem-vinda.

Ajeitei o cabelo, respirei fundo e desviei o olhar do meu próprio reflexo. Algo me dizia que, ao descer aquelas escadas, eu deixaria para trás mais do que alguns minutos da minha rotina. E, sem saber por quê, meu coração bateu como se já reconhecesse o perigo ou o destino.

Desci as escadas lentamente, consciente demais de cada passo. Eu não precisava olhar para saber, ela me observava. Sentia isso na pele, no arrepio que subia pela nuca, no modo como meu corpo permanecia tenso mesmo tentando parecer sereno. A mulher imponente permanecia de pé no centro da sala, como se aquele espaço sempre lhe tivesse pertencido. Havia seguranças demais, posicionados com precisão excessiva, e isso bastava para deixar claro: aquela visita não tinha nada de cordial.

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