Engoli em seco e, naquele instante, compreendi que Lilith não viera apenas cobrar dinheiro. Ela viera cobrar algo muito mais valioso. E, pela forma como seu olhar voltou a mim, atento, avaliador, possessivo senti, com um frio estranho no estômago, que eu fazia parte dessa conta.
- Eu tive alguns imprevistos, mas iria pagar em breve... - ele começou, a voz falhando.
A resposta dela veio antes que ele concluísse, fria, precisa e cortante.
- Quando assumimos um compromisso que não podemos cumprir, devemos encontrar outras formas de quitá-lo. - Lilith sustentou o olhar sobre ele por longos segundos, depois deixou que seus olhos percorressem a família reunida, avaliando cada rosto como se fossem mercadorias expostas. - Vim fazer uma proposta.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
- Meu último brinquedo teve um fim... trágico. - disse, sem emoção alguma. - Estou entediada. Preciso de algo novo para me distrair. Um novo animal para me entreter.
Meu estômago revirou ao observar que o olhar dela deslizou lentamente até minhas irmãs. Demorou-se, calculista e predatório.
- Gosto de loiras - acrescentou, como quem comenta uma preferência banal. - Pretendo levar uma de suas filhas comigo. Será meu animal de estimação pelos próximos meses. Tempo suficiente para que o senhor comece a pagar as parcelas da sua dívida... com juros.
Minha mãe empalideceu.
- Minha senhora... - ele respondeu, tentando manter a dignidade - sabe que em breve elas serão apresentadas formalmente à sociedade. Arrumarão bons maridos. Não seria sensato permitir que sejam rotuladas como descartáveis.
O ar mudou e a expressão de Lilith, antes quase entediada, endureceu. A suavidade deu lugar a algo perigoso.
- Não me lembro de ter pedido sua permissão. - disse, com calma absoluta. - Estou apenas oferecendo a oportunidade de escolha. Uma delas irá voluntariamente comigo. São apenas negócios.
Ela se inclinou levemente para a frente.
- E fique tranquilo. - continuou. - Eu trato o que me pertence com o devido respeito. Meus homens jamais tocam no que é meu.
Minha mãe levou a mão à boca, os olhos marejados, suplicando em silêncio. O meu padrasto desviou o olhar, covarde. E então senti os olhares se voltaram para mim.
Um tremor percorreu meu corpo inteiro. O medo veio forte, cru, quase me derrubando, mas permaneci imóvel. Aprendi cedo demais a esconder o pânico. As marcas da última surra ainda ardiam sob o tecido do casaco que eu usava para esconder a vergonha.
- A minha filha mais velha irá de boa vontade com a senhorita. - declarou minha mãe, lançando-me um olhar cruel, silencioso, ameaçador.
Meu coração afundou.
- Se assim o deseja. - Lilith respondeu, observando-me com atenção renovada - Então a dívida referente a esses seis meses será compensada com a estadia da sua filha em minha mansão.
- Mamãe, por favor... - minha voz escapou antes que eu pudesse contê-la.
Ela se levantou furiosa, mas Lilith foi mais rápida.
- Rosalie - chamou, levantando-se também. - Leve meu passarinho até o quarto. Ajude-a a arrumar suas coisas enquanto acerto os detalhes da transação com o senhor Ethan e a senhora Grace.
Observo ela colocar os óculos escuros novamente, mas não deixou de me observar.
- Sim, irmã. - Rosalie segurou minha mão com delicadeza. - Venha, não faça a Rainha de Copas esperar. Ela não tolera esse tipo de atraso.
Engoli em seco e permiti que ela me conduzisse. Cada passo parecia um adeus, um silêncio cortante.
Antes de cruzarmos o corredor, ouvi a voz de Lilith uma última vez, agora dura como aço.
- Quero deixar algo muito claro. - continuou. - Não permito que toquem no que me pertence. Se ousarem encostar em um fio de cabelo dela, teremos problemas sérios.
E então uma pausa breve, mas cruel.
- Nesse caso... - concluiu, com frieza calculada - não a levarei comigo. Levarei sua filha mais nova.
O mundo pareceu inclinar-se e, pela primeira vez desde que Lilith cruzara aquela porta, percebi que o jogo não estava sendo jogado apenas contra mim.
Contive as lágrimas que insistiam em cair. Engoli o resto de orgulho que ainda me sustentava e segui a senhorita Rosalie pelo corredor silencioso, sentindo meu mundo ruir em camadas lentas e cruéis. Eu não estava sendo libertada, apenas transferida. Saía de uma prisão conhecida para entrar em outra, mais vasta, mais sombria. E, naquele instante, tive a certeza de que aquilo poderia ser o meu fim.
- A senhorita irá preferir, muito em breve, estar sob as mãos da minha irmã... ao invés das da sua mãe. - a voz de Rosalie não trazia crueldade, apenas uma verdade nua, impossível de contestar.
Ela abriu a porta do quarto e me observou com atenção calculada.
- Leve apenas o que for sentimental. - orientou, firme. - Roupas, joias, qualquer coisa descartável devem ficar. Nada daqui lhe pertence de verdade.
Meu coração apertou.
Hesitei por um breve instante, mas obedeci. Sempre obedeci. Fui moldada para isso desde a infância, treinada para ceder, para abaixar os olhos, para aceitar ordens como destino.
Separei pequenas relíquias da minha existência apagada: um livro antigo de capa gasta, uma fotografia desbotada, um colar simples que pertencia à minha mãe. O resto, vestidos, sapatos, lembranças vazias, permaneci imóvel diante deles, como se nunca tivessem sido meus.
Enquanto dobrava os poucos objetos que levaria comigo, um pensamento me atravessou com violência.
Eu estava sendo entregue à toca dos lobos e eu... era apenas o cordeiro.
Indefeso, silencioso e à espera do sacrifício.
Mas, em algum lugar profundo, sufocado, esquecido, algo em mim ainda respirava. Uma chama pequena, teimosa, que se recusava a morrer.