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Cativa do Submndo
img img Cativa do Submndo img Capítulo 3 Contrato de Silêncios
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Capítulo 6 O Jogo Antes do Toque img
Capítulo 7 Manual da Rendição img
Capítulo 8 A Ruína img
Capítulo 9 Nada É Tão Perigoso Quanto Nós img
Capítulo 10 O Prazer Não Pede Permissão img
Capítulo 11 A Mulher Que Ensina a Cair img
Capítulo 12 À beira do abismo img
Capítulo 13 Desejo e rendição img
Capítulo 14 Jogadas img
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Capítulo 3 Contrato de Silêncios

Cassie

Minha mente ainda percorria essas possibilidades quando foi traída por uma interrupção suave demais para aquele ambiente.

-Milady?

A voz doce invadiu meus pensamentos como uma lâmina envolta em veludo.

Suspirei, impaciente, antes de erguer os olhos.

- Rosalie, quantas vezes preciso dizer que primeiro se bate à porta e somente depois de permitida a entrada é que se entra?

Revirei os olhos e bati as unhas contra a madeira da mesa, o som seco ecoando pelo escritório como um aviso, mas ela não se intimidou.

- Se eu fosse uma criada comum, faria isso, milady.

Havia algo naquela resposta, um excesso de coragem ou de confiança.

Sorri de canto, lentamente, algumas peças não sabem que já estão no tabuleiro.

- Para sua sorte e para meu azar, você é minha irmã. E eu prometi, no leito de morte de nosso pai, que cuidaria da minha doce irmãzinha. - deixei as palavras escorrerem devagar, afiadas, enquanto ela sustentava meu olhar sem piscar. - Caso contrário, eu já teria me livrado de você há muito tempo.

Havia verdade demais naquela frase para soar como ameaça vazia. Apoiei os cotovelos na mesa, inclinando-me levemente para a frente.

- Já que está aqui... como está o nosso hóspede no calabouço? - perguntei com ironia calculada, como quem comenta o clima.

Rosalie não desviou o olhar, nunca desviava.

- Bastante colaborativo - respondeu com naturalidade perturbadora. - Algumas unhas arrancadas, ferros cravados nos dedos... ele se urinou inteiro. Agora está falando demais. Rotas, nomes, datas e como suspeitávamos, havia gente grande puxando os fios dessa teia gigante

Assenti lentamente, eu sempre soube que o tráfico, tanto internacional quanto nacional, não se sustentava sem mãos poderosas por trás. Ainda assim, percebi o quão perto eu estava de desmontar toda a estrutura fazia algo frio se acomodar dentro do meu peito. Não era medo e sim antecipação.

- Pelo menos uma boa notícia. - murmurei. - O relatório sobre a família La Notte está pronto?

Meus olhos acompanharam a pasta preta sendo estendida em minha direção. Peguei-a entre os dedos e recostei-me na poltrona, abrindo-a com calma, saboreando o momento. Cada página folheada revelava camadas de podridão, luxos comprados com sangue e uma dívida que não poderia mais ser ignorada. Milhões de dólares e anos de afronta.

- Tem certeza de que o senhor Ethan entregará a filha mais velha? - Rosalie ainda ousava questionar meus julgamentos, mesmo depois de todos esses anos ao meu lado.

Ergui o olhar apenas o suficiente para encará-la.

- Absoluta. - respondi, sem hesitar. - Aquele homem idolatra as filhas da segunda esposa. Ele faria qualquer coisa para proteger o legado que acredita ter construído. - Fechei a pasta por um instante. - Nada tira da minha cabeça que ele matou a primeira mulher. E, se não o fez com as próprias mãos, mandou fazê-lo.

Voltei a folhear os documentos. Fotos. Relatórios. Vigilância minuciosa.

- A primogênita nunca foi prioridade. - continuei, a voz baixa. - Ele a trata sem respeito, sem gentileza. Desde a educação rígida até as roupas que a apagam. Enquanto as mais novas recebem tudo, atenção, proteção, excessos... e ela é deixada à margem.

Passei o polegar por uma das imagens, pensativa. Alguns pais sacrificam peões sem hesitar e alguns peões... ainda não sabem o quanto podem valer.

- Tem certeza de que vai fazer isso? - ela se aproximou do meu lado sem pedir permissão, a voz baixa, quase um sussurro que roçou meu ouvido. - É demais até mesmo para você. Usar uma mulher inocente para atingir os objetivos da Agência...

Não me afastei. Não me expliquei de imediato. Apenas inspirei com calma, sentindo o peso daquela verdade incômoda se acomodar entre nós.

- Eu entendo a sua preocupação. - respondi, enfim, sem elevar o tom. - E é exatamente por isso que serei eu a conduzir tudo. - Virei o rosto o suficiente para encará-la. - Eu vou protegê-la.

Levantei-me da poltrona e caminhei até a janela, observando a cidade que fingia dormir.

- Quando a Agência me apresentou essa possibilidade, deixou claro nas entrelinhas que não se tratava de uma sugestão. - continuei. - Não era uma ideia a ser discutida. Era uma ordem.

Meu reflexo no vidro parecia mais duro do que eu me sentia.

- Se eu não fizer, outro fará. - acrescentei, a voz mais baixa, porém firme. - E esse outro pode não ter o mesmo cuidado. Nem a mesma... delicadeza que ainda sou capaz de oferecer.

Rosalie permaneceu em silêncio por alguns segundos. Conhecia-me o suficiente para saber quando minha decisão já estava selada.

- Se você diz... - murmurou, por fim. - então nada poderá dar errado.

Não respondi.

Porque, no fundo, eu sabia: algumas decisões não dão errado. Elas apenas cobram um preço alto demais para todos os envolvidos.

- Nada dará errado. - minha voz soou firme, quase serena. - Vou cobrar a dívida do senhor Ethan, e ele fará qualquer coisa para preservar o status que construiu. Homens como ele não protegem pessoas, protegem aparências. Pelo preço certo, fará exatamente o que espero que faça.

Por um instante, senti um arrepio que não vinha do vento. Às vezes, eu mesma me assustava ao perceber o quão fundo conseguia mergulhar nessa personagem, não apenas vestindo-a, mas entregando-lhe corpo e alma, até que a linha entre quem eu era e quem eu precisava ser se tornasse perigosamente tênue.

- Devo avisá-los de que iremos visitá-los amanhã cedo? - perguntou Rosalie, cautelosa.

Balancei a cabeça lentamente, ainda encarando meu reflexo no vidro da janela. A mulher que me observava de volta parecia inabalável demais para hesitar.

- Não. - respondi, por fim. - Será uma surpresa. E avise aos melhores homens: amanhã sairemos bem cedo.

O silêncio que se seguiu era denso, carregado de expectativa.

Possuo um nightclub onde as pessoas acreditam que podem ser tudo aquilo que reprimem à luz do dia. Um templo moderno erguido para o desejo em todas as suas formas, confessáveis ou não. Lá dentro, máscaras caem, promessas são sussurradas entre goles caros e corpos se movem como se o mundo lá fora não existisse.

Chamei-o de Désirée, porque o desejo, quando bem conduzido, é a arma mais eficiente que existe.

Luzes baixas, veludo, couro, música pulsando como um coração inquieto. O ambiente perfeito para negócios que jamais poderiam ser discutidos em escritórios formais. Ali, homens poderosos acreditam estar no controle enquanto entregam suas fraquezas em bandejas de cristal. Ali, parceiros se sentem seguros demais, livres demais e é exatamente nesse estado que cometem seus maiores erros.

No Désirée, ninguém percebe quando assina a própria sentença, cada taça erguida é um acordo silencioso, cada sorriso, uma armadilha e cada toque casual, uma promessa que será cobrada.

Um a um, eles caem, não pela força ou pela ameaça, mas pela confiança depositada na pessoa errada e quando percebem, já é tarde demais.

Um sorriso lento se formou em meus lábios, não de prazer, mas de antecipação. Virei-me para encarar Rosie e, em seguida, deixei meu olhar cair sobre o tabuleiro de xadrez repousando sobre a mesa. Aproximei-me com passos medidos, como se cada um deles já estivesse previsto.

Estendi a mão e movi o peão, era apenas a primeira jogada, mas o caminho até o xeque-mate... já estava traçado.

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