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Cativa do Submndo
img img Cativa do Submndo img Capítulo 3 Contrato de Silêncios
3 Capítulo
Capítulo 6 O Jogo Antes do Toque img
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Capítulo 9 Nada É Tão Perigoso Quanto Nós img
Capítulo 10 O Prazer Não Pede Permissão img
Capítulo 11 A Mulher Que Ensina a Cair img
Capítulo 12 À beira do abismo img
Capítulo 13 Desejo e rendição img
Capítulo 14 Jogadas img
Capítulo 15 Désirée img
Capítulo 16 Regras img
Capítulo 17 Causa e Consequência img
Capítulo 18 Queimar img
Capítulo 19 Aos seus pés img
Capítulo 20 Desejo e rendição img
Capítulo 21 Desejo e humilhação img
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Capítulo 27 Dominação img
Capítulo 28 Luxúria img
Capítulo 29 Rendição doce img
Capítulo 30 Gosto amargo do prazer img
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Capítulo 3 Contrato de Silêncios

Eliza

Desde pequena, minha mãe e meu padrasto trataram de me ensinar qual era o meu devido lugar. Não com palavras doces ou explicações pacientes, mas com silêncios longos, olhares calculados e pequenas humilhações diárias que moldam uma criança mais rápido do que qualquer castigo explícito. Eu era a primogênita e, ainda assim, a lembrança incômoda de que o primeiro casamento dela não fora fruto de amor, mas de obrigação familiar.

Meu pai pagou esse preço todos os dias, ele aceitou o papel que lhe foi imposto com uma dignidade que hoje reconheço como coragem. Foi tolerado, nunca amado, observado, nunca escolhido.

Até que um acidente, grave demais para ser apenas azar, silencioso demais para não levantar suspeitas a arrancou de mim quando eu tinha apenas sete anos. No dia do enterro, enquanto eu ainda tentava entender a ausência definitiva daquele colo, minha mãe trouxe para casa o amante... e as filhas bastardas.

Foi ali que compreendi tudo sem que ninguém precisasse explicar.

A partir daquele dia, a vida de princesa que me era prometida, por direito, por sangue, por primogenitura foi substituída por algo bem mais cruel: tornei-me o peso. A presença a ser ignorada, a herança inconveniente que precisava ser mantida à margem para não perturbar a nova ordem familiar.

Aprendi a baixar os olhos antes que me mandassem. A obedecer antes que pedissem. A falar pouco, ocupar pouco espaço, desejar menos ainda. Submissão tornou-se uma segunda pele, confortável o bastante para sobreviver, sufocante demais para esquecer quem eu poderia ter sido.

Mas há coisas que nem o desprezo contínuo consegue apagar, dentro de mim, algo permaneceu intocado. Uma resistência silenciosa. Uma força que nunca se dobrou por completo.

Eu obedecia, sim.

Eu cedia, sim.

Mas observava, guardava e esperava.

Eles nunca perceberam que, enquanto me moldavam para ser dócil, estavam criando algo muito mais perigoso: uma mulher que aprendeu a suportar... sem jamais se quebrar.

E almas indomáveis, cedo ou tarde, encontram o momento certo para cobrar tudo o que lhes foi tirado.

Até mesmo a universidade me foi arrancada como tudo o mais. Apesar de ter as melhores notas, de ter feito tudo certo, tive de ceder lugar a Ariella e Ariadna. Segundo minha mãe, não havia dinheiro suficiente para mandar as três para uma instituição de prestígio. Alguém precisava abrir mão. E, como sempre, esse alguém fui eu.

- Você é a mais velha, precisa entender. - ela disse, como se maturidade fosse sinônimo de abdicação, como se obedecer fosse virtude.

Escolhi, ou me deixaram escolher uma universidade gratuita, sem nome, sem renome, sem futuro aos olhos dele. Uma concessão disfarçada de responsabilidade. Um sacrifício exigido em nome da harmonia familiar. Fiz o que esperavam de mim: abaixei a cabeça, engoli o gosto amargo da injustiça e aceitei.

Mas havia algo que eles não enxergaram, naquele lugar sem prestígio, onde ninguém sabia quem eu era, pela primeira vez não carreguei um sobrenome pesado demais para meus ombros. Não era a filha indesejada, não era a lembrança do casamento errado e não era a que precisava ceder sempre.

Ali, eu era apenas eu.

Pela primeira vez, respirei sem pedir permissão. Caminhei sem vigiar meus passos. Pensei sem medo de desagradar. A invisibilidade, que sempre fora minha punição, tornou-se meu refúgio. E enquanto acreditavam que eu havia sido reduzida, fui, na verdade, reconstruída.

Submissa por fora e atenta por dentro.

Eles me ensinaram a ceder, o mundo me ensinou a esperar e eu aprendi que algumas mulheres florescem exatamente nos lugares onde ninguém está olhando.

Mas algo mudou, o ar da casa amanheceu pesado, sério demais para ser ignorado. Ainda era cedo quando vozes ecoaram do andar de baixo, graves, firmes, ditas no tom de quem não pede, apenas anuncia.

Pelo modo como se espalhavam pelos corredores, compreendi que não se tratava de uma visita comum. Era alguém que deveria ser temido. Alguém capaz de acordar a casa inteira sem levantar a voz.

Aproximei-me da janela com cautela.

Lá fora, carros escuros estacionaram diante da residência, rompendo a falsa tranquilidade da manhã. Vi homens descerem primeiro, armados, atentos, formando um perímetro ao redor do segundo veículo. Moviam-se com precisão, como se cada passo já tivesse sido ensaiado. Então a porta se abriu.

Ela desceu e havia nela algo que não precisava de explicação. Um ar imponente, frio, absoluto. A postura de quem pertence ao lugar onde pisa, mesmo quando invade. Atrás dela, uma moça caminhava alguns passos atrás, discreta, obediente demais, claramente submissa à presença que a precedia. Era como se orbitasse em torno dela, existindo apenas em função daquele centro de poder.

Por um instante, fui incapaz de desviar o olhar. Havia nela uma beleza impossível de ignorar, o loiro claro que emoldurava o rosto, a altura que impunha presença, as curvas generosas exibidas sem pudor, como se não precisassem de permissão para existir.

Era o tipo de mulher que chamava atenção mesmo quando permanecia em silêncio, consciente do efeito que causava, ainda que fingisse não perceber. E eu percebi. Seria desonesto e perigoso, negar.

Até que batidas firmes ecoaram na porta do meu quarto e sobressaltei-me.

A empregada entrou apressada, o rosto pálido, os olhos ansiosos. Quando me viu pronta, vestida, composta como sempre me ensinaram a estar, ela soltou um suspiro aliviado como se meu estado fosse a única coisa sob controle naquela manhã.

- Ainda bem... - murmurou, quase para si mesma.

Meu coração batia rápido demais para alguém que sempre aprendeu a obedecer e eu ainda não sabia quem era aquela mulher.

Mas, no fundo, compreendi algo essencial: nada naquela casa voltaria a ser como antes.

- Senhorita, sua mãe solicita sua presença imediatamente na sala. - a criada anunciou com uma reverência mecânica, sem qualquer entusiasmo.

Havia verdade demais naquele gesto cansado: ela sabia, assim como todos naquela casa, que eu não mandava em nada ali. Assenti em silêncio, mas a curiosidade falou mais alto.

- Quem são as pessoas que chegaram? - perguntei, mantendo a voz baixa.

Ela hesitou por um instante, como se pronunciar aquele nome pudesse trazer consequências.

- Chamam-na de Rainha de Copas. - respondeu, por fim. - Dizem que construiu um império em menos de sete anos. Agora é temida... e respeitada por toda Nova Orleans. A palavra dela é lei. - Engoliu em seco antes de continuar. - Dizem também que tem um coração de gelo... tão racional quanto impenetrável.

Havia temor em sua voz, mas também algo parecido com admiração.

- Descerei em um minuto. - murmurei.

Ela concordou com um leve aceno e saiu, fechando a porta com cuidado excessivo, como se o próprio ar estivesse prestes a denunciar qualquer som indevido, voltei-me para o espelho.

As roupas que eu vestia eram em tons de cinza discretas demais, corretas demais, escolhidas para não chamar atenção alguma. Apagavam minha silhueta, minha presença, quase minha existência. Um uniforme silencioso para quem aprendeu a não ser vista. Estava vestida de forma casual, pronta para ir à faculdade, para cumprir mais um dia comum de uma vida cuidadosamente pequena.

Agora, porém, eu me atrasaria, não por escolha, mas por causa de uma visita que, pelo peso que já havia imposto à casa, claramente não era bem-vinda.

Ajeitei o cabelo, respirei fundo e desviei o olhar do meu próprio reflexo. Algo me dizia que, ao descer aquelas escadas, eu deixaria para trás mais do que alguns minutos da minha rotina. E, sem saber por quê, meu coração bateu como se já reconhecesse o perigo ou o destino.

Desci as escadas lentamente, consciente demais de cada passo. Eu não precisava olhar para saber, ela me observava. Sentia isso na pele, no arrepio que subia pela nuca, no modo como meu corpo permanecia tenso mesmo tentando parecer sereno. A mulher imponente permanecia de pé no centro da sala, como se aquele espaço sempre lhe tivesse pertencido. Havia seguranças demais, posicionados com precisão excessiva, e isso bastava para deixar claro: aquela visita não tinha nada de cordial.

Aproximei-me e parei ao lado das minhas irmãs, cumprimentando-as com a suavidade automática que aprendi a usar como escudo. Ela não estendeu a mão e não ofereceu um sorriso. Posso jurar que seu olhar passou por mim por cima dos óculos escuros com uma frieza calculada, como se me avaliasse... ou me escolhesse.

- Rainha de Copas Lilith, é uma honra recebê-la em minha casa. - a voz do meu padrasto ecoou quando ele desceu os últimos degraus e se juntou a nós. - Perdoe-nos por tê-la feito esperar. Sua visita nos pegou de surpresa.

Ela respondeu com um gesto mínimo, preciso. Estendeu a mão. Meu padrasto não hesitou: curvou-se rapidamente e beijou-lhe os dedos com deferência quase humilhante.

- Senhor Ethan... - a voz dela era firme, controlada. - Não sabia que precisava marcar horário para visitar a sua casa.

Vi o suor brotar na testa dele enquanto tentava recuperar algum domínio da situação.

- Imagine... pode vir sempre que desejar.

Ela inclinou levemente a cabeça, como quem aceita algo que já lhe pertencia.

- Iremos conversar de pé? - perguntou, sem pressa. - Ou o senhor pretende me convidar para sentar?

Com um movimento lento, retirou os óculos escuros e os entregou à assistente. Quando ergui os olhos, fui atingida por aquele azul glacial, intenso, penetrante, impossível de evitar. Não havia curiosidade ali. Havia controle.

- Sente-se, por favor. - meu padrasto disse apressado, estalando os dedos em seguida. - Tragam algo para as nossas convidadas.

Assim que os criados se afastaram, ele veio até mim. Suas mãos tocaram meu braço com firmeza excessiva, guiando-me até uma poltrona isolada, enquanto ele se acomodava ao lado da sua família perfeita, alinhados, protegidos, intocados.

Eu fiquei separada como sempre.

- Vim a negócios, não a lazer, senhor Ethan. - Lilith foi direta, a voz cortante como lâmina recém-afiada.

O silêncio que se seguiu foi pesado, denso e revelador, a postura rígida do senhor Ethan, pelo modo como seus dedos se entrelaçaram com força excessiva, compreendi algo essencial: ele devia algo àquela mulher.

E, pela forma como o olhar dela voltou a mim, lento, atento, inevitável, tive a estranha sensação de que aquela dívida tinha acabado de ganhar um nome.

- E que negócios seriam esses? - minha mãe perguntou com uma calma forçada. O tom era controlado, mas o olhar que lançava em minha direção não deixava margem para erro., era uma ordem silenciosa.

Levantei-me imediatamente.

- Aceita beber algo, Rainha de Copas? - perguntei com suavidade ensaiada.

Ela inclinou levemente a cabeça em concordância. Ao servir o copo, nossos dedos se tocaram por um breve segundo, um contato mínimo, quase acidental, mas intenso o suficiente para fazer meu corpo inteiro estremecer. O arrepio percorreu-me sem permissão, denunciando-me. Lilith percebeu, vi quando um sorriso lento e perigoso surgiu no canto de seus lábios, satisfeito, atento.

Retirei a mão rápido demais, o coração disparado, e servi um copo ao meu padrasto, a minha mãe e à assistente que permanecia alguns passos atrás dela.

- Um copo de whisky. - a assistente disse, a voz baixa, firme. - Não costumo beber com água nem com gelo.

Voltei a me sentar, tentando recompor a respiração. Ainda assim, sentia o peso do olhar dela sobre mim, frio, invasivo, como se me despisse camada por camada, ignorando qualquer tentativa de defesa. Era desconfortável. Era... perturbador.

- Senhor Ethan... - ela retomou, agora voltada inteiramente para ele - há seis meses a sua esposa deixou de pagar as parcelas da sua dívida. - Fez uma breve pausa, calculada. - Não costumo ser tão benevolente com devedores. Muito menos com traidores.

Ele começou a suar visivelmente. Tentou se levantar, murmurou algo sobre privacidade, lançou um olhar desesperado aos criados, como se quisesse esvaziar a sala. Mas antes que pudesse ordenar qualquer coisa, os homens armados de Lilith se moveram, discretos, letais. Um simples passo à frente foi suficiente para encerrar qualquer tentativa.

Ela não elevou a voz, não precisou.

- Alguém que não honra seus compromissos - continuou, lentamente - não deve temer a morte.

Cada palavra era dita com precisão cirúrgica. Não havia ameaça explícita, apenas a certeza de que ela não falava por impulso. Falava por experiência.

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