Aproximei-me e parei ao lado das minhas irmãs, cumprimentando-as com a suavidade automática que aprendi a usar como escudo. Ela não estendeu a mão e não ofereceu um sorriso. Posso jurar que seu olhar passou por mim por cima dos óculos escuros com uma frieza calculada, como se me avaliasse... ou me escolhesse.
- milady Cassandra, é uma honra recebê-la em minha casa. - a voz do meu pai ecoou quando ele desceu os últimos degraus e se juntou a nós. - Perdoe-nos por tê-la feito esperar. Sua visita nos pegou de surpresa.
Ela respondeu com um gesto mínimo, preciso. Estendeu a mão. Meu pai não hesitou: curvou-se rapidamente e beijou-lhe os dedos com deferência quase humilhante.
- Senhor Ethan... - a voz dela era firme, controlada. - Não sabia que precisava marcar horário para visitar a sua casa.
Vi o suor brotar na testa dele enquanto tentava recuperar algum domínio da situação.
- Imagine... pode vir sempre que desejar.
Ela inclinou levemente a cabeça, como quem aceita algo que já lhe pertencia.
- Iremos conversar de pé? - perguntou, sem pressa. - Ou o senhor pretende me convidar para sentar?
Com um movimento lento, retirou os óculos escuros e os entregou à assistente. Quando ergui os olhos, fui atingida por aquele azul glacial, intenso, penetrante, impossível de evitar. Não havia curiosidade ali. Havia controle.
- Sente-se, por favor. - meu pai disse apressado, estalando os dedos em seguida. - Tragam algo para as nossas convidadas.
Assim que os criados se afastaram, ele veio até mim. Suas mãos tocaram meu braço com firmeza excessiva, guiando-me até uma poltrona isolada, enquanto ele se acomodava ao lado da sua família perfeita, alinhados, protegidos, intocados.
Eu fiquei separada como sempre.
- Vim a negócios, não a lazer, senhor Ethan. - Cassandra foi direta, a voz cortante como lâmina recém-afiada.
O silêncio que se seguiu foi pesado, denso e revelador, a postura rígida do meu pai, pelo modo como seus dedos se entrelaçaram com força excessiva, compreendi algo essencial: ele devia algo àquela mulher.
E, pela forma como o olhar dela voltou a mim, lento, atento, inevitável, tive a estranha sensação de que aquela dívida tinha acabado de ganhar um nome.
- E que negócios seriam esses? - meu pai perguntou com uma calma forçada. O tom era controlado, mas o olhar que lançava em minha direção não deixava margem para erro. Era uma ordem silenciosa.
Levantei-me imediatamente.
- Aceita beber algo, milady? - perguntei com suavidade ensaiada.
Ela inclinou levemente a cabeça em concordância. Ao servir o copo, nossos dedos se tocaram por um breve segundo, um contato mínimo, quase acidental, mas intenso o suficiente para fazer meu corpo inteiro estremecer. O arrepio percorreu-me sem permissão, denunciando-me. Cassandra percebeu, vi quando um sorriso lento e perigoso surgiu no canto de seus lábios, satisfeito, atento.
Retirei a mão rápido demais, o coração disparado, e servi um copo ao meu pai e à assistente que permanecia alguns passos atrás dela.
- Um copo de whisky. - a assistente disse, a voz baixa, firme. - Não costumo beber com água nem com gelo.
Voltei a me sentar, tentando recompor a respiração. Ainda assim, sentia o peso do olhar dela sobre mim, frio, invasivo, como se me despisse camada por camada, ignorando qualquer tentativa de defesa. Era desconfortável. Era... perturbador.
- Senhor Ethan... - ela retomou, agora voltada inteiramente para ele - há seis meses o senhor deixou de pagar as parcelas da sua dívida. - Fez uma breve pausa, calculada. - Não costumo ser tão benevolente com devedores. Muito menos com traidores.
Meu pai começou a suar visivelmente. Tentou se levantar, murmurou algo sobre privacidade, lançou um olhar desesperado aos criados, como se quisesse esvaziar a sala. Mas antes que pudesse ordenar qualquer coisa, os homens armados de Cassandra se moveram, discretos, letais. Um simples passo à frente foi suficiente para encerrar qualquer tentativa.
Ela não elevou a voz, não precisou.
- Um homem que não honra seus compromissos - continuou, lentamente - não deveria temer a morte.
Cada palavra era dita com precisão cirúrgica. Não havia ameaça explícita, apenas a certeza de que ela não falava por impulso. Falava por experiência.
Engoli em seco e, naquele instante, compreendi que Cassandra não viera apenas cobrar dinheiro. Ela viera cobrar algo muito mais valioso. E, pela forma como seu olhar voltou a mim, atento, avaliador, possessivo senti, com um frio estranho no estômago, que eu fazia parte dessa conta.
- Eu tive alguns imprevistos, mas iria pagar em breve... - meu pai começou, a voz falhando.
A resposta dela veio antes que ele concluísse, fria, precisa e cortante.
- Quando assumimos um compromisso que não podemos cumprir, devemos encontrar outras formas de quitá-lo. - Cassandra sustentou o olhar sobre ele por longos segundos, depois deixou que seus olhos percorressem a família reunida, avaliando cada rosto como se fossem mercadorias expostas. - Vim fazer uma proposta.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
- Meu último brinquedo teve um fim... trágico. - disse, sem emoção alguma. - Estou entediada. Preciso de algo novo para me distrair. Um novo animal para me entreter.
Meu estômago revirou ao observar que o olhar dela deslizou lentamente até minhas irmãs. Demorou-se, calculista e predatório.
- Gosto de loiras - acrescentou, como quem comenta uma preferência banal. - Pretendo levar uma de suas filhas comigo. Será meu animal de estimação pelos próximos meses. Tempo suficiente para que o senhor comece a pagar as parcelas da sua dívida... com juros.
Meu pai empalideceu.
- Minha senhora... - ele respondeu, tentando manter a dignidade - sabe que em breve elas serão apresentadas formalmente à sociedade. Arrumarão bons maridos. Não seria sensato permitir que sejam rotuladas como descartáveis.
O ar mudou e a expressão de Cassandra, antes quase entediada, endureceu. A suavidade deu lugar a algo perigoso.
- Não me lembro de ter pedido sua permissão. - disse, com calma absoluta. - Estou apenas oferecendo a oportunidade de escolha. Uma delas irá voluntariamente comigo. São apenas negócios.
Ela se inclinou levemente para a frente.
- E fique tranquilo. - continuou. - Eu trato o que me pertence com o devido respeito. Meus homens jamais tocam no que é meu.
Minha madrasta levou a mão à boca, os olhos marejados, suplicando em silêncio. Meu pai desviou o olhar, covarde. E então senti os olhares se voltaram para mim.
Um tremor percorreu meu corpo inteiro. O medo veio forte, cru, quase me derrubando, mas permaneci imóvel. Aprendi cedo demais a esconder o pânico. As marcas da última surra ainda ardiam sob o tecido do casaco que eu usava para esconder a vergonha.
- A minha filha mais velha irá de boa vontade com a senhorita. - declarou meu pai, lançando-me um olhar cruel, silencioso, ameaçador.
Meu coração afundou.
- Se assim o deseja. - Cassandra respondeu, observando-me com atenção renovada - Então a dívida referente a esses seis meses será compensada com a estadia da sua filha em minha mansão.
- Papai, por favor... - minha voz escapou antes que eu pudesse contê-la.
Ele se levantou furioso, mas Cassandra foi mais rápida.
- Rosalie - chamou, levantando-se também. - Leve meu passarinho até o quarto. Ajude-a a arrumar suas coisas enquanto acerto os detalhes da transação com o senhor Ethan.
Observo ela colocar os óculos escuros novamente, mas não deixou de me observar.
- Sim, irmã. - Rosalie segurou minha mão com delicadeza. - Venha. Não faça a milady esperar. Ela não tolera esse tipo de atraso.
Engoli em seco e permiti que ela me conduzisse. Cada passo parecia um adeus, um silêncio cortante.
Antes de cruzarmos o corredor, ouvi a voz de Cassandra uma última vez, agora dura como aço.
- Quero deixar algo muito claro. - continuou. - Não permito que toquem no que me pertence. Se ousarem encostar em um fio de cabelo dela, teremos problemas sérios.
E então uma pausa breve, mas cruel.
- Nesse caso... - concluiu, com frieza calculada - não a levarei comigo. Levarei sua filha mais nova.
O mundo pareceu inclinar-se e, pela primeira vez desde que Cassandra cruzara aquela porta, percebi que o jogo não estava sendo jogado apenas contra mim.
Contive as lágrimas que insistiam em cair. Engoli o resto de orgulho que ainda me sustentava e segui a senhorita Rosalie pelo corredor silencioso, sentindo meu mundo ruir em camadas lentas e cruéis. Eu não estava sendo libertada, apenas transferida. Saía de uma prisão conhecida para entrar em outra, mais vasta, mais sombria. E, naquele instante, tive a certeza de que aquilo poderia ser o meu fim.
- A senhorita irá preferir, muito em breve, estar sob as mãos da minha irmã... ao invés das do seu pai. - a voz de Rosalie não trazia crueldade, apenas uma verdade nua, impossível de contestar.
Ela abriu a porta do quarto e me observou com atenção calculada.
- Leve apenas o que for sentimental. - orientou, firme. - Roupas, joias, qualquer coisa descartável devem ficar. Nada daqui lhe pertence de verdade.
Meu coração apertou.
Hesitei por um breve instante, mas obedeci. Sempre obedeci. Fui moldada para isso desde a infância, treinada para ceder, para abaixar os olhos, para aceitar ordens como destino.
Separei pequenas relíquias da minha existência apagada: um livro antigo de capa gasta, uma fotografia desbotada, um colar simples que pertencia à minha mãe. O resto, vestidos, sapatos, lembranças vazias, permaneci imóvel diante deles, como se nunca tivessem sido meus.
Enquanto dobrava os poucos objetos que levaria comigo, um pensamento me atravessou com violência.
Eu estava sendo entregue à toca dos lobos e eu... era apenas o cordeiro.
Indefeso, silencioso e à espera do sacrifício.
Mas, em algum lugar profundo, sufocado, esquecido, algo em mim ainda respirava. Uma chama pequena, teimosa, que se recusava a morrer.