"Igual da última vez?", ele perguntou, num tom que não era de acusação, mas de uma amarga constatação.
Ajoelhei-me segurando suas mãozinhas nas minhas e garanti: "Vou fazer de tudo para que ele venha. Esse vai ser o melhor aniversário da sua vida."
O sorriso dele, embora mais fraco que o normal, iluminou seu rosto pálido enquanto ele me olhava com expectativa. "A gente pode ter um bolo de chocolate com dinossauros?"
"Claro. E sorvete também."
"E Riley vai estar lá?" A pergunta me fez congelar, parando onde eu estava.
"Você... quer que Riley vá?"
Ollie deu de ombros, olhando para os próprios sapatos. "Talvez, se Riley vier, o papai fique mais tempo."
Fiquei arrasada ao ver que ele tinha entendido o que era realmente precioso para Xenois, que apenas conseguiria passar um tempo com o pai se o dividisse com Riley.
"Vamos ver", consegui dizer, pegando a mão dele. "Não vamos deixar a doutora Martinez esperando."
O hospital estava tranquilo para uma manhã de quinta-feira e doutora Martinez, uma mulher baixinha de olhos azuis e gentis que se tornou nosso maior apoio nos últimos meses, já estava nos esperando.
"E aí, campeão?", ela cumprimentou Ollie com um toque de mão, que ele retribuiu. "Pronto para a nossa aventura de hoje?"
Ollie acenou com a cabeça, embora não parecesse nem um pouco feliz, pois já estava familiarizado demais com essas "aventuras".
Enquanto uma enfermeira levava Ollie para a coleta de sangue, a doutora Martinez me chamou de lado.
"Conversei com um colega das Matilhas do Norte", ela disse baixinho. "Ele entende muito de doenças mágicas e, pelos sintomas de Ollie, acha que pode ser um tipo de sifão de energia."
"Um o quê?"
"Uma conexão mágica que drena a força vital de um ser para outro. É uma magia rara e, em geral, proibida. Ollie esteve perto de alguém novo no último ano que possa ter algum motivo para fazer mal a ele?"
Imediatamente pensei em Sophia e Riley. A chegada deles à matilha coincidia perfeitamente com o início da misteriosa doença de Ollie.
"Tem a... amiga do meu marido. E o filho dela."
O olhar da doutora Martinez escureceu e ela estreitou os olhos. "Os boatos sobre o Alfa e a..."
"Sim", cortei, sem precisar ouvir o resto. "Eles chegaram à matilha há cerca de um ano. Foi quando Ollie começou a ficar doente."
"Preciso conhecê-los. Observá-los com Ollie. Se houver um sifão, ele será mais forte quando estiverem próximos. "
Assenti, já me arrependendo e detestando a ideia de ter que tocar no assunto com Xenois. Ele era muito protetor com Sophia e Riley e desconsiderava qualquer sugestão de que eles pudessem não ser tão inocentes quanto pensava.
Mais tarde, depois de colocar Ollie para dormir mais cedo - ele estava exausto da visita ao hospital - fiquei surpresa ao ouvir o carro de Xenois na garagem. Ultimamente, ele mal chegava em casa antes das dez.
Ele entrou, parecendo cansado, mais exausto do que eu o via há tempos e, por um momento, me lembrei do homem com quem me casei antes que o retorno de Sophia o transformasse em alguém que eu mal reconhecia.
"Chegou cedo", comentei, deixando de lado os laudos médicos que estava analisando.
"Vim ver como Ollie está", ele disse, afrouxando a gravata, com o olhar voltado para a escada. "Como foi no médico?"
"Ainda não sabem o que ele tem." Hesitei, em dúvida se deveria contar, mas continuei: "A doutora Martinez acha que pode ser algo de natureza mágica. Um sifão de energia."
Xenois franziu a testa ao ouvir isso. "Isso é magia séria. Quem atacaria uma criança?"
"Ela quer observar Ollie com Sophia e Riley para ver se há alguma conexão."
Ele se fechou na mesma hora e vi a fúria em seu rosto quando enrijeceu o corpo, negando com a cabeça.
"De jeito nenhum. Não é possível que você pense que Sophia faria mal ao nosso filho."
"Não estou acusando ninguém. Mas Ollie ficou doente quando eles chegaram e está piorando a cada dia. Não posso mais ficar parada vendo ele morrer na minha frente. Precisamos considerar todas as possibilidades."
"Não", ele rosnou, e seus olhos brilharam em vermelho por um instante antes de continuar com seu tom de Alfa: "Sophia e Riley estão sob minha proteção e não vou permitir que sejam submetidos a suspeitas e testes como se fossem criminosos."
Levantei-me com a raiva inundando meu corpo e cerrei os punhos, tentando me controlar para não explodir. "Nosso filho está morrendo, Xenois! Enquanto você brinca de casinha com outra mulher e o filho dela, o seu próprio sangue está se esvaindo!"
Por um instante ele pareceu magoado e pude sentir, através do nosso vínculo, que minhas palavras o feriram. Foi a primeira vez que senti uma emoção tão forte vinda de Xenois desde que Riley e Sophia chegaram.
"Ele não está morrendo", ele disse, mas a voz soava incerta.
"Venha ver com seus próprios olhos. Quando foi a última vez que você realmente olhou para ele? Ele está pálido, magro e sempre cansado. Os médicos estão ficando sem opções."
Xenois passou a mão pelos cabelos, em conflito. "Tenho responsabilidades, Luna. A matilha, a empresa, a cidade..."
"E a sua responsabilidade com seu filho?" Cheguei mais perto, buscando em seu rosto algum resquício do homem que um dia amei e respeitei.
"O aniversário de Ollie é na próxima semana e ele anda dizendo a todo mundo que o pai prometeu que viria."
Ele desviou o olhar, o rosto tomado por algo... Incerteza? Culpa? Ou era porque o aniversário de Riley caía no mesmo dia?
"Eu vou estar lá. Prometi a ele", disse por fim.
"O dia todo", insisti, balançando a cabeça. "Não apenas uma hora antes de você correr para a festa de Riley."
Ele ergueu a cabeça com os olhos arregalados de surpresa. "Como você soube disso?"
"Essa é uma matilha pequena, Xenois. As pessoas comentam." Cruzei os braços. "Ollie merece um dia em que ele seja a única prioridade."
Ele ficou em silêncio com o conflito interno estampado no rosto e, então, assentiu uma vez. "Estarei lá para Ollie. O dia todo."