Saber que eu estava mentindo para ele me deixou com um nó no estômago. Xenois não tinha voltado para casa na noite passada. Seu lado da cama continuava intacto, e seu celular caía direto na caixa postal quando eu ligava.
Mas eu não queria começar o aniversário dele com uma decepção.
"Posso abrir um presente agora?", ele perguntou, após subir em um banquinho da cozinha, com seus olhos azuis - tão parecidos com os do pai - repletos de entusiasmo.
"Apenas um" concordei, entregando o pacote por cima do balcão. "Feliz aniversário, meu garoto corajoso."
Ele rasgou o embrulho com mais força do que havia demonstrado nos últimos dias, revelando um tricerátopo de pelúcia.
"Mãe! É igual ao do meu livro!", ele gritou, abraçando o brinquedo com força e um sorriso radiante.
"Achei que você fosse gostar", espondi ao colocar o prato de panquecas na frente dele com a vela de número cinco. "Faça um pedido."
Ollie fechou os olhos com força, concentrando-se intensamente antes de soprar a vela.
"O que você pediu?", perguntei, embora já pudesse imaginar o que ele queria.
Ele balançou a cabeça lentamente enquanto respondia: "Não posso contar, senão o pedido não se realiza. Mas acho que você já sabe."
E eu sabia. Ele desejava que o pai aparecesse ao menos uma vez, que fosse o pai presente de que ele tanto precisava.
Depois do café da manhã, passamos a manhã arrumando tudo para a pequena festa que contaria com apenas algumas crianças da matilha e alguns amigos de Ollie da escola.
Contratei um animador com temática de dinossauros, encomendei seu bolo favorito e transformei nosso quintal num mundo pré-histórico.
Às duas da tarde, tudo estava pronto, exceto por um detalhe - Xenois ainda não havia aparecido.
"Ele já deve estar chegando", garanti a Ollie enquanto o ajudava a vestir sua roupa de aniversário - uma camisa social com estampas de dinossauros. "Ele prometeu."
A festa seguiu sem a presença do Alfa e, embora Ollie mantivesse a coragem rindo com os amigos, soprando as velas e abrindo presentes, eu o via olhando para a porta toda vez que ela se abria, com a esperança sumindo sempre que não era o pai quem entrava
Às cinco da tarde, quando a maioria dos convidados já tinha ido embora, Ollie se sentou em silêncio no sofá, com seus brinquedos novos intactos ao seu lado, enquanto segurava com força o tricerátopo de pelúcia.
"Ele não vem, não é?", ele perguntou quando me sentei ao seu lado.
Puxei-o para perto, contendo as lágrimas enquanto balançava a cabeça em negação.
"Não sei, meu amor. Ele ainda pode chegar."
"Tudo bem." Sua voz baixinha partiu meu coração. "A mãe de Riley provavelmente precisou mais dele", ele disse em um tom conformado.
Ao ouvir suas palavras, fiquei furiosa. Nenhum menino de cinco anos deveria passar por isso, tendo que aceitar que não é importante para o próprio pai.
"Que tal irmos tomar sorvete?", sugeri na hora na tentativa de animá-lo.
"Só você e eu. Podemos ir àquela sorveteria perto do parque que tem trinta sabores."
Seus olhos se arregalaram enquanto ele olhava para mim com surpresa e descrença.
"É sério? Mesmo eu já tendo comido bolo?"
"É seu aniversário. Uma sobremesa dupla com certeza faz parte do seu presente."
Pela primeira vez no dia ele abriu um sorriso largo e concordou.
Erguendo o dinossauro de pelúcia e disse: "Posso levar Tricy?"
"Claro. Tricy também merece sorvete."
Ao sairmos, deixei uma última mensagem de voz para Xenois: "Ficamos te esperando. Ollie manteve as esperanças até o fim. Estamos indo tomar sorvete agora porque me recuso a deixar que sua ausência estrague o dia dele. Não sei onde você está ou o que era mais importante que o quinto aniversário do seu filho, mas espero que tenha valido a pena partir o coração dele."
A sorveteria ficava a poucos quarteirões de distância, uma curta caminhada da nossa casa. Ollie começou a ficar cansado enquanto caminhávamos, mas a empolgação com a promessa de tomar sorvete o manteve de pé.
"Em qual sabor você está pensando?", perguntei, segurando sua mão enquanto esperávamos na faixa de pedestres.
"Chocolate com gotas de chocolate e minhocas de goma por cima", ele decidiu, dando pulinhos, apesar do cansaço evidente em seu rosto.
O sinal ficou verde e entramos na faixa de pedestres. Foi então que vi o enorme painel eletrônico em frente ao parque, que geralmente exibia anúncios da cidade ou propagandas.
Hoje, ele mostrava um Xenois sorridente, com o braço em volta de Sophia, ambos radiantes para um menino de cabelos escuros que soprava as velas de um bolo de aniversário sofisticado.
"FELIZ ANIVERSÁRIO, RILEY! ", dizia a legenda, seguida por "Do Prefeito Blackwood e da cidade de Silver Creek. "
Fiquei paralisada no meio do passo, chocada, e Ollie, ainda segurando minha mão, seguiu meu olhar, ficando imóvel ao reconhecer o pai comemorando o aniversário de outra criança - justo o dia que ele tinha prometido passar com o próprio filho.
"Mamãe?", a voz de Ollie era baixa, soando confusa. "Por que o papai está no aniversário de Riley?"
Antes que eu pudesse responder ou afastá-lo do painel, ouvi o som de pneus cantando.
Tudo aconteceu em câmera lenta - virei e vi um carro vindo em nossa direção com o motorista em pânico.
Ainda estávamos na faixa de pedestres, paralisados pelo choque da traição de Xenois.
Agi por instinto, empurrando Ollie para frente com toda a minha força. Ele tropeçou ao chegar à calçada, enquanto o carro me atingia, arremessando-me para longe.
Senti uma dor intensa e depois mais nada, enquanto minha visão escurecia.
Acordei com o choro de Ollie em meus ouvidos. Ele estava ajoelhado ao meu lado na calçada, com lágrimas escorrendo por seu rosto pálido, enquanto uma multidão se formava ao redor chamando a ambulância.
"Mamãe! Mamãe, acorde!"
Tentei me mover para alcançá-lo, mas meu corpo não obedecia e, sentindo gosto de sangue, percebi que algo estava muito errado.
"Ollie", consegui dizer com a voz rouca e cansada enquanto o examinava. "Você se machucou?"
Ele balançou a cabeça, segurando Tricy contra o peito com uma mão enquanto a outra acariciava meu rosto suavemente. "O carro não me atingiu. Você me empurrou."
Um alívio imenso percorreu meu corpo. Ele estava a salvo e nada mais importava.
Mas então Ollie tremeu e cambaleou, e seu rosto empalideceu com o choque. Seus olhos reviraram, e ele caiu ao meu lado na calçada.
"Ollie!", gritei, sentindo uma nova onda de dor ao tentar me mover. "Alguém o ajude! Por favor!"
Uma mulher correu até nós e verificou o pulso de ele. "Ele está respirando, mas com muita dificuldade. A ambulância está a caminho."
Conectando-me ao nosso vínculo de companheiro, enviei um apelo desesperado a Xenois. *Ollie desmaiou. Precisamos de você. Por favor.*
Pela primeira vez em meses, senti o vínculo ganhar vida, e o choque e o medo de Xen me inundaram, sinal de que tinha recebido a mensagem.
Enquanto as sirenes se aproximavam, os olhos de Ollie se abriram lentamente e seu olhar encontrou o meu.
"Mamãe", ele sussurrou, com a voz fraca. "Eu vi o papai na TV grande."
"Eu sei, meu amor. Sinto muito."
"Diga a ele...", ele fez uma pausa, tentando respirar. "Diga a ele que está tudo bem. Ele não precisa me amar mais. Eu entendo."
Lágrimas escorriam pelo meu rosto. "Não, Ollie. Ele te ama. Ele te ama muito."
Mas os olhos de Ollie se desviaram para o painel novamente, que ainda exibia a cena feliz do aniversário que Xenois escolhera ir, em vez do de seu próprio filho, e uma lágrima solitária deslizou por sua bochecha.
"Estou muito cansado, mamãe."
"Fique comigo, meu amor. Os médicos estão chegando. Apenas aguente firme."
Mas eu podia sentir que ele estava se desprendendo do nosso vínculo, que ficava cada vez mais fraco. A doença misteriosa era demais para ele combater.
"Eu te amo, mamãe", ele sussurrou, sua mãozinha segurando a minha com força. "Não fique brava com o papai. Ele só ama mais Riley."
E então, quando a ambulância parou e os paramédicos correram em nossa direção, Ollie fechou os olhos pela última vez.
Sua mão amoleceu na minha, e o tricerátopo de pelúcia caiu esquecido na calçada no instante em que seu coração parou de bater.