A conversa com Luna na noite anterior não parava de se repetir na minha cabeça.
"Nosso filho está morrendo."
Fui ao quarto de Ollie depois que ela dormiu e, ao vê-lo imóvel sob o edredom de dinossauros com a respiração pesada, a dúvida bateu - ele sempre foi tão pálido e magro assim?
"Xen? Está me ouvindo?"
Pisquei os olhos, focando em Marcus e balancei a cabeça.
"Desculpe. O que estava dizendo?"
"Perguntei sobre a situação com Sophia Crawford. O conselho da matilha está... preocupado."
Cerrei os dentes, tomado por uma raiva protetora ao ouvir suas palavras. "Os assuntos pessoais de Sophia não são da conta do conselho."
"Quando o Alfa passa mais tempo com outra mulher do que com sua Luna, isso se torna um assunto da matilha." Marcus era meu melhor amigo, por isso falava sem rodeios.
"As pessoas estão comentando, Xen. Elas estão questionando seu julgamento."
"Deixe o povo falar", cortei o assunto, levantando para encerrar a conversa. "Tenho outra reunião."
Na verdade, eu estava indo para a escola de Riley.
Sua professora havia ligado para Sophia para falar sobre alguns problemas de comportamento, e ela me pediu para ir.
Achei que seria certo aceitar, embora uma voz de culpa me lembrasse que eu nunca havia comparecido a nenhuma reunião escolar de Ollie.
Enquanto eu dirigia em direção à escola de Riley, meu celular começou a tocar.
Era Luna, e eu hesitei antes de atender.
"Estou ocupado, Luna. Pode esperar?"
"É Ollie." Sua voz estava assustada e trêmula, embora eu pudesse perceber que ela estava tentando se manter controlada. "Ele desmaiou na escola. Estamos no hospital."
Um calafrio desceu pela minha espinha e apertei o volante com força. "Ele está..."
"Ele está bem por enquanto. Estão fazendo exames." Após um momento de hesitação, ela acrescentou: "Ele está chamando por você."
A culpa me atingiu imediatamente. Eu estava indo para a escola de Riley enquanto meu próprio filho estava deitado numa cama de hospital.
"Estou a caminho", prometi, já dando meia-volta com o carro. Mas, quando virei na estrada que levava ao hospital, meu celular tocou novamente.
Dessa vez, era Sophia.
"Xenois, onde você está? A diretora está esperando, e Riley está muito chateado."
Segurei o volante com força, dividido entre dois caminhos. Duas crianças que precisavam de mim.
"Sophia, não vou poder ir. Ollie está no hospital."
"Ah... " Sua voz soou ligeiramente estranha e fria. "Entendo. A família vem em primeiro lugar."
Sua sutil alfinetada sobre "família" não me passou despercebida, insinuando que ela e Riley não faziam parte do pacote.
"Diga a Riley que vou compensá-lo. Vejo vocês dois amanhã para o jantar, como combinado", disse, ignorando a culpa.
"Claro. A família vem em primeiro lugar. Vamos fazer um jantar tranquilo amanhã. Embora Riley vá ficar desapontado... ele passou a semana toda falando em te mostrar o presente de aniversário dele", ela disse rapidamente.
Eu enxergava a manipulação, mas acabei caindo nela mesmo assim. "Que horas amanhã?"
"Às seis? Vou fazer seu prato favorito."
Concordei e desliguei, me odiando um pouco mais. Então, continuei em direção ao hospital, onde meu filho e minha companheira estavam esperando.
Quando cheguei ao quarto, estava silencioso. Ollie parecia pequeno e vulnerável na cama grande, com tubos o conectando a máquinas que eu não entendia.
Luna estava sentada ao lado dele, acariciando seus cabelos suavemente, e nem levantou a cabeça quando entrei.
"Ei, campeão", falei suavemente, me aproximando da cama.
Os olhos de Ollie se abriram lentamente.
Por um momento, ele pareceu confuso, mas depois sorriu fracamente quando o reconhecimento surgiu em seus olhos. "Papai, você veio."
O fato de ele estar tão animado e surpreso com uma coisa tão simples me machucou mais do que eu esperava.
"Claro que vim." Peguei sua pequena mão na minha, chocado com o quanto parecia frágil. "Como está se sentindo?"
"Cansado, mas o médico me deu um adesivo legal." Ele ergueu a outra mão, mostrando um adesivo de dinossauro colado em sua roupa de hospital.
Forcei um sorriso, tentando não desmoronar. "Que legal. Você coleciona?"
Luna ergueu os olhos, surpresa com minha tentativa de puxar papo, pois sabia que eu não fazia a menor ideia do que nosso filho gostava.
Percebendo isso, fiquei envergonhado.
"Tenho dezessete adesivos de dinossauro. Riley tem vinte, mas ele trapaceou porque a mãe dele comprou o pacote inteiro de uma vez", Ollie me informou com orgulho.
A simples menção do nome de Riley me fez estremecer, jogando na minha cara todos os meus erros.
"Quando posso ir para casa?", perguntou Ollie, com os olhos já se fechando lentamente de sono.
"O médico quer que você passe a noite aqui para observação. Vou ficar com você", respondeu Luna, com a voz baixa e gentil enquanto acariciava a mão dele.
"Papai pode ficar também?", ele perguntou esperançoso, se virando para mim.
Antes que eu pudesse responder, a doutora Martinez entrou e, depois de cumprimentar Luna, me lançou um olhar de reprovação.
"Alfa Blackwood. Que bom que se juntou a nós."
Seu cumprimento me atingiu em cheio.
"Como ele está?", perguntei, ignorando seu tom.
"Estável, mas preocupante. Seus níveis de energia estão perigosamente baixos." Olhando brevemente para Luna, ela perguntou: "Você discutiu a possibilidade que conversamos?"
Luna acenou com a cabeça. "Tentei."
Então, a doutora Martinez se virou para mim. "Alfa, acredito que seu filho esteja sofrendo de uma drenagem de energia mágica. Preciso observá-lo com todos os contatos regulares, especialmente com qualquer pessoa nova em sua vida no último ano."
Entendi o recado na hora. "Você está falando de Sophia e Riley."
"Entre outros, sim."
"De jeito nenhum. Eles não têm nada a ver com isso", eu disse, balançando a cabeça enquanto me afastava.
A expressão da doutora Martinez se fechou, demonstrando clara desaprovação e raiva.
"Com todo o respeito, Alfa, você não é um profissional da saúde. Drenos de energia são raros, mas são documentados. O momento se encaixa perfeitamente com a chegada deles na matilha."
"Só porque é uma coincidência não significa que sejam eles. Encontre outra explicação", retruquei.
"Papai? Você está bravo?", a voz baixinha de Ollie interrompeu nossa discussão.
"Não, campeão. Só estou preocupado com você."
"Você vai ficar? Por favor? Prometo não ficar mais doente se você ficar."
"Vou ficar um pouco", cedi, sabendo que não podia passar a noite toda por causa do jantar com Sophia e Riley no dia seguinte.
Eu precisava ir para casa, me preparar e trabalhar nas propostas de orçamento da cidade que estavam pendentes.
Luna olhou para mim, a decepção estampada na cara de ela, mas não foi nenhuma surpresa. Ela não disse nada, apenas continuou acariciando o cabelo de nosso filho enquanto ele voltava a dormir.
Sentado ali, os observando, me senti um estranho na minha própria família. Quando isso aconteceu? Quando comecei a colocar todos e tudo acima deles?