- Lara, vamos fazer a raqui agora, tá? - a médica diz perto do meu ouvido.
- Espera... - tento dizer. - Meu filho...
Minha voz falha. Assinto porque não me dão tempo para negar.
Eles me viram de lado. A barriga enorme puxa meu corpo para frente e eu preciso de ajuda até para fazer o movimento mais simples.
- Curva as costas.
Eu tento, mas não consigo direito.
Minhas pernas tremem.
- Assim... isso... respira.
Respiro.
Sinto o toque frio de algo nas costas e depois a pressão.
Um empurrão fino entrando no meio da minha coluna. Em seguida vem um choque curto, quente, que desce rápido demais pelo meu corpo.
- Pronto.
Pronto?
Em segundos, minhas pernas começam a desaparecer.
Não é como dormir.
É como se o meu corpo estivesse indo embora sem mim.
Primeiro os pés, depois as canelas, os joelhos...
Quando tento mexer, nada responde.
- Eu não sinto... - murmuro. - Minhas pernas...
- É normal, Lara. A anestesia está funcionando.
Funcionando.
Eles me deitam de costas. O pano sobe mais. Não vejo mais nada do que acontece comigo. Só escuto. Só imagino. Só sinto pressão.
Meu coração acelera de novo, o monitor apita mais rápido me puxando para a realidade.
- Frequência subindo.
- Lara, olha pra mim. Fica tranquila querida.
Abro os olhos.
Vejo rostos cobertos. Toucas. Máscaras. Luvas. Vejo gente demais. Mãos demais. Vozes demais. Médicos, enfermeiras... e, perto da parede, homens de preto, armados, imóveis, como se o meu parto fosse uma operação de guerra.
Eles não me olham.
Protegem algo que não sou eu.
Eu não sei se eles estão aqui por mim... ou por ele.
Meu peito aperta.
- Meu filho... - tento dizer. - Ele tá bem?
A médica aparece no meu campo de visão.
- Estamos cuidando de vocês dois. Agora respira devagar.
Inspiro e o ar entra curto.
Sai tremido.
Por alguns segundos, sinto alívio, nenhuma dor.
Só um vazio estranho da cintura para baixo, como se meu corpo tivesse sido partido no meio.
Mas então começa.
Não dor, uma pressão.
Um peso enorme se movimentando dentro de mim, como se alguém estivesse empurrando um móvel pesado por dentro da minha barriga.
Mãos pressionam, alguém puxa.
Algo se move.
- Vai sentir mexer, não dor. - avisam.
Meu corpo está sendo aberto, eu sinto tudo, só não sinto dor.
Meu coração dispara outra vez.
O monitor responde alto.
- Pressão baixando.
- Ajusta o soro.
Minhas mãos começam a tremer sozinhas.
- Eu tô com medo... - confesso.
Ninguém responde, eles só trabalham rápido.
Concentrados.
O silêncio cresce.
Eu sinto.
Antes de qualquer som.
A pressão aumenta, mais forte e funda.
Meu abdômen é empurrado para baixo como se algo estivesse sendo arrancado do centro da minha existência.
Algo é puxado para fora de mim com força demais. Meu corpo quer fechar, fugir, impedir. Mas já não é meu.
Ninguém comemora.
Meu coração quase para.
Meu filho.
O ar some dos meus pulmões.
- Eu posso ver? - peço rápido. - Por favor... deixa eu ver...
Ninguém responde de imediato, eles apenas continuam.
O peso cresce, depois desliza e some...
De repente, meu corpo fica leve demais, o vazio dentro de mim é imediato.
O mundo segura a respiração comigo, eu espero um segundo, dois, três...
Eu espero o som, o choro.
O grito.
O primeiro ar.
Meu coração dispara tão forte que parece que vai rasgar o meu peito.
- Ele nasceu... não é? - pergunto. - Cadê o choro dele?
Vejo movimento atrás do pano. Rápido. Urgente. Gente se inclinando. Mãos trocando algo pequeno demais.
- Lara... - a médica diz. - Precisamos avaliá-lo agora.
- Mas eu quero ver... - imploro. - Só um segundo... eu preciso ver o meu filho...
Ela demora um segundo que parece inteiro.
Tempo demais para quem acabou de nascer.
Então o pano se move.
Algo pequeno surge no meu campo de visão, sustentado por mãos que não são minhas.
E o mundo para.
É ele.
Meu filho.
Meu peito enche de um jeito que não cabe em mim.
Tudo que doía se afasta por um segundo.
O mundo inteiro fica pequeno diante daquele corpo mínimo.
Eu esqueço o medo, o sangue, o lugar errado, as armas, a mesa fria.
Só existe ele.
Eu.
E algo quente que me invade por dentro como se o amor tivesse forma física.
Eu consegui.
Ele chegou.
Ele existe.
Se eu morrer agora, valeu.
Se eu sangrar agora, valeu.
Se tudo desabar, valeu.
Porque eu vi o rosto dele.
Porque ele saiu de mim.
Porque por um segundo, tudo compensou.
Não como eu sonhei.
Não limpo.
Não bonito.
Ele vem vermelho, molhado, frágil demais para existir fora de mim. A pele toda enrugada, o corpo minúsculo tremendo sem saber onde está. O cordão ainda pulsando como se quisesse me devolver o que acabou de perder.
É meu, meu Deus... é meu.
Eu fiz isso.
Eu pari um ser humano perfeito.
Meu coração reconhece antes da mente. Antes do medo. Antes da dor. O amor me atravessa como um acidente.
Mas junto vem o horror.
Ele não chora.
Não grita.
Não luta.
A boquinha abre num esforço inútil e só o silêncio sai.
O peito sobe... quase nada.
Depois para.
Meu útero ainda pulsa, aberto, sangrando para trazê-lo ao mundo... e o mundo não devolve o ar que ele precisa.
Eu fiz tudo, o meu corpo fez tudo.
E ainda assim, ele está ali, quieto demais para alguém que acabou de nascer.
E eu sinto como se alguém tivesse desligado o mundo.
Tudo em mim quer levantar, arrancar fios, pular da maca, pegar ele à força, colar no meu peito, soprar vida dentro da boca dele, ensinar o ar a existir fora de mim.
Se eu não tocar nele agora, talvez nunca mais toque.
Se eu não gritar agora, talvez ele morra sem ouvir minha voz.
O mundo inteiro encolhe para o tamanho do peito dele.
Eu tento. O corpo obedece por meio segundo e depois falha. Nada se move. Estou presa dentro de mim mesma enquanto levam o que é meu.
- Respira, meu amor... respira... - penso, sem conseguir falar.
Minhas mãos tremem no vazio.
Ele está longe.
Quieto demais.
Pequeno demais.
Sozinho demais.
- Ele precisa de oxigênio. - a médica diz, já virando o corpo dele.
A frase entra como faca.
Oxigênio é o que se dá quando algo está falhando.
- Não... - tento puxar ar. - Mostra de novo... por favor...
Mas eles já o levam.
Eles levam o que saiu de mim ainda quente.
Leva rápido, como se o tempo fosse inimigo.
- Ele tá vivo? - pergunto, a voz saindo em pedaços, como se eu tivesse que pedir permissão para continuar existindo. - Ele... ele tá respirando?
O amor e o medo se misturam e eu não sei mais respirar direito.
Meu corpo está aberto.
Mas é meu peito que sangra.
Ela não me responde com palavra.
Responde com pressa.
Eles levam meu filho para longe.
E o vazio dentro de mim vira dor.
Não física.
Algo pior.
- Não leva ele... - sussurro. - Eu esperei tanto...
Meu coração começa a bater errado.
- Frequência disparando.
- Lara, respira comigo.
Tento, mas não consigo.
O ar parece travado no meio do caminho.
Meu peito aperta.
O mundo começa a se afastar, como se eu estivesse sendo puxada para dentro de água.
- Eu não tô bem... - digo. - Eu não tô...
Minhas mãos sacodem sozinhas.
O rosto esquenta.
Depois esfria.
As luzes no teto se alongam.
As vozes ficam distantes.
- Pressão caindo.
- Não deixa ela apagar.
Quero responder mas não consigo.
Meu corpo falha em etapas.
Primeiro a visão embaça, depois o som vira eco e tudo fica pesado demais.
Por um segundo curto e infinito, eu caio para dentro de mim mesma.
Escuro, vazio, e então volto.
Um puxão, um chamado.
- Lara!
Respiro fundo.
O ar entra doendo.
Abro os olhos.
A sala está ali.
Os médicos, os homens armados.
Mas meu filho não.
- Cadê ele? - pergunto fraco. - Cadê o meu bebê?
Ninguém responde de imediato.
O silêncio cresce de novo.
E é pior que qualquer grito.
Meu coração bate na garganta.
Minhas mãos procuram algo que não está.
- Ele chorou? - pergunto. - Alguém ouviu ele chorar?
Ninguém diz nada, só se movem de forma rápida.
Sérios e urgentes.
Ele não chora.
O amor ainda está dentro de mim.
Mas o ar não está dentro dele.
E se esse segundo foi tudo o que eu ganhei... eu vou sobreviver a amar alguém que talvez eu nunca escute respirar?