Na Lunaris, a lua não ordenava. Ela sugeria.
Os rituais aconteciam sem urgência. As pessoas sentavam em círculo, não em hierarquia. Não havia títulos claros. Havia intérpretes - e mesmo eles falavam com cautela, como se a verdade fosse algo que pudesse quebrar se pressionada demais.
Caroline se lembra da primeira vez em que percebeu que algo estava errado.
Não foi durante um ritual público. Foi numa noite comum, quando tinha idade suficiente para notar o excesso de cuidado. A lua cheia iluminava o pátio interno da casa, e as outras crianças já haviam sido chamadas para dentro - exceto ela.
Ficou sozinha por tempo demais.
A mãe apareceu por fim, rápida demais, como quem percebe um erro tarde.
- Entra, Caroline.
A voz de Selene era sempre suave. Nunca urgente. Nunca dura.
- Eu fiz algo errado?
A mãe não respondeu de imediato. Apenas segurou sua mão e a conduziu para dentro.
- Não - disse por fim. - Você só... não precisa estar em tudo.
Na época, Caroline acreditou.
Hoje, adulta, entende o que aquilo significava.
Ela nunca foi excluída da Lunaris.
Foi suspensa.
A não-transformação nunca foi tratada como falha. Ninguém a corrigia. Ninguém a pressionava. Mas também ninguém celebrava. Era como se a lua tivesse passado por ela sem deixar marca - e isso era perigoso demais para ser nomeado.
Houve um ritual, anos depois, que Caroline só entende agora.
Ela lembra da sala cheia de velas, do cheiro de ervas, do silêncio pesado. Lembra da avó, Maera, sentada um pouco afastada dos outros intérpretes. Não participava mais como antes. Observava.
Caroline foi colocada no centro. Não como destaque - como leitura. Nada aconteceu.
Nenhum sinal.
Nenhuma resposta.
Nenhuma reação.
O silêncio durou tempo demais.
Quando terminou, os adultos se dispersaram com cuidado excessivo. A mãe evitou seus olhos. O pai, Elias, parecia tenso - não assustado, mas decidido.
Só a avó se aproximou. Maera segurou o rosto de Caroline entre as mãos e a observou como quem tenta memorizar algo antes de perder.
- Não é a lua que não te quer - disse, baixo. - É a lua que não sabe o que fazer com você.
Ninguém repetiu aquela frase depois.
A avó morreu dois anos mais tarde. Oficialmente, de causas naturais. Na prática, afastada demais para continuar influente. A Lunaris seguiu em frente como sempre fazia: absorvendo o que não podia explicar.
Foi depois disso que o pai começou a falar em estabilidade.
- A Lunaris não é um lugar para quem precisa de chão - disse uma vez. - Aqui tudo é interpretação.
Ele falava como se estivesse protegendo. E talvez estivesse.
O acordo com a Argentis veio como solução. Um casamento forte. Uma estrutura rígida. Um sistema onde a lua não era discutida - era obedecida.
Caroline foi transferida como quem muda de cenário, não de essência.
Na Argentis, ninguém interpretava. Mandavam.
Ali, sua não-transformação deixou de ser ambiguidade e virou problema. Algo a ser resolvido. Corrigido. Normalizado.
O casamento com Xavier encaixou perfeitamente nessa lógica.
Não porque fosse amor - embora houvesse afeto no início -, mas porque organizava o que não cabia. Uma loba que não respondia à lua precisava de um lugar que respondesse por ela.
Luna.
Esposa.
Figura estável.
Caroline aceitou porque não tinha linguagem para recusar. Passou tempo demais sendo observada, não ouvida.
Agora, sentada sozinha com o silêncio, entende o desenho completo pela primeira vez.
A Lunaris sabia. Sempre soube.
Sabia que a lua não a chamava.
Sabia que isso não era falha.
E soube, também, que isso a tornava perigosa.
Não por poder.
Mas por precedente.
Ela fecha os olhos por um instante.O silêncio que sempre a acompanhou não foi descuido. Foi decisão coletiva.
Mantê-la sem nome, Sem explicação, sem lugar claro.
Caroline respira fundo.
Não sente raiva imediata. Sente algo mais denso: lucidez tardia.
O casamento não foi o começo da prisão, foi apenas a forma mais organizada dela.
E agora, fora da Argentis, longe da Lunaris, entrando num mundo que não pede destino nem leitura espiritual, Caroline entende a dimensão real do que é:
Ela não pertenceu completamente a nenhuma tribo, porque nenhuma delas estava preparada para alguém que não precisava da lua para existir.
A lua não a chamou.
E talvez nunca fosse chamar.
Mas, pela primeira vez, Caroline não sente isso como ausência.
Sente como espaço.