Caroline
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Anna não me chama de Luna.
Nunca chamou
- Você tem certeza? - ela pergunta pela terceira vez, enquanto espalha os documentos sobre a mesa baixa.
A casa dela é pequena demais para títulos e grande o bastante para verdades. Aqui, ninguém mede o tom da minha voz. Aqui, eu sou só Caroline.
- Tenho - respondo. - O que eu não tinha era tempo. Isso eu usei bem.
Anna cruza os braços, me observando com aquele olhar que mistura amizade e advocacia.
- Então vamos fazer direito - diz. - Porque pedir divórcio de um Alpha não é o mesmo que pedir divórcio de um humano qualquer.
Ela empurra uma pasta grossa em minha direção.
- Nós temos provas - continua. - E você tem algo ainda mais raro.
Abro a pasta, já sabendo o que vou encontrar. Registros de transferências. Contratos. Extratos. Meu nome repetido vezes suficientes para não poder ser apagado com facilidade.
- Patrimônio próprio - Anna diz. - Construído legalmente. Você trabalhou anos na empresa da tribo. Recebeu salário. Investiu. Guardou. Tudo limpo.
A empresa da Tribo Argentis. O coração financeiro da alcateia. Onde trabalhei tempo suficiente para que me vissem como útil, mas nunca poderosa.
- Isso não impede que eles tentem te enfraquecer e nem garante que vão aceitar o divórcio - ela continua. - Mas impede que te deixem sem nada.
Fecho a pasta com cuidado.
- Exatamente.
Caminho até a janela. A lua ainda está alta, como se estivesse no controle de tudo. A lua não erra, dizem. Mas ela nunca assinou contratos.
Volto para a mesa.
- As provas da traição continuam sendo nossa carta silenciosa - digo. - Não como ataque.
- Como proteção - Anna concorda. - O conselho saberá que você poderia causar danos.
- E Xavier?
Ela inclina a cabeça.
- Ele vai perceber tarde demais que você sabe e não vai aceitar isso tranquilamente
Penso nos anos em que dediquei ao nosso casamento, quanta devoção à Xavier, e com o passar dos anos o quanto ele me afastou e tive que trabalhar dobrado para provar valor. Nas noites em que fiquei até tarde enquanto ele representava a tribo. No dinheiro que guardei em silêncio, sem saber exatamente para quê - apenas sabendo que um dia poderia precisar.
- Quando posso dar entrada no pedido? - pergunto.
- Quando quiser. - Anna segura minha mão. - Mas preciso ser clara: você perde o título, o sobrenome Ravenn, a posição na empresa... e a ilusão de proteção.
- E ganho o quê?
Ela sorri, pela primeira vez.
- Independência real.
Solto o ar devagar.
- Preciso pensar.
Quando deixo a casa de Anna, a noite parece diferente. Não mais ameaçadora. Apenas aberta.
A lua ainda observa.
A tribo ainda manda.
A empresa ainda gira sem mim.
Mas, pela primeira vez, sei exatamente o que é meu.
E isso é muito mais do que eles esperam que eu leve comigo.