Entregar o pedido de demissão foi simples. Não houve discursos nem despedidas longas. Apenas documentos, datas e a confirmação de que eu receberia apenas o que era meu por direito. Nada além. Nada que pudesse ser usado depois como favor concedido.
Trabalhar para a Tribo Argentis sempre me deu a ilusão de autonomia. Eu tinha salário, responsabilidades, decisões que carregavam meu nome.
Durante muito tempo, acreditei que aquilo me tornava menos dependente do título de Luna - quase invisível à sombra do Alpha. Mas autonomia vigiada não é liberdade.
É concessão temporária.
Enquanto meu nome estivesse ligado à empresa, qualquer movimento meu seria lido como extensão da vontade de Xavier.
Saindo antes, eu mudo a pergunta.
Não é mais por que ela quer ir embora.
É como não vimos isso antes.
Quando deixo o prédio, não sinto perda.
Sinto alívio.
–
Xavier
Eu descubro pela empresa.
Não por Caroline.
Não pelo conselho.
- Alpha... - o diretor financeiro começa, com o cuidado habitual. - Caroline solicitou desligamento formal.
A frase não provoca choque imediato. Provoca confusão.
- Desligamento? - repito, mais para ganhar tempo do que por não ter ouvido.
Ele desliza o documento pela mesa. Tudo em ordem. Assinatura firme. Nenhuma justificativa além do necessário. Um pedido limpo demais para ser impulsivo.
- Ela abriu mão do cargo - continua. - Pediu apenas o que é legalmente dela.
Legalmente dela.
Fico olhando para o papel por alguns segundos a mais do que o necessário. Caroline gosta desse trabalho. Não como quem se apega a poder, mas como quem encontra sentido. Ela é boa. Meticulosa. Respeitada.
- Quando isso foi decidido? - pergunto.
- Algumas semanas atrás. Só agora foi formalizado.
Semanas.
Dispenso o diretor e fico sozinho na sala ampla, cercado por relatórios, mapas e símbolos da Tribo Argentis. Tudo segue igual. Nada parece ameaçado. Ainda assim, algo não se encaixa.
Caroline trabalhou ali por anos. Conhecia cada engrenagem da empresa. Sabia como as decisões eram tomadas, onde havia margem, onde não havia. Não era o tipo de pessoa que abandona algo que construiu sem razão.
Então por quê?
Caminho até a janela. Vejo o pátio interno, a rotina intacta. Pessoas entrando e saindo. A empresa está funcionando como sempre. Ela não precisava sair para provar nada. Não precisava se afastar para ser ouvida.
A menos que... - A porta se abre antes que eu conclua o pensamento.
Lucca entra sem anunciar, como sempre fez. Beta. Braço direito. O único que raramente mede palavras comigo.
- Fiquei sabendo - ele diz, indo direto ao ponto. - Sobre a Caroline.
- Já correu rápido demais - respondo.
- Coisas assim sempre correm. - Ele cruza os braços, observando meu rosto. - Ela amava aquele trabalho.
Assinto.
- Era boa no que fazia, não é o tipo de coisa que se abandona por impulso - Lucca continua. - Nem por birra.
O jeito como ele diz birra me incomoda. Não porque esteja errado, mas porque Caroline nunca foi isso.
- Você falou com ela? - ele pergunta.
- Ainda não.
Lucca franze o cenho.
- Estranho.
- Por quê?
- Porque, se fosse algo simples, ela teria dito. - Ele faz uma pausa curta. - Caroline sempre foi direta quando se tratava do que importava.
Isso também é verdade.
Volto o olhar para o documento sobre a mesa. A assinatura firme. O pedido sem adornos.
- Talvez ela só queira mudar - digo, mais para mim do que para ele.
Lucca inclina a cabeça, avaliando.
- Talvez. - Depois acrescenta: - Mas mudar o que?
Não respondo.
Porque não sei.
Lucca não insiste. Ele nunca insiste quando percebe que estou tentando encaixar peças que não fecham.
- Seja qual for o motivo - ele diz -, isso não parece uma decisão pequena.
- Não é - concordo.
Ele se aproxima da mesa e olha o papel por cima do meu ombro.
- Ela não pediu exceções - observa. - Não negociou. Não deixou margem.
- Não - confirmo. - Apenas decidiu.
Lucca me encara por um instante longo demais para ser casual.
- Caroline nunca faz movimentos vazios.
Ele se vira para sair, mas para na porta.
- Quando entender o porquê - diz, sem olhar para mim -, talvez já seja tarde para perguntar.
A porta se fecha.
Fico sozinho outra vez.
Caroline não precisava abrir mão daquele emprego. Sempre disse que era o único espaço onde sentia que suas decisões tinham peso real.
Por que alguém deixaria justamente isso para trás?
Não vejo pressa.
Vejo cálculo - mas não consigo enxergar o objetivo.
Fecho o documento e o deixo sobre a mesa.
Seja qual for o motivo, ainda não chegou até mim.
E talvez seja isso que mais me intriga.
Caroline não está reagindo a algo recente.
Não está pedindo nada.
Não está explicando.
Está apenas... retirando peças.
Não sei por quê.
Ainda não.
Mas sei que Caroline nunca faz movimentos vazios.
E, pela primeira vez em muito tempo, percebo que estou observando alguém agir - sem saber qual jogo está sendo jogado.