Mas o divórcio já começou.
Começou no instante em que percebi que não precisava mais explicar minhas escolhas. Começou quando parei de ajustar palavras para não ferir o orgulho de um Alpha. Começou quando deixei de esperar que Xavier percebesse algo sozinho.
Arrumo meus papéis com cuidado. Não por apego, mas por método. Anna foi clara: quando o pedido for feito, tudo o que não estiver organizado será usado contra mim. Então eu me organizo. Datas. Assinaturas. Registros. Provas que talvez nunca precisem ser mostradas - mas que existem.
O silêncio da casa é diferente agora. Antes, ele me sufocava. Hoje, ele confirma.
Xavier ainda não entende. E não precisa entender para que eu siga.
Pela primeira vez, não estou reagindo a nada que ele fez.
Estou agindo apesar disso.
Quando olho meu reflexo no espelho, não vejo uma Luna. Vejo alguém que aprendeu a sobreviver dentro de um sistema... e agora está pronta para sair dele sem pedir absolvição.
O pedido virá.
Não como ataque.
Não como vingança.
Mas como encerramento.
E não há lua que reverta uma decisão tomada em silêncio.
-
Xavier
Nada mudou oficialmente.
E, ainda assim, tudo parece levemente fora de lugar.
Caroline passa pela casa como se estivesse apenas de passagem. Não evita, não provoca. Cumpre rotinas com precisão quase excessiva. Tento encontrar um ponto exato onde tudo começou a escorregar.
A saída da empresa. O jeito como ela fala menos - mas não por cansaço. Por escolha.
Não houve briga.
Não houve acusação.
Não houve crise.
E isso me deixa sem chão.
Estou acostumado a reagir a conflitos.
A resolver tensões.
A impor ordem quando algo ameaça sair do eixo.
Mas Caroline não está ameaçando nada.
Ela está retirando.
Retirando presença.
Retirando dependência.
Retirando espaço para negociação.
Quando percebo, estou observando cada gesto dela como se procurasse um erro que justifique uma intervenção. Algo concreto. Algo que eu possa consertar.
Não encontro.
E é isso que começa a incomodar.
Talvez ela esteja apenas cansada.
Talvez precise de tempo.
Talvez tudo volte ao lugar se eu não pressionar.
Mas uma parte de mim - a que conhece Caroline há anos demais - sabe que ela não faz movimentos vazios.
Ela nunca se afasta sem saber exatamente para onde está indo.
E eu...
Percebo tarde demais que não faço ideia de qual é esse lugar.
-
Caroline
À noite, a lua volta a ocupar o céu com a mesma segurança de sempre.
A lua não erra, dizem.
Talvez.
Mas, desta vez, ela não decide nada.
Não sei como a tribo vai reagir.
Não sei como Xavier vai se explicar.
Só sei que não vou recuar.
O divórcio não será o fim de algo que funcionava.
Será o reconhecimento de algo que terminou há anos.
E isso, curiosamente, me deixa em paz.
-
Xavier
Demoro a admitir, mas o pensamento se instala sem pedir permissão:
Talvez eu já tenha perdido Caroline...
Antes mesmo de perceber que havia algo a perder.
Não sei o motivo.
Não sei quando.
Não sei o que ela viu que eu não vi.
E, pela primeira vez, entendo que não é a lua que está me julgando.
É o silêncio dela.