Revirei os olhos, respirando fundo antes de me sentar na poltrona de couro atrás da mesa. O cheiro do whisky ainda pairava no ar, misturado a algo novo... inquietação, talvez. Cézar não tirava os olhos de mim. Aquele olhar eu conhecia bem. Era o mesmo de quando ele decidia ultrapassar limites apenas para provar que podia.
- Ficarei no quarto ao lado até que você termine com toda a delicadeza a primeira noite dela - disse, esfregando as mãos uma na outra, como se antecipasse algo inevitável. - Quando terminar, nós dois pegaremos ela juntos.
Permaneci em silêncio. Não por concordância, mas porque sabia que qualquer palavra naquele momento abriria uma discussão que não levaria a lugar algum. Meu irmão sempre foi assim: intenso, cruel quando queria, movido pelo caos. Eu, por outro lado, aprendia desde cedo a medir consequências.
- Você gosta de testar tudo como se fosse descartável - digo finalmente, servindo mais uma dose para mim. - Pessoas não são brinquedos, Cézar.
Ele riu. Uma risada baixa, quase divertida.
- Não seja hipócrita, Alex. Ela assinou. Sabia exatamente onde estava se metendo.
- Saber não é o mesmo que estar preparada - retruquei, encarando-o. - Existe uma diferença.
Cézar se levantou lentamente e caminhou até a janela, observando a cidade de Las Vegas se estender em luzes artificiais e promessas falsas.
- Você está mole - disse sem me olhar. - Paris te deixou sentimental demais.
- Ou talvez Las Vegas tenha te transformado em alguém que não sabe quando parar.
O silêncio que se seguiu foi denso. Perigoso. Cézar virou o rosto devagar, os olhos escuros fixos em mim.
- Não confunda controle com fraqueza - respondeu. - Nós somos Roux. Não salvamos ninguém. Usamos, vencemos e seguimos em frente.
Aquelas palavras me atingiram mais do que eu gostaria de admitir. Porque, no fundo, eu sabia que ele tinha razão. Nosso pai nos criou assim. Moldou-nos para não sentir, não hesitar, não amar. Ainda assim... algo naquela garota me incomodava.
- Ela não é como as outras - murmurei, mais para mim do que para ele.
- Nenhuma delas é - Cézar rebateu. - Até deixar de ser.
Ele saiu da sala sem esperar resposta, deixando para trás apenas o som dos próprios passos e a certeza de que aquela decisão já havia sido tomada muito antes da assinatura do contrato.
Fiquei sozinho.
A casa parecia maior quando Cézar não estava ali. Mais silenciosa. Caminhei até o bar novamente, mas dessa vez não servi bebida alguma. Minha mente estava longe demais para qualquer distração barata.
Elisa Martins.
O nome ecoava na minha cabeça com uma insistência irritante.
Ela não chorou. Não implorou. Não gritou. Apenas assinou, com mãos trêmulas e o olhar perdido em algum ponto invisível. Aquilo dizia muito. Pessoas desesperadas costumam ser barulhentas. Elisa era silenciosa demais para alguém à beira do colapso.
Subi as escadas devagar, cada degrau carregado de pensamentos que eu não deveria ter. O corredor estava iluminado apenas pelas luzes indiretas. Passei pelo quarto onde Cézar ficaria e segui adiante.
Antes de entrar, parei diante da porta.
Pela primeira vez em muito tempo, hesitei.
Não por medo.
Mas por consciência.
Girei a maçaneta.
Dentro do quarto, tudo estava em ordem demais. Elisa estava sentada à beira da cama, as mãos entrelaçadas no colo, postura rígida. Ela ergueu o olhar quando me viu, e por um segundo nossos olhos se encontraram. Não havia desafio ali. Nem submissão. Apenas... aceitação forçada.
- Você não precisa ter medo - digo, quebrando o silêncio.
Ela soltou uma risada sem humor.
- Medo não é exatamente a palavra certa.
Fechei a porta atrás de mim.
- Você pode desistir - falei, mesmo sabendo que era mentira. - Ainda há tempo.
- Não - respondeu firme. - Não há.
Aquela certeza me atingiu em cheio.
Aproximei-me devagar, mantendo distância suficiente para que ela não se sentisse encurralada. Elisa respirava fundo, como quem tenta se manter de pé durante uma tempestade.
- Isso não vai ser do jeito que você imagina - digo, sério. - Mas eu prometo que não vou te quebrar.
Ela me encarou por longos segundos.
- Não sei se isso é um consolo... ou uma ameaça.
Não respondi.
Porque naquele instante, pela primeira vez em anos, eu não tinha certeza de nada.
E isso...
isso era perigoso demais para um Roux.
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Elisa Martins
Sair daquela sala foi como se tivesse arrancado algo de dentro do meu peito. O ar entrou ardendo, pesado, como se meus pulmões não estivessem acostumados à liberdade - se é que aquilo podia ser chamado assim. Minhas pernas tremiam, mas eu continuava andando, guiada por Helena como se fosse um objeto frágil prestes a se quebrar.
- Eu preciso pegar minhas coisas - digo, a voz falhando, quase um sussurro.
Ela nem diminuiu o passo.
- Não - respondeu seca. - Comprei tudo novo para você. Roupas, sapatos, itens pessoais. Você vai entrar aqui agora e vai se vestir.
Parei no meio do corredor, o coração disparando.
- Essa noite você terá sua primeira noite.
As palavras me acertaram como um tapa.
- O quê?! - minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, misturada ao desespero que eu já não conseguia conter.
Helena suspirou fundo, como quem já esperava aquela reação.
- Eu sei que você nunca teve ninguém, Elisa. Por isso pedi que sua primeira noite fosse o mais delicada possível. Depois disso, o contrato será oficialmente efetuado.
Delicada.
Aquela palavra ecoou na minha cabeça de um jeito cruel. Delicada não combinava com nada do que estava acontecendo. Não combinava com aquela casa, com aqueles homens, com o contrato que eu havia assinado com mãos trêmulas e alma em frangalhos.
Eu não consegui responder. Não consegui chorar. Não consegui gritar.
Estava em completo choque.
Helena abriu a porta de um quarto amplo, elegante demais para alguém como eu. Tudo ali parecia caro, pensado, planejado. A cama grande demais, as cortinas fechadas, o silêncio quase sufocante.
- Tome um banho - ela disse, apontando para a porta do banheiro. - Tente se acalmar. Eles não gostam de atraso.
Eles.
Como se fossem uma entidade única. Como se não fossem dois homens com nomes, rostos e olhares que já me assombravam mesmo de olhos fechados.
Entrei no banheiro com as pernas fracas. Assim que a porta se fechou, me apoiei na pia, encarando meu reflexo no espelho. Eu mal me reconhecia. Olhos fundos, pele pálida, expressão vazia.
- Isso não é real - murmurei para mim mesma. - Não pode ser real.
Mas era.
A água quente caiu sobre meu corpo, mas não trouxe conforto. Cada gota parecia me lembrar do que estava prestes a acontecer. Lembrei da minha mãe, do rosto cansado dela no hospital, das mãos magras segurando as minhas.
Faça o que for preciso, ela diria. Sobreviva.
Quando saí do banho, Helena já havia separado as roupas sobre a cama. Um vestido simples demais para o que aquela noite significava, mas íntimo demais para alguém que ainda se sentia uma estranha dentro do próprio corpo.
- Eles não querem fantasia agora - explicou. - Querem você como é.
Como se isso fosse algum tipo de misericórdia.
Vesti-me em silêncio. Cada movimento parecia definitivo, como se eu estivesse cruzando uma linha invisível da qual não havia retorno.
- Ele virá primeiro - Helena disse, antes de sair. - Alex.
A porta se fechou atrás dela, me deixando sozinha com o som do meu próprio coração.
Eu me sentei à beira da cama, as mãos entrelaçadas no colo, exatamente como ele havia encontrado momentos antes. A diferença era que agora eu sabia. Sabia que aquela porta se abriria novamente. Sabia que nada do que eu sentia importava.
Quando a maçaneta girou, meu corpo inteiro enrijeceu.
Alex entrou devagar, fechando a porta atrás de si. Ele parou a alguns passos de distância, como se avaliasse o ambiente... ou a mim.
- Você está tremendo - disse baixo.
- Eu sei - respondi, sem conseguir esconder.
Ele respirou fundo, passando a mão pelos cabelos escuros.
- Elisa... - meu nome em sua boca soou diferente. Mais pesado. - Ninguém vai te forçar a nada que você não suporte, porém se não suportar, será substituída e perderá tudo.
Quis rir. Quis chorar.
- Eu já fui forçada no momento em que assinei aquele contrato.
Ele me encarou em silêncio. Havia algo nos olhos dele que eu não conseguia decifrar. Não era desejo explícito. Era conflito. Controle contido à força.
- Sente-se confortável - pediu, apontando para a cama. - Não precisa olhar para mim se não quiser.
Aquilo quase me quebrou.
Sentei-me mais para o centro da cama, as mãos apertando o tecido do vestido. O silêncio se estendeu entre nós, denso, carregado de tudo o que não estava sendo dito.
- Você pode me dizer para parar - ele disse. - Mesmo que o contrato diga o contrário.
Ergui o olhar lentamente.
- Você pararia?
Ele hesitou.
- Eu... - fechou os olhos por um segundo. - Eu tentaria.
Aquela resposta foi mais honesta do que eu esperava. E, estranhamente, mais assustadora.
Ele se aproximou, com movimentos calculados, como se cada passo fosse uma escolha consciente. Quando parou à minha frente, não me tocou de imediato. Apenas se ajoelhou, ficando na minha altura.
- Olhe para mim - pediu.
Eu obedeci.
- O que vai acontecer aqui não precisa te destruir - disse com firmeza. - Não hoje.
Engoli em seco.
- E amanhã?
Ele não respondeu.
Porque ambos sabíamos que aquela promessa não podia ser feita.
Quando sua mão tocou a minha, foi com cuidado demais para alguém como ele. Meu corpo reagiu instintivamente, o coração acelerando, a respiração falhando.
- Respire - ele disse. - Só respire.
E eu respirei.
Não porque confiava nele.
Mas porque precisava sobreviver.
Em algum lugar da casa, eu sabia, Cézar aguardava. Como um predador paciente, esperando a vez.
E naquele instante, compreendi uma verdade cruel:
O contrato não era apenas sobre o meu corpo.
Era sobre até onde eu conseguiria ir sem perder quem eu era.
E eu não sabia se estava pronta para descobrir.
{...}