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Como Contratar um Mafioso
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Capítulo 9 Não Existe Amor na Máfia img
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Capítulo 13 O Leão E A Gazela img
Capítulo 14 A Assassina E A Massagista img
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Capítulo 3 O Cheiro De Amélia

ISADORA

Me vi sozinha na sala, ainda hipnotizada pelo cheiro que, de tão adocicado e forte, se sobrepujava ao dos óleos. Amélia havia saído com um sorriso vencedor - ou melhor: de quem se acostumou a ter todos os seus desejos realizados. Eu, por outro lado, me sentia como se tivesse perdido alguma coisa; só não tinha ideia do quê. Era como se ainda a massageasse.

Lavei-as com mais força do que o necessário. Apesar da água quente escorrer pelos dedos, não levava consigo a sensação de tê-la tocado. De luva na mão direita, higienizei a maca de novo... e de novo. Porém, o aroma doce dos óleos, misturado ao perfume da cliente, pairava no ar. E o corpo dela ainda se encontrava ali, de algum jeito: sua pele bronzeada, seus olhos fechados, sua entrega sem medo.

"Com final feliz, né?" Esse sussurro indecente ecoava na minha cabeça. Não era a primeira vez que alguém me pedia, entretanto, foi a primeira vez que eu me senti... violada. Como se, naquela sala, não fosse eu quem estivesse no controle; como se tudo fosse além de uma mera massagem. Guardei os frascos, recolhi as toalhas, desliguei o ar-condicionado. Abri a janela para deixar o ar circular, mas nada disso ajudou. Amélia permanecia ali. Fui até a copa da clínica, liguei a velha cafeteira e busquei pelo pó. Inspirei o vapor amargo - tinha virado um vício -, tentando me ancorar no presente. Concluí que a visita de Amélia me incomodara tanto porque ela me lembrava de quem eu fui um dia.

"Eu não era assim, frágil", refleti. "Eu era livre. Eu era... eu. Era livre antes de Jonas, do quarto trancado, da cicatriz no pulso."

A cafeteira chiou.

Ao me servir, percebi o tremor em minhas mãos - o que era considerado um crime no trabalho de massagista. Sinal claro de que teria uma crise de pânico. Pelo meu corpo, correu um daqueles arrepios de alerta - "tem algo errado", e me vi incapaz de controlar. Sentei-me e larguei a xícara na mesa, para que ela não se espatifasse no chão. "Será que um dia vou me entregar a alguém de novo? Como ela se entregou a mim?" A imagem de Amélia - nua, relaxada, confiante - voltou com força. "Não. E nem quero isso. Não quero ser vulnerável de novo. Nunca mais."

- Amiga? - a voz de Camila me trouxe de volta.

De tão perdida em pensamentos, nem me dei conta de quando ela entrou na copa. Minha amiga se ajoelhou à minha frente, pousando as mãos nas minhas coxas.

- Tô aqui, tá? Respira comigo.

Me permiti chorar. E não foi um choro contido, de quem está triste. Foi um choro de quem se entregou ao pânico de vez: com direito a soluços, gritos abafados, fungadas e a garganta arranhando. Ela não disse nada, apenas permaneceu ali, até que murmurei:

- Quase joguei a cafeteira no chão - ri, naquele estado entre lágrimas e humor bobo.

- Ouchi! Se fizer isso, vamos ter que coar café em meia furada!

Se ergueu e abriu os braços e, num primeiro momento, recebeu minha hesitação. No entanto, decidi que me entregaria, sim, ao seu abraço. Encostei a cabeça no ombro dela e fechei os olhos.

- Eu sinto saudades de mim mesma - confessei. - Ou melhor, de quem eu achava que era.

Mais uma vez, nada comentou.

- Lembra de quando a gente montou o projeto do spa? Toque, cura, prazer, liberdade... E agora eu tô aqui, fazendo massagem com final feliz só pra pagar as contas. Eu traí a mulher que eu era!

- Você não traiu nada, Isa. Você sobreviveu!

- Mas eu não quero apenas sobreviver...

Camila se afastou, serviu o resto de café em outra xícara. Depois, jogou a cafeteira no chão, para meu espanto.

- Então, vamos começar a viver hoje - decidiu, sentando e me estendendo a caneca. - Começaremos com uma cafeteira nova. Esse café está horrível!

Me pus a rir de maneira espontânea. Sim, aquela era eu: de riso fácil. Livre para sorrir.

- Obrigada... por tudo.

Bebemos em silêncio, e nem foi desconfortável. Era uma cena que gritava: "amiga, você não está sozinha". Só então catamos os cacos pelo chão.

Mais tarde, em casa, tomei um banho demorado. A água quente ajudava a soltar os músculos, mesmo assim, os pensamentos continuavam presos a Amélia. Enxuguei bem os fios do cabelo, vesti um pijama de tecido mais espesso e me joguei na cama com o notebook no colo. "Quem é essa mulher, afinal?" Abri o navegador e digitei: "Amélia Verticália empresária" - e não encontrei nada significativo. Tentei "Amélia" e sua descrição física. Novamente, nada demais. Então, por impulso, digitei: "Amélia Verticália socialite". E eis que a encontro: Amélia Calderón, vestida num maiô exuberante, ao lado de uma piscina tão azul quanto o céu de verão.

O site dizia que era uma importante influenciadora digital de lifestyle, com quase um milhão de seguidores. Dona de uma linha de cosméticos e sempre postando suas opiniões ácidas sobre moda e celebridades. Casada com Alberto Calderón, empresário do setor de importação e exportação. E, segundo uma matéria antiga, ele fora indiciado por tráfico de armas - nunca condenado por falta de provas. Senti meu estômago revirar. Calderón - eu já ouvira esse nome. E não foi na TV ou em sites da cidade, como se eu fosse apenas uma cidadã vendo as últimas notícias. Ouvi aquele nome na boca de Jonas.

"- Os Calderón são os reis do porto. Se conseguirmos ser úteis pra eles, conseguiremos armas num preço bem mais em conta." - Jonas comentou certa vez para um amigo, achando que eu não ouvia.

Abri o perfil de Amélia numa rede social: fotos em jantares de gala, viagens internacionais, campanhas publicitárias. E, entre uma selfie e outra, uma legenda que fez gelar meu sangue: "A beleza é uma arma. E, olha só, eu nasci pronta para atirar!" Fechei o notebook com a mesma força com que meu coração batia - rápido, descompassado, fazendo meus tímpanos tremerem. Aquela mulher... ela não era só uma cliente.

Me levantei da cama, fui até a janela, tentando respirar um pouco. No entanto, do outro lado da rua, um carro preto estacionado. Com vidros escuros, permanecia de motor e faróis ligados.

- Ou estou sendo paranoica... ou estou sendo vigiada. - Fechei as cortinas, como se fosse o suficiente para me proteger. - Se Jonas a enviou - sussurrei para mim mesma, - é porque ainda não estou livre de seu amor doentio.

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