- Não é isso. É sobre as movimentações suspeitas dos Calderón no porto. Nessa semana, estão mais... como eu poderia dizer? Ousados que o habitual.
Não comentei nada. Limitei-me a tomar o tablet e analisar os dados com calma. Quanto ao cara da mesa 12, quer que eu o processe ou que o Thiago dê uma sumida nele? - meu irmão quis saber, com aquele tom de quem preferia a primeira opção.
- Nem um, nem outro. Só expulse ele da lista VIP. E avise que, da próxima vez, faremos dados com os dentes dele.
- Você, sempre tão poético - sorriu de canto de boca.
- Apenas prático. Daqui umas semanas, ele pagará cinco vezes mais para voltar a ser VIP.
Antes que ele falasse algo, um dos meus homens bateu à porta. Quando lhe dei permissão para entrar, se aproximou. Vestia-se todo de preto e trazia a expressão aliviada de quem realizou bem o serviço que lhe fora confiado.
- Don Maranzano, pegamos o suspeito. Tá na Caverna.
Assenti, fazendo um gesto para que ele se retirasse. Eu estava esperando por esse encontro, ansioso.
- Vou deixar você com seus serviços. Não quero quebrar minhas unhas - se aproximou para pegar o aparelho.
Julguei ser um bom momento para agir. Afastei-me o mesmo tanto, jogando o dispositivo sobre a mesa, que rodou sobre si mesmo. Dante, que estendia a mão, nada entendeu.
- O que foi isso? Está com medo de mim? - riu, como se meu gesto não passasse de uma piada de mau gosto.
- Medo de um viado como você? - cocei a sobrancelha direita. - Aceitar que você gosta de homem não te dá o direito de vir com essas viadagens pra cima de mim.
- Que merda é essa agora? - espantou-se, ainda descrente.
Mantive o olhar frio e firme nos olhos dele. A mágoa em suas íris castanhas me cortava por dentro. Eu sabia que minhas palavras afiadas o feriam - e esse era o objetivo. Mesmo que ambos sangrassem.
- "Não quero quebrar minhas unhas" - repeti, olhando para os calos que eu carregava nas mãos. - Te concedi o direito de dar a bunda pro Thiago, mas só vou te dizer uma vez: ser fodido por ele é uma coisa... agir como uma bonequinha de porcelana é outra.
Ele engoliu seco, só não abaixou a vista.
Meu desejo era que ele fosse embora. Queria que saísse correndo, batendo a porta, como fazia quando éramos crianças, e nosso pai nos forçava a vermos o assassinato de um rival. Então, eu lembrei.
Lembrei do nosso pai, Don Ettore, segurando Dante pelo colarinho e gritando: "Ensina teu irmão a ser homem, Lorenzo!" Lembrei de mim mesmo, com onze anos, sendo forçado a bater no meu caçula. Minha mão já tremia naquela época. Como não acatei a ordem, Don Ettore tirou o cinturão e bateu em nós dois. Lembrei da cintada que levei no rosto; do sangue escorrendo por meus olhos. Uma cena que minha cicatriz na sobrancelha nunca me deixou esquecer.
- Foi assim que você afastou a Chiara? Falando merdas só pra machucá-la? - Dante questionou, me trazendo de volta ao presente. - Olha pra mim quando eu falar com você!
Outra pessoa teria a pele arrancada por me dar ordens, porém apenas virei o rosto, buscando a garrafa de uísque na prateleira.
- Chiara não suportou a ideia de ser irmã de um parricida - expliquei, seco. - Quanto a você, só fale como uma princesinha de unhas coloridas entre quatro paredes, se empinando pro seu macho... não na minha frente.
Por que ele simplesmente não ia embora?
- Você não me engana com essas ofensas - insistiu. - Você me protegeu do nosso pai várias vezes. Você matou todos os mafiosos que descobriram. Mandou a cabeça deles como recado.
- Inocente Dante - gargalhei.
Dei dois passos: o suficiente para que ele recuasse até a porta. Precisava ameaçá-lo, até que o medo o fizesse sumir... Ele tinha a capacidade de ser um advogado respeitado noutro lugar, não um mafioso como eu.
- Minha posição me fez ver: nosso pai estava certo em muitas coisas. E uma delas é: como é vergonhoso ter alguém como você na nossa família. -
Levei as mãos ao pescoço dele. - Se eu visse as coisas como vejo agora, teria deixado nosso pai te matar. Não teria matado ninguém da máfia pra te proteger. Afinal, eles não eram um maricas que teme quebrar a porra da unha!
Dei dois tapas fracos no rosto dele: não foi para machucar. Só para humilhar.
- Agora decida: ou você começa a se comportar como um homem ou prefere que eu mesmo te vista numa cinta-liga e te faça dançar num pole dance?
- Pode tentar me afastar o quanto quiser, Don. Eu não vou a lugar algum - teimou. - Estar aqui é minha herança, tanto quanto é a sua.
Não demonstrei nenhuma reação. Senti o desejo de abraçá-lo, mas não tinha esse direito. Nem o de demonstrar simpatia ou de me mostrar favorável ao relacionamento deles. Apenas abri a porta para que ele se retirasse.
Quando fiquei sozinho, servi-me de mais uísque, percebendo no gesto que minha mão tremia. Eu odiava quando isso acontecia. O ponto no ouvido chiou. Era Thiago.
- Don Maranzano, posso dar uma surra nele antes da sua chegada?
Inspirei todo o ar que pude, para que minha voz não seguisse o tremor das minhas mãos.
- Negativo. Só amarra ele. Estou descendo.
E, enquanto caminhava para a Caverna, só conseguia pensar em uma coisa: "Dante, você precisa entender que não quero que você se torne eu, muito menos nosso pai. Prefiro te matar a te ver vivendo nesse inferno."