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Como Contratar um Mafioso
img img Como Contratar um Mafioso img Capítulo 4 A Herança de Don Ettore.
4 Capítulo
Capítulo 6 A Vítima É Sempre Louca img
Capítulo 7 Um Domingo Sangrento img
Capítulo 8 Um Simples Telefonema img
Capítulo 9 Não Existe Amor na Máfia img
Capítulo 10 O Preço de um Erro img
Capítulo 11 De Don a Marido de Aluguel img
Capítulo 12 P.S.: Teu Enzo img
Capítulo 13 O Leão E A Gazela img
Capítulo 14 A Assassina E A Massagista img
Capítulo 15 Uma Cliente Que Sabia Demais img
Capítulo 16 A Mulher No Espelho img
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Capítulo 4 A Herança de Don Ettore.

LORENZO

Abri a porta do meu escritório e me deparei com Dante, meu irmão mais novo, como se ele já me esperasse. Trajava uma camisa social clara, dobrada até os cotovelos, sem gravata, com um desses suspensórios da moda, nada de suspensórios táticos. Ele rolava a tela de um tablet, concentrado.

- Você chegou a ver isso? - perguntou, sem levantar os olhos.

- Sobre o cliente da mesa 12? O Lucca me alertou sobre a suspeita de lavagem de cinquenta mil em fichas falsas. E ainda teve a audácia de pedir nosso melhor champanhe. Cagando no prato que comeu...

- Não é isso. É sobre as movimentações suspeitas dos Calderón no porto. Nessa semana, estão mais... como eu poderia dizer? Ousados que o habitual.

Não comentei nada. Limitei-me a tomar o tablet e analisar os dados com calma. Quanto ao cara da mesa 12, quer que eu o processe ou que o Thiago dê uma sumida nele? - meu irmão quis saber, com aquele tom de quem preferia a primeira opção.

- Nem um, nem outro. Só expulse ele da lista VIP. E avise que, da próxima vez, faremos dados com os dentes dele.

- Você, sempre tão poético - sorriu de canto de boca.

- Apenas prático. Daqui umas semanas, ele pagará cinco vezes mais para voltar a ser VIP.

Antes que ele falasse algo, um dos meus homens bateu à porta. Quando lhe dei permissão para entrar, se aproximou. Vestia-se todo de preto e trazia a expressão aliviada de quem realizou bem o serviço que lhe fora confiado.

- Don Maranzano, pegamos o suspeito. Tá na Caverna.

Assenti, fazendo um gesto para que ele se retirasse. Eu estava esperando por esse encontro, ansioso.

- Vou deixar você com seus serviços. Não quero quebrar minhas unhas - se aproximou para pegar o aparelho.

Julguei ser um bom momento para agir. Afastei-me o mesmo tanto, jogando o dispositivo sobre a mesa, que rodou sobre si mesmo. Dante, que estendia a mão, nada entendeu.

- O que foi isso? Está com medo de mim? - riu, como se meu gesto não passasse de uma piada de mau gosto.

- Medo de um viado como você? - cocei a sobrancelha direita. - Aceitar que você gosta de homem não te dá o direito de vir com essas viadagens pra cima de mim.

- Que merda é essa agora? - espantou-se, ainda descrente.

Mantive o olhar frio e firme nos olhos dele. A mágoa em suas íris castanhas me cortava por dentro. Eu sabia que minhas palavras afiadas o feriam - e esse era o objetivo. Mesmo que ambos sangrassem.

- "Não quero quebrar minhas unhas" - repeti, olhando para os calos que eu carregava nas mãos. - Te concedi o direito de dar a bunda pro Thiago, mas só vou te dizer uma vez: ser fodido por ele é uma coisa... agir como uma bonequinha de porcelana é outra.

Ele engoliu seco, só não abaixou a vista.

Meu desejo era que ele fosse embora. Queria que saísse correndo, batendo a porta, como fazia quando éramos crianças, e nosso pai nos forçava a vermos o assassinato de um rival. Então, eu lembrei.

Lembrei do nosso pai, Don Ettore, segurando Dante pelo colarinho e gritando: "Ensina teu irmão a ser homem, Lorenzo!" Lembrei de mim mesmo, com onze anos, sendo forçado a bater no meu caçula. Minha mão já tremia naquela época. Como não acatei a ordem, Don Ettore tirou o cinturão e bateu em nós dois. Lembrei da cintada que levei no rosto; do sangue escorrendo por meus olhos. Uma cena que minha cicatriz na sobrancelha nunca me deixou esquecer.

- Foi assim que você afastou a Chiara? Falando merdas só pra machucá-la? - Dante questionou, me trazendo de volta ao presente. - Olha pra mim quando eu falar com você!

Outra pessoa teria a pele arrancada por me dar ordens, porém apenas virei o rosto, buscando a garrafa de uísque na prateleira.

- Chiara não suportou a ideia de ser irmã de um parricida - expliquei, seco. - Quanto a você, só fale como uma princesinha de unhas coloridas entre quatro paredes, se empinando pro seu macho... não na minha frente.

Por que ele simplesmente não ia embora?

- Você não me engana com essas ofensas - insistiu. - Você me protegeu do nosso pai várias vezes. Você matou todos os mafiosos que descobriram. Mandou a cabeça deles como recado.

- Inocente Dante - gargalhei.

Dei dois passos: o suficiente para que ele recuasse até a porta. Precisava ameaçá-lo, até que o medo o fizesse sumir... Ele tinha a capacidade de ser um advogado respeitado noutro lugar, não um mafioso como eu.

- Minha posição me fez ver: nosso pai estava certo em muitas coisas. E uma delas é: como é vergonhoso ter alguém como você na nossa família. -

Levei as mãos ao pescoço dele. - Se eu visse as coisas como vejo agora, teria deixado nosso pai te matar. Não teria matado ninguém da máfia pra te proteger. Afinal, eles não eram um maricas que teme quebrar a porra da unha!

Dei dois tapas fracos no rosto dele: não foi para machucar. Só para humilhar.

- Agora decida: ou você começa a se comportar como um homem ou prefere que eu mesmo te vista numa cinta-liga e te faça dançar num pole dance?

- Pode tentar me afastar o quanto quiser, Don. Eu não vou a lugar algum - teimou. - Estar aqui é minha herança, tanto quanto é a sua.

Não demonstrei nenhuma reação. Senti o desejo de abraçá-lo, mas não tinha esse direito. Nem o de demonstrar simpatia ou de me mostrar favorável ao relacionamento deles. Apenas abri a porta para que ele se retirasse.

Quando fiquei sozinho, servi-me de mais uísque, percebendo no gesto que minha mão tremia. Eu odiava quando isso acontecia. O ponto no ouvido chiou. Era Thiago.

- Don Maranzano, posso dar uma surra nele antes da sua chegada?

Inspirei todo o ar que pude, para que minha voz não seguisse o tremor das minhas mãos.

- Negativo. Só amarra ele. Estou descendo.

E, enquanto caminhava para a Caverna, só conseguia pensar em uma coisa: "Dante, você precisa entender que não quero que você se torne eu, muito menos nosso pai. Prefiro te matar a te ver vivendo nesse inferno."

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