Entrei na cozinha. A equipe, composta principalmente por ômegas de baixo escalão que não conseguiam se transformar, ergueu os olhos com medo. Eles estavam comendo sobras - restos de carne e pão velho.
"Onde está o assado?", perguntei, olhando para o balcão vazio.
"Dona Cornélia levou os melhores cortes para o quarto dela antes de ir para o aeroporto", sussurrou uma jovem chamada Sara. "Ela disse... ela disse que os empregados não merecem picanha."
Fechei os olhos. Eu havia comprado aquela carne especificamente para o jantar de agradecimento da equipe esta noite.
Meu celular vibrou. Era uma chamada de vídeo de Ricardo.
Eu aceitei, apoiando o celular contra uma fruteira.
O rosto de Ricardo preencheu a tela. Ele parecia vermelho, furioso. O ruído de fundo era o zumbido caótico de um terminal de aeroporto.
"Por que meu cartão foi recusado?", ele gritou. As pessoas ao fundo se viraram para olhar. "Pousamos para reabastecer em Manaus e o piloto disse que a conta de combustível está congelada!"
"É mesmo?", perguntei, pegando uma maçã e inspecionando-a. "Que pena."
"Resolva isso, Helena! A Âmbar está com fome. Ela precisa de carne de caça orgânica, e o restaurante do aeroporto não aceita o cartão corporativo."
O rosto de Âmbar apareceu por cima do ombro dele. Ela parecia pálida, mas seus olhos brilhavam com malícia.
"Ah, Helena", ela arrulhou, com a voz escorrendo falsa simpatia. "Esqueceu de pagar as contas de novo? Você sabe como fica esquecida quando está estressada. Talvez devesse apenas transferir a autorização para o Ricardo. Ele é o Alfa, afinal."
"A autorização requer uma leitura biométrica do titular da conta", eu disse calmamente. "Ou seja, eu."
"Então autorize!", rugiu Ricardo. "Eu te ordeno!"
Senti a pressão do Comando do Alfa me atingir.
No mundo dos lobos, a voz de um Alfa é lei. Ela força fisicamente o lobo a se submeter. Força o pescoço a se expor, os joelhos a se dobrarem.
Senti a onda de pressão passar por mim. Tentou forçar minha cabeça para baixo.
Mas eu sou uma Mestra Curandeira. Meu espírito foi forjado por anos de batalha contra a própria morte. Minhas barreiras mentais são feitas de titânio.
Dei uma mordida na maçã. *Croc.*
Olhei diretamente para a câmera. Não me curvei. Não vacilei.
"Não", eu disse.
Ricardo congelou. O choque em seu rosto foi satisfatório. O Comando de um Alfa falhar era raro. Significava que ou o Alfa era fraco, ou o alvo era incrivelmente poderoso.
Ele escolheu acreditar que a primeira opção era impossível.
"Você... você me desafia?", ele gaguejou.
"Você quebrou o contrato, Ricardo", eu disse. "E não estou falando apenas da nossa certidão de casamento. Estou falando do acordo original. Aquele que você assinou com tinta vermelha. Você quebrou essa lealdade na pista do aeroporto hoje."
"Eu sou seu companheiro!"
"E ela", apontei para Âmbar na tela, "aparentemente é sua prioridade. Deixe que ela pague pelo combustível."
"Eu não tenho dinheiro humano", Âmbar fungou. "Eu vivo segundo os costumes antigos."
"Então cace um coelho no estacionamento", eu disse.
A voz estridente de Cornélia veio do fundo. "Helena! Pare com essa bobagem imediatamente. Nós somos a Alcateia Almeida! Não ficamos na fila do Burger King!"
"Agora ficam", eu disse.
"Quando eu chegar em casa", ameaçou Ricardo, sua voz baixando uma oitava, "você será punida. Vai passar uma semana nas celas por essa insolência."
"Você tem que chegar em casa primeiro", lembrei-o. "E Ricardo? Não se dê ao trabalho de pedir uma sessão de cura para suas enxaquecas hoje à noite. A clínica está fechada."
Encerrei a chamada.
Olhei para Sara e os outros membros da equipe. Eles me encaravam com os olhos arregalados.
"Peçam pizzas", eu disse a eles, tirando um maço de dinheiro da minha bolsa - meu dinheiro pessoal, não os fundos da alcateia. "Peçam o que quiserem. Coloquem na minha conta."
"Mas... Luna", gaguejou Sara. "O Alfa disse..."
"Eu não sou mais a Luna", eu disse, sentindo um peso sair dos meus ombros. "Sou apenas a proprietária."
Virei-me e caminhei em direção às escadas.
Eu precisava fazer as malas. Mas primeiro, eu tinha um destino específico em mente.
Subi para o terceiro andar, para a ala do Alfa.
A porta do quarto principal - meu quarto - estava fechada.
Eu a abri.
O cheiro me atingiu instantaneamente. Não era apenas o perfume persistente. Era o cheiro de sexo.
Baunilha e almíscar. Doce e enjoativo.
Era recente.
Eles não apenas me humilharam no aeroporto. Eles profanaram meu santuário antes mesmo de partirem.
Fiquei na porta e, pela primeira vez na vida, não senti o desejo de curar.
Senti o desejo de destruir.
"A conta foi enviada", sussurrei para o quarto vazio. "E a taxa de juros será fatal."