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O Cowboy Jiujitsuka
img img O Cowboy Jiujitsuka img Capítulo 4 A recepcionista
4 Capítulo
Capítulo 6 A outra recepcionista img
Capítulo 7 Quimono azul img
Capítulo 8 O gostoso, a escada e o lixo img
Capítulo 9 Café, almoço e janta! img
Capítulo 10 Ela e vários porquês img
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Capítulo 4 A recepcionista

Ele ouvia Ícaro falar, mas na verdade sua atenção estava na recepcionista da Team Masters e na forma como ela explicava as opções de pagamento para os outros visitantes.

- ... E aí você pode ficar vindo até o dia que tiver de voltar para a fazenda, Baha. - Ícaro se referia aos dias em que Alex iria ficar em Phoenix. - Hey! Tá dormindo, cara?

- Queria... - Alex se voltou para Ícaro, mas o encontrou com um olhar desconfiado e repreensivo.

- Tá de sacanagem, né? - Ícaro diminuiu os olhos e cruzou os braços. - É sério? - perguntou de forma esganiçada.

- O quê? - Alex deu de ombros - só estou ouvindo o que a moça tá falando. Tenho que pagar minha diária, certo? - se fez de desentendido.

- Espero que seja só isso mesmo, Alex. - Ícaro não sabia se acreditava totalmente.

- Hey, qual é? - Alex tocou o ombro do amigo que também era empresário mas no ramo das transportadoras. - Você me conhece...

Ícaro ainda o olhava com desconfiança, mas decidiu relevar. Ele sabia qual era o tipo de mulher com quem o amigo se envolvia e poderia dizer que Érika não estava no padrão de Alex. Ignorou o que pensou e ambos se dirigiram a recepção, mas ela já não estava mais lá.

Raphael estava se preparando para deixar o centro de treinamento quando os dos o alcançaram.

- Sensei, Baha ainda não pagou. - Ícaro se apressou em informar para não parecer um calote.

- Ele vem amanhã, certo? - Rapha perguntou olhando para Alex de forma convidativa.

- Sim, claro. - ele concordou e de fato, havia gostado da aula. Era faixa azul e gostava de Jiu-jitsu, mas algo mais o atraiu, mesmo que ele não tivesse tanta certeza ou não quisesse aceitar aquela informação. - Onde posso fazer a matrícula?

- Mas você volta para a fazenda na próxima semana, não é? - Ícaro perguntou confuso. - Não precisa se matricular. É só acertar o valor da diária. Correto, sensei? - voltou-se para Rapha.

- Veja com a Érika, ela vai explicar tudo e você pode fazer um planejamento compatível com sua agenda pelos próximos dias.

- Oss! - Alex concordou com a saudação Jiujitsuka e claro que ele já sabia como funcionava... Mas queria um pretexto.

- Ah, olha ela ali! - Ícaro olhou para o tatame e Alex imediatamente o seguiu.

- Hoje eu acho que não dá mais porque ela já encerrou. - Rapha sorriu e se aproximou um pouco da passagem entre a recepção e o tatame onde Érika estava concentrada em colocar a bandagem nos punhos ao som de Bon Jove. - Agora é o treino dela... - ele falou orgulhoso, assim como Ícaro também observava.

Mas outros olhos também a observavam. Alex estava claramente intrigado... Ela não usava um quimono e estava muito perto dos sacos.

A curiosidade para vê-la treinar o pegou com força.

- Só amanhã, Baha. - disse Ícaro caminhando para a saída.

Alex o seguiu, tentando disfarçar a curiosidade e, ao mesmo tempo, louco para perguntar sobre o que ela praticava. Sabia que era algo relacionado ao uso de luvas de boxe, mas queria ter certeza. O caso é que se perguntasse, iria deixar a ideia de um interesse evidente e ele não estava interessado, certo?

- Até amanhã, Érika! - Rapha se despediu gentilmente como sempre, seguido por Ícaro.

- Bom treino, gata! - Ícaro passou a frente de Alex que o seguiu, mas não antes de acenar novamente para ela e receber outro aceno de cabeça em resposta.

Quando percebeu que eles saíram, Érika voltou a respirar. Não quis pensar muito sobre o assunto, optando por se concentrar no seu muay Thai.

Logo estaria em casa, junto aos filhos e aquela sensação ridícula iria passar.

Ela quis acreditar nisso.

~

As 17:45 ela desceu no ponto de ônibus agradecendo por já ser sexta-feira. O corpo pedia descanso, mas antes precisava cumprir com o compromisso de todas as sextas com os filhos, sobrinhos e crianças das proximidades.

Jogar "baleado" na rua até as 20:00 da noite com todas as crianças do quarteirão era um compromisso que ela mantinha de pé desde que mudou-se para Glendale, uma cidade povoado próximo a Phoenix, no estado do Arizona.

Uma decisão difícil que Érika tomou depois de se separar do pai de seus filhos e deixar a Califórnia com tudo para trás, após 11 anos de um matrimônio que só lhe rendeu traumas, tristezas, dependência emocional e financeira, abusos, humilhações e traições.

Tudo só piorou quando o Mason foi diagnosticado e o peso do preconceito atingiu com toda a força as estruturas de uma família que já era extremamente frágil. Edson Parker, pai de Mary e Mason não aceita a o filho por considerá-lo inválido, inútil e i digno de ser seu filho, chegando ao ponto de tentar fazer Érika escolher entre Mary e Mason. Sugerindo que ela deixasse a menina por ser "normal" e levasse consigo apenas o menino porque este era "doente".

Para Érika não tinha o que ser pensado. Ela simplesmente pegou as crianças e deixou a cidade e o estado onde o pai é avós paternos moravam, onde tinham residência, transportes próprios e uma ótima condição financeira; entretanto, nada disso trazia felicidade para ela os filhos.

Foi um relacionamento que começou na adolescência, quando ambos eram muito jovens, frequentando a igreja...

Na época Edson era um jovem convertido, cheio de sede pela busca espiritual e a presença de Deus. Um cara boa praça, nascido em uma família sólida, bem sucedida e tradicional.

Por outro lado tinha Érika, jovem de 18 anos, convicta de sua fé, estudiosa, levita da igreja, marcada por uma infância carregada de traumas e marcas do abandono, rejeição, agressões, enfermidades e mais abusos...

O que poderia dar errado nessa união?

Tudo.

E só depois de perceber o quanto foi carente e o quanto estava desesperada por amor e carinho, Érika entendeu que havia cometido erros terríveis e o preço era recomeçar. Nesse trajeto, teve de reiniciar as próprias emoções, sem dar espaço para qualquer chance de afeto porque sabia que estava doente e refém da dependência emocional.

Ela se culpava por não ter garantido um lar estável para os filhos. Durante os últimos dois anos lutou contra a pergunta que não calava: onde havia errado?

E a resposta era sempre a mesma: um vazio que pairava sem nenhuma conclusão exata que não fosse culpa.

A única certeza de que ela sempre esteve convicta foi da própria fé e de que Deus era o único com quem ela poderia sempre contar...

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