Ponto de Vista de Jana:
Eles não me levaram para um quarto de hospital normal. Levaram-me para o Salão de Reuniões da Alcateia.
Era uma sala vasta com tetos altos e estandartes da Alcateia da Lua de Prata pendurados nas paredes. Mas agora, estava montada como um estúdio. Câmeras em tripés. Luzes brilhantes me cegavam.
Kailane estava sentada em uma cadeira de rodas no centro da sala. Ela usava uma camisola de hospital azul-clara que a fazia parecer frágil e angelical. Seu rosto estava perfeitamente maquiado para parecer pálido, mas bonito.
- Coloquem-na ali - disse Kailane, apontando para o chão ao lado de sua cadeira de rodas.
Os guardas me jogaram no chão. Bati com força na madeira polida. Meu quadril se chocou contra o piso, e mordi a língua para não gritar.
- O que é isso? - perguntei, olhando ao redor.
- Uma confissão - disse Kailane. Ela sorriu, mas seus olhos estavam frios como gelo. - A alcateia precisa saber a verdade sobre a sabotagem. Entraremos ao vivo em um minuto.
Axel estava atrás da cadeira de Kailane, sua mão repousando protetoramente em seu ombro. Ele parecia uma estátua do julgamento.
- Você vai admitir seus crimes - disse Axel. - Você vai dizer à alcateia que tentou arruinar a Muralha de Defesa porque estava com inveja da futura Luna.
- Eu não vou mentir - eu disse, minha voz tremendo.
Axel se inclinou. Seus lábios roçaram minha orelha, mas não havia intimidade nisso. - Se não o fizer, eu a declararei uma Renegada agora mesmo. Vou bani-la. Você morrerá sozinha na floresta, caçada por vampiros e vira-latas. É assim que você quer terminar? Ou quer salvar sua irmã e pelo menos morrer com um nome?
Era uma barganha cruel. Morrer como Renegada significava que minha alma estaria perdida para sempre, desconectada das terras da alcateia. Morrer como membro da alcateia significava que eu poderia encontrar paz com a Deusa da Lua.
- Um minuto! - um técnico gritou.
- Ajoelhe-se - Axel comandou. A Voz de Alfa me atingiu novamente.
Eu me arrastei para ficar de joelhos. Senti-me pequena. Senti-me suja.
- Ação!
O rosto de Kailane se transformou instantaneamente. Ela olhou para a câmera com lágrimas brotando em seus olhos.
- Meus queridos membros da alcateia - disse ela, sua voz tremendo perfeitamente. - Venho a vocês com o coração pesado. Hoje, encontramos uma falha nos projetos da nova muralha. Uma falha que poderia ter nos matado.
Ela olhou para mim. A câmera focou no meu rosto. Eu sabia que parecia um monstro - cabelo bagunçado, roupas sujas, olhos sombrios.
- Minha irmã, Jana - Kailane continuou - tem algo a dizer.
Axel me cutucou com a bota. Uma ameaça silenciosa.
Olhei para a lente preta da câmera. Vi meu reflexo. Vi uma garota que havia perdido tudo.
- Eu... - Minha voz falhou. - Eu admito.
- Mais alto - rosnou Axel.
- Eu admito! - gritei, as lágrimas finalmente rolando. - Eu mudei os números. Eu queria arruinar o projeto. Eu estava com inveja. Eu sou... eu sou uma farsa.
Eu podia ver os comentários rolando na tela ao lado.
*Traidora!*
*Ela deveria ser executada!*
*Por que o Alfa ainda a mantém por perto?*
*Desperdício de espaço.*
Cada palavra era uma faca.
- Obrigada por sua honestidade, irmã - disse Kailane. Ela estendeu a mão e deu um tapinha na minha cabeça, como se acaricia um cachorro. - Eu te perdoo. A alcateia te perdoa. E agora, você fará a coisa certa e me ajudará a me curar, não é?
- Sim - sussurrei.
De repente, Kailane ofegou. Sua mão voou para o peito, suas costas se arqueando na cadeira de rodas.
- Axel! - ela gritou, sangue jorrando de sua boca no chão polido. - Está queimando! Meu núcleo... está se quebrando!
Os monitores conectados à sua unidade portátil começaram a soar alarmes. Sua pele assumiu um tom cinza aterrorizante instantaneamente.
- Cortem a transmissão! - Axel rugiu, pegando-a enquanto ela caía para frente.
- Ela está tendo uma parada! - um médico gritou, correndo para dentro. - Seus níveis de Essência estão em zero. Se não operarmos agora, ela morre em dez minutos!
Kailane olhou para mim, seus olhos arregalados com terror genuíno pela primeira vez. - Pegue - ela gorgolejou, apontando um dedo trêmulo para mim. - Pegue o rim dela agora!
Axel se virou para os guardas. Seus olhos eram puro pânico.
- Levem a Jana para a sala de cirurgia - ele berrou. - Esqueçam a preparação. Esqueçam os exames. Apenas abram-na e peguem aquele órgão!
Fechei meus olhos. No fundo de mim, senti uma mudança. Não foi física. Foi espiritual.
Minha loba interior, a loba branca que foi suprimida por tanto tempo, soltou um uivo longo e lúgubre. Era um som de desespero absoluto.
E então, silêncio.
Ela se foi. Minha loba havia se retirado para a escuridão mais profunda da minha alma. Ela havia rompido sua conexão com o mundo para se poupar da dor.
Eu era verdadeiramente uma Sem-lobo agora.
- Levem-na! - Axel gritou novamente.
Os guardas me levantaram. Eu era uma boneca de pano. Não olhei para Axel. Não olhei para meus pais. Apenas encarei o chão, contando os passos para a minha execução.