Durante todo o trajeto, Harold não disse uma única palavra. Ele apenas observava a cidade pela janela, como se eu nem estivesse sentada ao lado dele.
- Achei que eu fosse para a minha casa! - comentei em um tom de voz baixo.
Minhas mãos apertaram o tecido do vestido sobre os joelhos.
- Achou errado! - ele disse sério - Tenho a sua tutela até que termine os seus estudos, quando vai herdar todos os bens do Petter e da Anna, os seus pais.
Ele não levantou a voz. Disse aquilo com tanta naturalidade que parecia estar apenas comentando sobre o clima.
Ao que tudo indicava, eu só havia trocado uma prisão por outra.
O segui direto para dentro da casa.
O teto era tão alto que minha voz provavelmente ecoaria se eu falasse mais alto. Lustres enormes brilhavam acima de mim, e o piso de mármore refletia cada passo que eu dava.
Os empregados estavam esperando do lado de dentro, impecavelmente vestidos e enfileirados.
- Bem vindo de volta, senhor Sloane! - eles o cumprimentaram em uníssono - Senhorita Collins, bem vinda.
Nunca tinham me chamado de senhorita antes. Aquilo soou estranho nos meus ouvidos.
- Levem a mala dela para cima! - ele ordenou antes de se sentar em uma poltrona - Não sei se sabe, mas seus pais e eu somos sócios em um escritório de advocacia, um dos melhores do estado de Massachusetts.
- Eu sei! - respondi simples - Eu me lembro um pouco!
Ele me observou por alguns segundos, como se estivesse avaliando se eu era um problema ou não.
- Excelente. Assim eu não preciso te explicar muita coisa! - ele declarou
- Sou um homem ocupado. E, além do mais, na carta que os seus pais me deixaram junto com o testamento eles exigiam que eu lhe desse a melhor educação possível! - ele contou - Por isso te mandei para um colégio interno só para garotas e, em outro estado, assim, você não teria distração alguma.
- Eu entendo! - ele era mesmo bem cruel.
- Agora que se formou no ensino médio, vai iniciar a faculdade. Já iniciei a sua matricula você em Harvard! - ele contou - A mesma universidade que os seus pais estudaram.
- Harvard? - perguntei quase boquiaberta.
Meu coração deu um salto.
Harvard parecia o tipo de lugar onde pessoas extraordinárias estudavam. Não alguém como eu.
Não era a universidade que tinha o curso de direito mais conceituado de todo o mundo?
Quanto poder aquele homem tinha?
- É uma boa universidade e, localizada justamente em Boston, o que é bem prático, já que você vai morar comigo a partir de agora! - ele disse - Você pode escolher o curso que quer fazer, mas seria bom que escolhesse Direito, porque vai herdar a parte do escritório dos seus pais.
- Sim, eu farei o curso de direito! - informei - Eu sempre dizia a eles que queria ser advogada.
- Isso é bom! - ele se levantou - Mas deve saber que terá horário para voltar para casa.
Senti meus ombros se enrijecerem.
- Não pode se distrair com outras coisas além dos estudos, e nesta casa só permitimos que traga garotas, e até às oito da noite. Depois disso você será punida severamente.
- Sim, senhor!
- Eu acho que isso é tudo! - ele disse - Comporte-se direitinho, seja uma boa garota, honre seus pais e não perturbe a minha paz, essas são as regras da casa. E eu espero que obedeça direito, e logo que você se formar na universidade, receberá a sua herança. Mas, não se preocupe, seu curso e suas necessidades serão todas pagas, para que você também não precise trabalhar.
- Sim, senhor.
- Me chame de tio Harold. - ele pediu - Afinal, eu era amigo dos seus pais.
- Tio Harold! - repeti.
- Bom! - um leve sorriso, quase imperceptível brotou no canto de seus lábios - Siga a governanta para ver os seus aposentos.
Acenei com a cabeça em afirmativa e segui a mulher vestida em um terninho preto.
- Meu nome é Augusta, e pode falar comigo sempre que tiver algum problema que não for relacionado a dinheiro!
Ela falou baixo, como se temesse que o próprio Harold pudesse ouvir.
- O senhor Sloane não gosta que perturbem a paz dele, então, a casa deve estar sempre silenciosa quando ele estiver aqui.
- Ele vive sozinho aqui? - perguntei olhando para a imensidão da casa.
- Sim! - ela respondeu - Ele tem um filho, mas ele prefere ficar no escritório de Londres.
Augusta hesitou por um segundo antes de continuar.
- Receio que não o conheça. O senhor Sloane mais jovem é tão reservado quanto o pai, mas, raramente vem a Boston, então, serão raras as oportunidades em que poderá vê-lo.
Eu já havia visto o filho do tio Harold, mas, uma única vez. Quando ele foi o advogado no caso dos meus pais. Ele era bem agressivo nas palavras, o que o fazia dominar completamente aquele tribunal.
Como advogado ele era bem diferente do que Augusta descreveu, ele parecia vibrar enquanto argumentava.
No fim, o motorista de caminhão, que estava embriagado foi condenado há mais de uma década de prisão, e por ele fugir da cena do crime, a pena aumentou para quase duas décadas.
Foi naquele tribunal que eu entendi.
Eu queria ser advogada.
Queria ter a mesma voz que ele teve naquele dia.
Queria lutar por pessoas que não podiam se defender.
Enquanto Augusta falava, parei diante de um grande retrato pendurado na parede do corredor.
Meu coração deu um pequeno salto.
Tio Harold e um menino de traços bem marcantes demais para uma criança.
Eu conhecia aquele rosto.
O menino da foto estava impecável em um terno escuro, com o olhar frio e penetrante.
O mesmo homem que havia dominado o tribunal no julgamento do motorista que matou meus pais.
- Esse é o senhor Harold Sloane... - disse Augusta calmamente. - E o Rowan filho do senhor Harold, ainda criança.
Continuei olhando para o retrato.
Estranhamente, tive a sensação de que aqueles olhos estavam me observando de volta.
E eu não fazia ideia de que, muito em breve, ele estaria de volta a Boston.