- O senhor Sloane! - ela apertou os lábios antes de dizer o nome, como se fosse um grande sacrifício proferir aquele sobrenome. - O filho do senhor Sloane. Rowan Sloane.
O nome caiu pesado, familiar... e ao mesmo tempo estranho.
- Ele certamente está com o advogado agora no escritório.
Então, eu não estava mesmo enganada. Era realmente ele.
Naquele fim de tarde chuvosa, aquele vulto todo de preto, se escondendo da chuva embaixo de um velho carvalho.
- Esse garoto materialista. Só veio pelo dinheiro! - ela comentou em um tom de voz mais baixo e mais cheio de rancor enquanto eu subia os degraus da escada - O que será dessa pobre garota se ele se recusar a ficar com a tutela dela?
Se ele não aceitasse ser meu tutor... Se ele mandasse embora daquela casa e daquela família eu estaria completamente perdida.
Meu estômago afundou.
Se ele recusasse...
Eu não teria para onde ir.
Será que o filho do tio Harold era tão cruel assim?
Rowan:
- Está dizendo que após a morte do meu pai, a responsabilidade por cuidar de uma órfã passa para mim? - questionei incrédulo.
Apoiei o peso na mesa, devagar, sem pressa.
- Sim, senhor Sloane! - o testamenteiro respondeu - A tutela da jovem Ivie Collins foi passada para o seu pai após a morte de Petter e Anna Collins, ambos bons amigos de seu pai. Ela está sob a tutela da família Sloane há anos.
- Engraçado! - sorri de canto - Cuida tão bem do filho dos outros e se recusa a cuidar do próprio filho.
Meu maxilar travou.
- Perdão, senhor Sloane?
- Nada! - respondi - Você estava dizendo?
- A jovem Collins é muito comportada e bem disciplinada, não lhe dará trabalho! - ele continuou - Os pais dela, como o senhor bem sabe, eram sócios do senhor Sloane, seu pai. E eles deixaram um testamento dizendo que a filha só teria direito a herança após concluir os estudos.
- Ah, é mesmo? - questionei - E o que essa garotinha está estudando? artes na UMass Boston?
- Na verdade, a senhorita Collins não é uma garotinha! - ele disse sério - Tem vinte e um anos e está prestes a fazer vinte e dois, e não, ela não estuda artes na UMass Boston, estuda direito em Harvard!
- Harvard?
Agora sim isso ficou interessante.
- E com notas excelentes! - ele declarou - Ela é a primeira da turma!
- Quem eles estão querendo impressionar?
- O senhor! - ele respondeu me deixando confuso - O seu pai disse à garota que o senhor não gostava de ter preocupações, por isso ela deveria estar em primeiro lugar sempre!
- Como uma máquina? - sorri frustrado - Então, ela foi capaz de atender a todos os requisitos do velho Sloane?
Então, existia mesmo alguém capaz de se submeter aos caprichos do meu pai.
Eu estava um pouco curioso. Curioso demais sobre essa "boa garota", que ficou com ele até a morte e que estava disposta a fazer tudo o que o meu pai ordenava.
Alguém conseguia mesmo ser tão obediente assim?
Ivie:
Eu revisei o arquivo mais uma vez, mesmo sem necessidade.
Exatamente como o tio Harold exigia.
Agora era só imprimir tudo, e eu finalmente poderia ir dormir.
Enviei os arquivos para a impressora, mas só na hora de imprimir que eu percebi que havia acabado o papel. Claro que tinha.
Revirei o quarto tentando encontrar um Chamex de folha A4 novo, não tinha.
Era sempre a Augusta quem resolvia isso para mim.
Consultei o relógio no meu pulso, já passava das onze da noite, ela certamente já estaria dormindo, pois estava exausta, não seria justo acordá-la.
Mas eu também não podia esperar até o dia seguinte, eu não conseguiria terminar de imprimir à tempo.
Eu me lembrava bem de quem o tio Harold sempre tinha blocos e mais blocos de papel A4 no escritório, e nunca se importou em me ceder um pouco.
- É só um Chamex, Ivie! - falei me levantando - Você pode fazer isso!
Mesmo que não devesse.
Desci os degraus da escadaria tentando não fazer barulho para não acordar o senhor Sloane.
Girei lentamente a maçaneta da porta do escritório e agradeci a Deus por ela não estar trancada.
Na ponta dos pés, fui até a mesa dele e comecei a procurar nas gavetas, minhas mãos estavam rápidas demais.
- Eu não sabia que na casa Sloane tinham ladras agora! - uma voz masculina grave e potente ecoou fazendo o meu corpo inteiro se arrepiar.
Eu congelei.
Porque, mesmo sem olhar...
Eu soube.
Era ele.