Minha voz saiu mais fraca do que eu queria.
- Acredito que eu possa estar onde bem quiser dentro da minha própria casa! - ele declarou.
Cada palavra veio lenta. Controlada.
- Você é o filho do tio Sloane? - questionei - O meu novo tutor?
- Filho do Harold Sloane? Infelizmente! - ele declarou - Seu novo tutor? Não tenho muita certeza disso. Ainda mais agora que você quebrou um vaso de milhões da Dinastia Qing.
- Eu pago... quando puder - eu estava frita - Olha, eu não fiz por querer, eu só queria papel para imprimir o meu trabalho, foi você quem acabou me assustando.
- A culpa é minha então? - ele questionou - Se não tivesse entrado aqui sem ser convidada...
- Desculpa, eu realmente só queria papel para imprimir o meu trabalho da faculdade! - repeti.
A penumbra em volta dele era tanta que eu só conseguia ver seus sapatos bem lustrados, a barra da calça preta e um pouquinho do tronco, coberto por uma camisa que parecia ser branca. Impecável demais para alguém que parecia perigoso.
- Vou me lembrar bem disso! - ele disse - Sobre o que está fazendo trabalho?
Ele finalmente se moveu um passo.
- Teoria do Crime e Defesa Penal! - respondi.
- E você fez a sua base sólida? - ele questionou como se estivesse me cobrando isso.
- Sim! - respondi tentando não gaguejar - O tio Harold sempre ensinou a estudar direito e fazer bons trabalhos, para ser a melhor da turma, assim você também não me mandaria embora.
- Pegue o seu papel e volte para o seu quarto! - ele ordenou sem elevar a voz. Não precisava. - Não vou cobrar o vaso da Dinastia Qing agora. Não entre mais em lugares sem se anunciar antes.
Por um segundo, eu não me movi. Não porque não quisesse... mas porque não consegui. Havia algo na forma como ele falava, baixa, firme, sem esforço, que parecia atravessar direto a minha pele e me prender ali, no lugar. Como se cada palavra carregasse um tipo de controle que eu ainda não entendia... mas que meu corpo já reconhecia.
Senti quando ele se aproximou. Não precisei ver. O ar mudou primeiro, mais denso, mais quente e então algo passou perto demais do meu braço, sem encostar, mas o suficiente para fazer minha respiração falhar por um segundo. Foi rápido... quase nada. Mas meu corpo reagiu como se tivesse sido muito mais.
- Obrigada tio! - agradeci abraçando o bloco de folhas A4 contra o peito - Eu vou me lembrar disso.
- Tio? - ele repetiu como se aquilo fosse uma ofensa
O ar mudou.
- Por que me chamou assim?
- Foi assim que o tio Harold me pediu para chamá-lo! - respondi - Achei que talvez você também gostaria que eu...
- Por que acha que eu gostaria que você me chamasse de tio?
- Porque... Porque... Bem, porque é uma forma respeitosa de tratar já que você é bem mais velho que eu! - respondi um tanto nervosa - O tio Harold me disse para tratar você com muito respeito.
- Acontece que eu não sou como o meu pai! - ele disse rígido - E você e eu não temos nenhum parentesco sanguíneo para que você me chame de tio!
E aquilo soou pior do que deveria.
- Certo! - concordei - Como eu devo chamá-lo então? Já que não posso chamá-lo de tio, devo chamá-lo de Senhor Sloane?
- Tanto faz! - ele respondeu - Só volta logo para o seu trabalho de escola.
- Sim senhor! - concordei - Boa noite!
Se ele respondeu ou não eu não saberia dizer, saí tão rápido daquele escritório sem olhar para trás que seria difícil de ouvir qualquer coisa.
Subi os degraus da escadaria o mais rápido possível.
Meu coração batia tão rápido que batia descompassado contra as costelas.
Eu estava assustada e surpresa pelo meu primeiro encontro com o meu tutor ter sido de forma tão terrível e vergonhosa. Mas isso não era tudo.
Meu corpo estava tomado por uma adrenalina que eu nunca havia sentido antes.E isso me assustava mais do que ele.
Quando alcancei a porta do meu quarto e me tranquei dentro dele, me recostei na porta e precisei respirar fundo para recuperar o fôlego que eu havia perdido ao subir a escadaria de forma tão apressada.
- Ah, Ivie, sua doida! - resmunguei ao colocar o bloco de folhas sobre a escrivaninha - Por que tinha que ser tão desastrada? Agora o senhor Sloane vai pensar que você é uma tonta.
E se ele decidisse me mandar embora...
Eu não teria para onde ir.
E, pela forma como ele me olhou, mesmo sem eu ver o rosto dele, eu tive a estranha sensação de que aquilo... era só o começo.