E o homem armado do lado direito engatilhou a arma. Eu coloquei a mão na boca para não soltar um grito. Devia ter me afastado sem fazer barulho, mas meu pé escorregou na calçada molhada.
O homem elegante virou o rosto na mesma hora. Os olhos dele percorreram a rua. As sombras, os carros, os cantos escuros.
E pararam exatamente onde eu estava. Meu coração parou junto.
- Tem alguém ali. - ele disse, com uma calma tão perigosa que minhas pernas quase cederam.
- Quer que eu veja? - perguntou um dos armados.
- Não. - respondeu o líder, sem desviar o olhar da minha direção. - Eu mesmo vejo.
Ele começou a caminhar até mim. Me escondi atrás da caminhonete, com as mãos tremendo tanto que quase deixei a sacola da farmácia cair.
Peguei meu celular. Minhas mãos mal respondiam e liguei para Ayla que graças a Deus atendeu logo.
- Ayla... - sussurrei, quase sem voz. - Ayla...
- Narin? Que voz é essa?
- Eu... Eu vi... Eu... - tentei falar, mas o ar travou no peito. - Tem um homem aqui... Ayla, ele tá aqui... Ele tá vindo...
- O quê? - ela quase gritou. - Narin, escuta! Sai daí agora! Onde você está? Me deixou nervosa...
- Eu não posso... Ele... Ele olhou pra mim... Ele tá vindo pra cá...
- Narin, pelo amor de Deus, eu estou nervosa. Me fala onde você está?
- Eu tô... - minha voz falhou quando ele virou a cabeça como se tivesse ouvido meu sussurro. - Ayla, ele tá vindo direto pra mim...
- Narin, corre! - ela implorou. - Corre agora!
Não deu tempo.
A bota dele raspou no chão, perto, muito perto. Quando olhei por cima da carroceria, ele já estava do outro lado, me enxergando como se eu tivesse chamado seu nome.
- Achei. - ele disse, baixo, frio.
Soltei um soluço. O celular quase caiu da minha mão.
Ele deu a volta completa na caminhonete, com passos pesados, firmes, e antes que eu pudesse reagir, sua mão fechou no meu braço com força suficiente pra arrancar meu ar.
- O que você tá fazendo aqui? - ele rosnou.
- Eu... Eu só... Eu tava passando... - minha voz vinha picotada, presa no susto. - Por favor...
Ele estendeu a outra mão, aberta.
- Celular.
- Por favor... Eu não vi nada... - murmurei, desesperada, tremendo. - Eu só quero ir embora.
- Celular. - repetiu, mais baixo ainda, como se o ar ficasse mais denso com cada palavra.
Minha mão vacilou. Tentei esconder o aparelho atrás do corpo por puro instinto, mas ele puxou meu pulso com brutalidade, arrancando o celular dos meus dedos. Um gemido escapou quando a dor subiu pelo braço.
- Quem é? - ele perguntou, ouvindo a voz da minha irmã que ainda chamava meu nome do outro lado. - Quem tá aí?
Engoli o choro, tentando respirar, mas as lágrimas já escorriam sem controle.
- É... M-minha irmã...
Ele levou o telefone ao ouvido sem tirar os olhos de mim. Quando ouvi sua voz, mais dura do que qualquer coisa que eu já tinha escutado, minhas pernas ficaram completamente fracas.
***** *****
Emir Navarro
A voz do outro lado veio trêmula, desesperada.
- Narin? Narin, fala comigo! Você tá me ouvindo? O que tá acontecendo? Eu tô ficando louca aqui!
A garota diante de mim chorava tanto que mal respirava. Tentei puxá-la mais perto pra ela parar de se mexer, mas só fez soluçar mais.
- Sua irmã não pode atender agora. - falei no telefone, seco. Silêncio. Depois um arquejo agudo.
- Q-quem... Quem é você? Onde está minha irmã? Me diz agora! O que você fez com ela?
- Ela viu o que não devia. - respondi. A garota tentou puxar o braço, e eu o apertei até ela parar. - E vai pagar por isso.
A mulher do outro lado perdeu o fôlego.
- Não! Não! Por favor! - ela implorou. - Ela não tem nada a ver com isso! Ela só tava passando! Eu juro! Eu imploro, não faz nada com a minha irmã!
- Não tenho tempo pra drama. - apertei a mandíbula. - Você quer ela viva? – nem sei porque perguntei isso. Tinha algo na voz do outro lado.
- Pelo amor de Deus, sim! Me diz onde você tá, eu vou agora, eu vou correndo, eu faço qualquer coisa!
Olhei pros homens, que já observavam, esperando ordens. O corpo no chão ainda quente atrás deles.
- Você tem dez minutos pra aparecer.
- Dez?! Eu tô do outro lado da cidade! Eu tô trabalhando! Eu não consigo em dez minutos! Eu... Por favor, por favor, não toca na minha irmã! Eu tô implorando!
A garota diante de mim chorou mais, ouvindo tudo. Suspirei, impaciente.
- Vou ser generoso. Meia hora. - disse. - Terceiro posto do cais. Se você não aparecer... Sua irmã vai fazer um nado noturno.
Houve um barulho do outro lado, como se a mulher tivesse perdido as forças.
- N-não... Por favor...
Não ouvi mais nada. Desliguei. Peguei a garota pelo braço de novo.
- Leva. - ordenei aos homens, empurrando ela pra frente.
Ela tropeçou, quase caiu, mas eles a seguraram sem cuidado nenhum.
- Mas chefe... - um deles começou.
- Eu disse leva. - repeti, gelado.
Eles puxaram a garota sem gentileza, arrastando seus passos enquanto ela soluçava, tentando falar, sem conseguir formar uma frase sequer.
Um dos homens abriu a porta da caminhonete. Ela tentou se segurar na lataria, em puro desespero.
- Não, não, por favor... - ela implorou.
Não adiantou. Eles a empurraram pra dentro, a porta bateu, e eu só dei um passo pro lado, limpando o sangue da mão na roupa de um deles.
- Em meia hora no cais. – falei olhando para a garota. - Se a irmã dela falhar... Resolve do jeito de sempre.
Os homens assentiram.
Eu subi no carro da frente, bati a porta e dei o sinal pra partir. A garota ainda chorava lá atrás, o som abafado, mas alto o suficiente pra acompanhar o motor ligando.
Autora Ninha Cardoso.
Começamos mais uma aventura. Espero que goste e que fique comigo. Comente, engaje. Me ajude a trazer mais novidades.