Brenda, uma técnica de enfermagem cuja energia parecia inesgotável mesmo após doze horas de plantão, rapidamente se infiltrou na redoma de isolamento de Susan.
- Você trabalha como se estivesse tentando salvar o mundo inteiro de uma vez, Susan!
Exclamou Brenda, enquanto organizava o carrinho de medicação no fim de um turno dobrado.
- Relaxa um pouco, mulher. O hospital não vai desabar se você soltar esse prontuário.
Susan esboçou um sorriso discreto, o tipo de sorriso que servia como uma barreira educada. Nos últimos três meses, sua vida havia encolhido deliberadamente. O trajeto era sempre o mesmo: a segura de seu pequeno apartamento e o anonimato das alas hospitalares. Convites para diversões eram sistematicamente declinados com desculpas ensaiadas.
No entanto, o fim daquele plantão de sexta-feira trazia um peso diferente. Brenda a interceptou no vestiário, bloqueando a saída com um entusiasmo contagiante.
- Sem desculpas hoje. Amanhã vamos ao West Bar! O lugar abriu a três meses e já é o querido de noite de Oak Ridge.
Brenda anunciou, os olhos brilhando.
- É meu aniversário e a regra é clara: nada de bips, nada de cheiro de hospital. Minha amiga Miranda trabalha lá e prometeu a melhor mesa. Quero música alta, drinks coloridos e você fora dessa bolha.
Susan hesitou. O nome "Chicago" ainda ecoava como um fantasma em sua mente, sussurrando que a exposição era perigosa. Mas ela olhou para Brenda, a única pessoa que a tratara com calor humano genuíno desde sua fuga e sentiu o peso da ingratidão. Negar aquele convite seria mais do que autopreservação; seria uma desfeita com a única amizade que cultivara.
- Está bem, Brenda. Você venceu.
Susan cedeu, deixando escapar um suspiro que misturava rendição e um lampejo de ansiedade.
- Eu vou pelo seu aniversário. Mas com uma condição: não vou virar a noite. Amanhã é minha folga e meu único plano real é o silêncio do meu sofá.
- Veremos se o silêncio sobrevive à primeira rodada de margaritas!
Brenda piscou, vitoriosa, sem notar que o coração de Susan, pela primeira vez em meses, batia mais rápido por algo que não era medo.
............
O West Bar era uma autêntica anomalia encravada no coração daquela cidade rústica. Enquanto o lado de fora cheirava a terra batida, pinheiros e o conservadorismo das fachadas de madeira envelhecida, o interior do bar pulsava em um universo paralelo. Luzes de neon azul-cobalto cortavam a penumbra, refletindo-se no balcão de mogno tão impecável que parecia uma lâmina de vidro escuro. O som ambiente era uma mistura hipnótica do Country e o tilintar rítmico de coqueteleiras de prata.
Em uma cabine estrategicamente reservada ao fundo, onde as sombras eram mais densas e a visão do salão, total, Ethan Miller observava cada movimento com o foco gélido de um predador. Sob sua gestão, o bar havia se tornado um ecossistema complexo em tempo recorde:
Casais buscavam o brilho do neon para fugir da monotonia local e os negócios Ilícitos nas cabines vip's mais afastados eram frequentes, sussurros trocavam mãos junto com envelopes pardos.
Ethan sabia que aquela ascensão meteórica era um farol. Não demoraria para que as "mafias" que controlavam as rotas da região notassem a nova fonte de diversão.
O West Bar não era apenas um bar, era uma armadilha banhada a gim e luz azul.
Logo, a atenção de Declan Lucchese voltaria para esse lugar, e cada passo do inimigo seria rastreado como lentes de aumento.
Oficialmente, Ethan era apenas o gerente eficiente, o homem que mantinha o estoque cheio e as brigas longe das mesas. Ele abraçara a persona do homem do interior, vestindo a hospitalidade local como uma segunda pele. No entanto, havia algo que o figurino de algodão e o sorriso contido não conseguiam esconder, sua elegância perigosa.
Cada movimento seu, seja ao servir um copo de uísque ou ao cruzar o salão, possuía uma fluidez letal, a precisão de quem estava mais acostumado a empunhar armas do que inventários de bebidas. Ele era o guardião silencioso de um castelo de cartas, esperando apenas o primeiro sopro do inimigo.