- Bom dia, menina Hernández. Sente-se, por favor, preciso de falar consigo. -ordenou o imponente chefe.
Chegou mais cedo do que o habitual e esperou-a no seu gabinete porque não vê a hora de saber se ela é realmente a sua aluna do liceu, apesar de o seu coração dizer que sim desde o início e bater forte sempre que ela se aproxima dele. Mesmo assim, tem algumas dúvidas e prefere livrar-se delas o mais depressa possível.
- Sim, senhor. Ela sentou-se em frente à secretária, pronta para o que ele ia dizer.
- Sabe porque lhe estou a pedir para falar, Menina Hernández?
- Olhe, chefe, eu não me atrasei, foi o senhor que chegou mais cedo. Mas se me vai despedir, isso seria uma boa notícia. -A rapariga pensa que ele se vai queixar de chegar atrasado ao trabalho, sabendo que desde que começou a trabalhar tenta chegar dez minutos mais cedo.
- Não é por isso que quero falar consigo, Sra. Hernández, ou devo chamar-lhe Angela? Recostou-se no espaldar da cadeira, enquanto com uma caneta-tinteiro fazia marionetas e desenhava um sorriso nos lábios, sentia-se um vencedor ao ver o rosto pálido da rapariga que tinha à sua frente, a quem tinha caído como um balde de água fria, sabendo que já tinha sido descoberta pelo seu algoz.
- Se me vão despedir, façam-no já e não andem com rodeios. Não sou a mesma menina que humilhaste no liceu, peço-te que me despeças porque não quero trabalhar contigo. -Lamenta não poder sair sozinha, porque, para dizer a verdade, não tem dinheiro para pagar os anos que faltam até ao fim do contrato.
- Já te disse que não te vou despedir, a não ser que cometas um erro grave e eu seja obrigado a fazê-lo. Caso contrário, a decisão é tua.
- Ah, sim? Bem, a partir de agora vais perder muitos clientes. -Ela está a ameaçá-lo para que ele tenha medo que o dono da empresa o despeça e, por isso, está a tentar pressionar o Mário a avançar com o seu pedido.
- Tu não te atreverias. -Diz ele, dando-lhe um daqueles sorrisos que fazem com que uma mulher praticamente se dispa à sua frente.
- Experimenta-me e veremos. Ela está a desafiá-lo, mas no fundo sabe que não seria capaz de o fazer porque seria pior para ela.
- Tenho andado à tua procura este tempo todo, Ângela Rosibel. -disse Mário José, voltando à sua seriedade habitual quando ia tratar de um assunto muito importante. Com o corpo, assumia uma postura firme e formal, como se estivesse a falar com um quadro superior de uma empresa ou clientela concorrente.
- Ha ha ha ha, já não bastava ter-me magoado ao brincar com os meus sentimentos? Ela tornou-se uma mulher de carácter forte, que não se deixa quebrar facilmente e que não cai nas mentiras que ele lhe conta para justificar a sua ação cobarde.
- Eu não brinquei com os teus sentimentos, minha menina. Bem, no início sim, mas depois apaixonei-me por ti e não aguentei mais, e foi por isso que te disse todas aquelas coisas que só saíram da minha boca, não do meu coração.
- Quero demitir-me, não quero voltar a estar perto de ti na minha vida!
- Recordo-te que, se te demitires, terás de pagar uma pequena quantia em dinheiro, é o que te acontece por não teres revisto minuciosamente o contrato que o Juan Pablo te fez no momento em que te contratou oficialmente.
- É o que diz, mas tenho a certeza de que, se falar com o dono da empresa, ele compreender-me-á e aceitará a minha demissão sem mais nem menos.
- Ele não vai aceitar, tenho a certeza disso.
- Porquê? Vais ser um sapo e pedir-lhe que não o faça? -Deixa-me que te ponha em maus lençóis perante ele, e que te ponha na rua por seres um merdoso presunçoso e tentares impedir-me de me demitir, quando tenho todo o direito de o fazer.
- Ha, ha, ha, ha, ha, florzinha do mais belo jardim, vou deixar bem claro que não vou como sapo. E acho que não te atreves a falar mal de mim.
- Porque não? Tenho os ovários certos e fá-lo-ei.
- Não o farás, porque eu sou o teu patrão.
- Podes ser o presidente de uma nação inteira, que eu encarrego-te do dono.
- Eu sou o dono desta empresa.
- Não comeces com as tuas tretas, por favor. Saiam do meu escritório e deixem-me trabalhar em paz enquanto eu contacto o dono ou o chefe superior.
- Perguntem a qualquer um dos trabalhadores e todos vos dirão a mesma coisa. "O nosso chefe superior é o Sr. Mario José Hurtadilla, é o dono desta multinacional".
- Oh não, é a gota de água para mim, é o cúmulo das minhas desgraças! -exclamou a bela jovem.
- Se te quiseres demitir, tudo bem, estou disposto a assinar, mas com uma pequena condição.
- O que é que queres agora?
- Quero que finjas ser a minha namorada, em frente à minha família.
- Ha ha ha ha, tens cá uma lata. Brincaste comigo no passado, e agora queres voltar a fazê-lo, com a diferença de que hoje estou a par do teu plano.
- Por favor, pequenino. O patrão levantou-se da cadeira e contornou a secretária para se aproximar da rapariga, mas uma voz afastou-os.
- Bom dia, meu amor, procurei-te no teu gabinete e não te encontrei, por isso pensei que pudesses estar aqui. disse Amanda, interrompendo a conversa dos rapazes e entrando no escritório sem bater à porta, com a intenção de surpreender o noivo e o seu companheiro, pois foi-lhe dito na receção que a nova assistente é uma senhora muito atraente.
- Com a vossa permissão, vou-me embora. Chefe, quando acabar de atender a senhora, por favor avise-me para que eu possa vir e começar o meu trabalho.
Ângela levantou-se, pegou na mala e saiu do escritório, sentia-se mal, embora não o quisesse aceitar, ainda amava aquele homem e aquela mulher tinha-lhe dito "Meu amor" e cumprimentado com um beijo nos lábios, o que a fez perceber que devia ser forte e afastar-se daquele homem, para bem dela e dos filhos.
Sim, os lindos gémeos de sete anos, que estão agora na escola e não merecem saber nada sobre quem é o pai deles.