Priscila nunca gostou do Joaquim. Às vezes, Suzana achava que era porque ele tinha a escolhido no lugar de Priscila. Quando as amigas o conheceram, ambas ficaram interessadas nele, mas Joaquim gostou de Suzana, e os dois começaram a namorar. Mas agora ela percebia que todas as observações que a amiga fez sobre o ex-marido ao longo do tempo eram verdadeiras.
- Eu nunca te ouvi, sempre achei que você ainda se interessava por ele.
- Credo! – Priscila olhou para a amiga, indignada. – Nunca ficaria com um boy de uma amiga, principalmente se ele fosse um egocêntrico como o seu ex-marido. Ele pessoalmente era insuportável, eu só o suportava por sua causa.
- O que eu vou fazer, amiga? Como vou sobreviver sem casa, sem trabalho e tendo que cuidar da minha família?
- Vamos dar um jeito. Por ora, você fica aqui comigo. Vou esvaziar aquele quartinho de bagunça lá nos fundos. É pequeno, mas vai dar para você dormir. Eu tenho um colchonete aqui e você fica com ele até comprarmos a sua cama. E vou liberar uma parte do meu armário para você. Depois podemos vender aqueles seus vestidos caros. Tem um bazar em Copacabana que paga muito bem, isso vai te ajudar a levantar uma grana até você arrumar um emprego.
- Não sei como te agradecer, Pri. Estou em estado de choque. – Suzana a abraçou, chorando, e a segurou com força.
- Não precisa agradecer amiga, eu sei que faria o mesmo por mim.
- Claro que faria. – Ela se afastou e enxugou o rosto.
- Pare de chorar, vamos tirar as suas coisas daquela casa e se livrar de todo o seu passado.
Suzana respirou fundo e deu um longo abraço na amiga. Naquele momento era tudo o que ela precisava, alguém que a escolhesse e não julgasse.
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Horas depois...
Como não tinha quase nada para levar, em pouco tempo Suzana embalou as suas coisas. Ligou para o advogado que representava o novo proprietário e entregou as chaves da casa. Saiu sem olhar para trás, não queria mais se lembrar da vida de fachada que levou naquele lugar.
Agora ela sabia que todos os anos que passou ao lado do marido foram ilusão; se ele a amasse de verdade, nunca teria lhe dado um golpe. Aquele canalha a usou e a passou para trás. Depois de seis anos, entre namoro e casamento, Suzana dedicou a vida a ele, e agora ficou sem absolutamente nada.
- Você realmente não tem ideia de para onde ele foi? Podemos tentar encontrá-lo pela internet, pedir ajuda dos amigos que tinham em comum, ou algo parecido. Ele não pode ter evaporado do nada, tem que ter alguma pista de onde ele está. – O irmão da Priscila lhe deu essa sugestão.
- Não tenho noção de onde ele possa estar Pablo, só sei que foi para São Paulo em uma reunião, e, depois disso, só recebi ligações dele até ser despejada ontem à tarde da minha casa.
- Isso parece até história de novela. Aquele teu marido sempre me pareceu um safado, mas não esperava tanto.
- Não era só eu que não gostava dele. – Priscila falou enquanto tirava a última bolsa do carro do irmão.
- Acho que só eu não percebia o mau-caratismo dele.
- Você estava apaixonada, por isso não percebia. – Pablo tentou justificar a falta de atenção dela.
- Você tem razão. – Suzana teve que concordar com ele.
Sempre imaginou o marido como um homem acima do bem e do mal, mas agora percebia que estava apenas sob o efeito da paixão.
Assim que entraram na casa da Priscila, o seu celular tocou. Quando viu o nome da mãe no visor, Suzana se encolheu. Se a sua mãe chorasse, mais uma vez ela desabaria.
- Oi, mãe.
- Arrumei um lugar para ficarmos, graças a Deus. – A voz de sua mãe era trêmula, e Suzana percebeu que estava tentando segurar o choro. – A Vânia, aquela minha prima que mora aí, no Recreio dos Bandeirantes, vai nos receber. Ela tem uma casinha pequena desocupada no quintal e vai nos ceder o local. Até o fim de semana, nos mudaremos, o Levi da padaria vai fazer o frete da nossa mudança sem cobrar nada. Você sabe que ele é um bom amigo do seu pai.
- Mãe... – A voz morreu quando percebeu que a mãe resolveu tudo em pouco tempo. – Sinto muito, fui ao advogado, e ele disse que toda a transação foi feita com uma procuração assinada por mim, mas eu juro que não
assinei nada, não estou entendendo o que aconteceu.
Sua mãe suspirou pesadamente do outro lado da linha.
- Aconteceu que esse seu marido é um bandido e roubou tudo o que você ajudou a construir ao lado dele. O que mais tem nesse mundo é gente ruim, filha. Mas não se preocupe, Deus nos dará tudo de volta e cobrará dele tudo o que está nos fazendo.
- Só a senhora para ser tão forte nesse momento, eu estou devastada com toda essa situação. Não sei o que farei da minha vida.
- Tudo tem jeito, filha, agora que estou saindo daqui da Serra, poderemos ficar mais próximas. Se você quiser, pode ficar com a gente lá, seu pai vai ficar feliz em ter as meninas dele de volta sob as suas asas.
- Eu sei que ele ia gostar, mãe. - Pela primeira vez nesse dia, Suzana sorriu. Ter sua família tão perto dela seria um bálsamo para a dor que estava sentindo. – Mas estou na casa da Priscila, e aqui é melhor para arrumar um emprego.
- Tudo bem, meu amor. Assim que eu estiver saindo daqui, aviso, mas fica com o coração em paz, filha, vamos superar toda essa crise, e de alguma maneira encontraremos esse homem.
- Mãe, como o papai está?
- Ele reagiu melhor do que pensei, está mais preocupado com você do que com a perda da casa. Fica tranquila, que estamos bem, o importante é que estamos com saúde, vamos nos ajeitar.
- A senhora não existe, mãe.
- Existo sim, filha, e te amo demais. Cuide-se, meu amor, até domingo mamãe chega.
- Também te amo, mãe. – Ela pediu a benção da mãe antes de desligar.
- Sua mãe é incrível, que inveja. – Priscila sorriu e levou algumas das suas bolsas para o próprio quarto.
- Eu sei.
- Fiquem por aí, que tem um rato nesse quartinho. – Ambas escutaram Pablo gritar no fundo da casa.
Elas se entre olham e gritaram ao mesmo tempo. Correram para o quarto de Priscila e se trancaram e apenas ouviram a briga feroz do Pablo com o rato. Graças a Deus que ele se ofereceu para desocupar o quarto, se ele não tivesse feito isso, elas estariam desesperadas e sozinhas nessa casa.
- Seu irmão é um herói.
- Eu sei. Nele, podemos confiar. – Priscila soltou um grito quando ouviu o irmão berrar um palavrão e abraçou a amiga
Suzana percebeu que estava sem rumo, mas que ao menos sobraram verdadeiros amigos ao seu lado, aos quais poderia sempre confiar.