Quando começou a cogitar ir embora, o amigo apareceu no restaurante. Estava todo desgrenhando e com o semblante tenso. Alguma coisa grave tinha acontecido.
- Já não era sem tempo. – Theodoro não se abalou em cumprimentá-lo, estava irritado demais para isso
- Não começa, Théo, eu tive um problema.
- Sempre tem, Murilo, você adora inventar uma história para encobrir as suas merdas. – Ele fez sinal para o garçom trazer outro uísque
Estava tão tenso, que precisava relaxar com uma bebida.
- Dessa vez é verdade. – Murilo se acomodou na frente do amigo. – Cara, acabei de descobrir com o meu advogado que um empresário que conheço deu um golpe na esposa. Ele conseguiu uma procuração da pobrezinha e vendeu todos os bens deles. Não deixou nada para ela, a
não ser as roupas. Todo o resto ele tirou da coitada.
Theodoro ergueu a sobrancelha ao ouvir essa história. Não acreditava que a mulher fosse tão burra a ponto de passar uma procuração para o marido dando plenos poderes para que ele vendesse todos os seus bens.
- E o que isso te atinge? Se ela é uma dessas mulheres burras que não enxergam nada além do Botox, você não tem culpa. Tenho certeza que em breve ela arruma outro marido rico e consegue tudo de novo. – Ele bebeu uma generosa dose do seu uísque e sentiu o calor da bebida descer pela sua garganta
- Ele vendeu a casa dos pais dela, e eles também estão na rua. – Murilo ainda se recusava a acreditar que o babaca do Joaquim traiu uma mulher especial como Suzana. – Théo, eu estive com eles há um mês, e o cara babava pela mulher, eu não estou entendendo nada.
- Ela não deveria estar correspondendo às expectativas dele. – Sem paciência para o assunto, Theodoro olhou o cardápio para saber o que iria escolher.
- Eles estavam casados há quatro anos, não acha que é tempo demais para ele não saber quais expectativas a mulher poderia não corresponder?
- Porra! - Theodoro se irritou profundamente em ter que ouvir fofoca. - Não conheço o casal, não me importo com os problemas deles e não quero saber se ela está na rua. Simplesmente não me importo com nada disso.
O amigo o encarou, perplexo. Às vezes, Murilo desconhecia o amigo que convivia desde a escola. Tudo bem que ele sabia que Theodoro não gostava de saber da vida dos outros, mas, dessa vez, era uma história importante.
- Você não tem coração?
- Tenho e está ótimo, fiz check-up há dois meses. O médico disse que tenho coração de atleta... para ser mais preciso, um coração de leão, como ele mesmo insinuou.
- Vai começar com suas ironias? Odeio seu humor ácido.
- Se você parar de falar asneiras, posso ser mais cordial amigo.
- Theodoro,, eu estou dividindo com você o drama de uma bela mulher que está na rua. Você deveria ficar consternado com a situação dela.
- Agora sim, tudo está explicado, você quer comer a pobre sem-teto. Entendi tudo, meu caro, eu ando com o raciocínio lento nos últimos tempos. Sorry!
- Quanta deselegância. Você é um merda, na boa, não se fala assim de uma dama.
Agora Murilo pegou pesado, o que fez com que Theodoro jogasse a cabeça para trás e soltasse uma estrondosa gargalhada, sem se importar com as pessoas ao seu redor.
Essa piada do amigo foi ótima e merecia uma boa risada.
- Falou o rei da noite do Rio. – Ele se inclinou sobre a mesa e estreitou os olhos para Murilo enquanto sussurrava. – Você é tão cordial assim com as putas que gerencia? Importa-se com o coração delas ou só pensa no dinheiro que elas trazem para você?
Ouvir Murilo falar em "dama" foi demais para Theodoro. O cara tinha uma agência clandestina de acompanhantes de luxo, e queria chamar uma mulher idiota de "dama". Realmente era uma grande piada.
- Vai se foder. – Murilo olhou para os lados, incomodado. – Você sabe que não gosto de falar desses assuntos em público. – Claro que ele não gostava, ninguém do meio social deles sabia dos negócios escusos de Murilo.
- Ninguém ouviu, relaxa, mas pare de bancar o bom rapaz, nós dois sabemos que você é o vilão da história.
- Eu não engano as mulheres, elas vão à minha procura sabendo o que posso oferecer. Sou um homem de negócios como você.
- Sei... – Theodoro escolheu o seu pedido e fez sinal para o garçom se aproximar. – A única diferença é que não tenho uma empresa de fachada para camuflar meu real negócio.
- Vamos entrar nessa discussão novamente? Eu faço isso há anos, e você sabe disso.
Sem mais conversa, Theodoro fez o seu pedido.
- Você vai querer o quê?
- O mesmo que você – Murilo respondeu, irritado, e com toda a tranquilidade do mundo, seu amigo fez outro pedido e dispensou o garçom.
- Estou com muita fome, não tomei o desjejum hoje. – Theodoro olhou o celular, viu que mil mensagens tinham chegado e percebeu que as pessoas pareciam não parar nem por um minuto
- Você é tão antiquado, fica falando nesse linguajar refinado. – Murilo fez uma careta. – Você está comigo, não com aquele conselho de velhos babões que administra.
- E você é um chato. Eu falo como quiser, o meu dinheiro me permite falar até em latim.
- Cala a boca! – Irritado, Murilo chutou a canela de Theodoro por baixo da mesa
A prepotência do amigo era algo que o tirava do sério.
– Preciso encontrar uma maneira de ser solidário com a nova solteira da praça. Eu sempre tive tesão pela mulher do Joaquim e quero muito me aproximar dela. Juro que dou casa, comida e roupa lavada para aquela mulher, ela é muito gostosa, cara. No meu cardápio de meninas, não tem nenhuma que chegue aos pés dela. Se você a visse, ficaria completamente louco.
Era cansativo para Theodoro ouvi-lo dizer que toda mulher que sentia tesão era a mais linda do mundo. Às vezes, Theodoro desconfiava que o amigo possuía problemas mentais, porque isso não era normal.
- Vamos mudar de assunto? Eu estou pensando em passarmos um final de semana em Angra. Só andei três vezes no meu iate novo, quero dar mais utilidade para ele.
- Quer que eu arrume umas meninas para enfeitálo? Posso te passar o meu cardápio.
- Engraçadinho! Você trata as mulheres como se fosse alimentos de um restaurante barato. – Theodoro fez deboche da proposta do amigo – O inferno vai congelar no dia em que eu pagar uma mulher para ficar ao meu lado. Pode deixar que convido umas meninas, terei quantas mulheres eu quiser à minha disposição e melhor... de graça.
- Você é quem sabe, a oferta ainda está de pé. Agora me conte sobre o fora que a Pâmela te deu, estou curioso.
Theodoro ignorou a felicidade na voz do Murilo e contou o seu problema. Nesse momento, se sentia puto por ter sido deixado por Pâmela, e apenas o amigo iria entender o que estava sentindo.