- Bom dia - respondo, abrindo o armário e tentando parecer ocupada o suficiente para encerrar qualquer conversa.
Não funciona.
- Então... quem é ele?
Eu fecho os olhos por um segundo antes de encará-la.
- Não tem "ele".
- Scarlett.
Só o jeito que ela diz meu nome já entrega que não vai desistir. Solto o ar, cedendo o mínimo possível.
- Só um cara da minha turma.
- Nome? - ela se aproxima mais de mim, curiosa como sempre.
- Zane. - falo sem humor.
O efeito é imediato. Penny endireita a postura, os olhos atentos, quase brilhando.
- Zane Mercer?
Eu não respondo, mas também não nego. E isso é o suficiente.
- Você tá falando sério? - ela solta, agora completamente interessada. - Você sequer sabe com quem está lidando?
- Sei o suficiente - respondo, seca. - Ele é inconveniente.
Volto a organizar meus livros, mas percebo que meus movimentos estão um pouco mais duros do que deveriam.
- Ele falou com você?
- Falou.
- E você?
- Ignorei.
Penny solta uma risada baixa, desacreditada.
- E ele simplesmente aceitou?
Eu fecho o armário com mais força do que o necessário.
- Não.
Ela cruza os braços, satisfeita.
- Eu sabia.
A irritação começa a subir, sutil, mas presente.
- Ele fica por perto - digo, tentando manter o tom neutro. - Faz comentários, me interrompe, chama minha atenção no meio da aula... Como se fosse... divertido. Ele é ridículo.
- Porque pra ele é - Penny responde, sem hesitar. - Scarlett, você tá falando do cara que acha que pode ter qualquer garota aqui.
Isso não me surpreende. Só confirma.
- Isso não me interessa.
- Mas parece que você interessa, pra ele.
Eu pego minha bolsa com mais força do que o normal.
- Problema dele.
- Você não tá nem um pouco curiosa?
Eu paro por um segundo, só um, o suficiente para me irritar comigo mesma.
- Não.
A resposta sai rápida demais. Penny sorri de lado, percebendo.
- Ele é lindo, né?
Eu travo por dentro. Não por dúvida, mas pelo simples fato de que a imagem vem fácil demais à mente. O sorriso torto. O olhar direto demais. A forma como ele parecia confortável invadindo meu espaço. Isso me irrita.
- Ele é um problema - digo, firme, ignorando completamente a pergunta.
E, dessa vez, não espero resposta. Fecho o armário e começo a andar.
- A gente continua isso depois! - ela chama.
Eu não paro.
- Não tem o que continuar.
Mas tem. E isso é exatamente o que eu não gosto. A aula não flui como deveria, não porque o conteúdo seja difícil, não é, mas porque minha atenção falha em momentos específicos, curtos, mas suficientes para me irritar profundamente.
Eu não funciono assim. Não perco o foco por causa de ninguém. Ainda assim, em alguns momentos, me pego revivendo detalhes desnecessários. O tom da voz dele. A proximidade. A forma como parecia se divertir com a minha reação.
Eu aperto a caneta com mais força e volto a escrever. Controle. É só isso que eu preciso.
Quando a aula termina, eu saio sem perder tempo. Não fico para conversar, não diminuo o ritmo, não dou espaço. Trabalho e rotina, funciona melhor assim.
Na loja, o movimento já está constante quando chego. Troco de roupa rapidamente e assumo meu posto. Ali, tudo depende de mim, e isso é confortável. Até que não é.
O cliente aparece já com a expressão fechada, segurando uma peça como se fosse uma ofensa pessoal.
- Isso aqui está com defeito.
Eu analiso a peça com calma. Um detalhe mínimo, quase imperceptível, mas o suficiente para alguém exigente implicar.
- Posso providenciar a troca ou verificar outra peça para o senhor - digo, mantendo o tom profissional.
Ele não se satisfaz de imediato. Questiona, reclama, insiste. Ele quer mais do que uma solução, quer validação para a insatisfação.
E eu não tenho tempo para jogos emocionais.
Mantenho a postura, a calma, a objetividade. Explico as opções, conduzo a situação, resolvo. Sem elevar o tom, sem perder o controle. No fim, ele aceita e vai embora. Simples e funcional. Do jeito que eu gosto.
O turno segue melhor depois disso. Clientes fáceis, interações rápidas, decisões claras. Ali, eu sei exatamente quem eu sou.
Não há espaço para distrações.
Quando chego em casa, o silêncio me recebe como sempre. Organizado e previsível.
Tomo um banho, prendo o cabelo de forma prática e me sento com os livros. Abro, leio, e então paro. Porque, sem esforço nenhum, a imagem surge. O sorriso. O olhar.
Aquela expressão irritantemente confiante.
Eu fecho o livro. Respiro fundo. Abro de novo, tento mais uma vez, mas minha mente insiste. Revive o momento. Amplifica detalhes. Analisa o que não precisa ser analisado.
Eu me recosto na cadeira, passando a mão pelo rosto. Isso é ridículo. Eu não sou esse tipo de pessoa. Garotos como ele terminam com garotas como eu destruídas.
A conclusão vem clara, automática. Não é teoria, é lógica, é padrão.
E eu não entro em padrões que eu já sei como terminam. Eu não quero isso. Não preciso disso. Esse tipo de cara não faz parte da minha vida. Não faz parte do meu plano. Eu fecho o livro novamente, dessa vez com mais firmeza.
- Ele é problema - digo em voz baixa.
E eu sei disso. Ele é convencido demais, provocador. O tipo que testa limites só porque pode. Ridículo. A palavra ecoa na minha mente como uma tentativa de reforçar algo que deveria ser óbvio.
- Ridículo.
Mas, mesmo repetindo, algo dentro de mim, não responde com a mesma certeza de antes. E isso, isso me incomoda mais do que qualquer outra coisa.
Mais do que deveria, mais do que faz sentido, mais do que eu permito. E eu sei que, se não cortar isso agora, pode se tornar um problema futuramente, um problema com o qual não sei se quero lidar.