No outro, a vi ir para a biblioteca, mesma postura, mesma concentração absurda, como se o mundo ao redor fosse só ruído. Isso me deixa muito mais curioso a cada dia que passa.
E então eu percebo. Não é coincidência eu começar a aparecer nos mesmos lugares, eu estou indo atrás propositalmente. E eu nem tento disfarçar isso pra mim mesmo. Porque ela não é como as outras.
As outras olham. Sorriem, me chamam. Ela não. Scarlett Voss faz questão de agir como se eu realmente não existisse. E isso é novo pra mim, e eu até gosto de coisas novas. Isso é um desafio para mim.
Na cafeteria, eu vejo ela antes mesmo de entrar direito. Mesma mesa. Mesma expressão fechada. Ela nem levanta o olhar quando eu me aproximo, mas eu sei que ela percebe. É óbvio. Eu puxo a cadeira na frente dela sem pedir permissão e me sento.
- Você sempre come sozinha, ou é só azar meu?
Ela continua escrevendo por alguns segundos, como se estivesse avaliando se valia a pena me responder. Então, sem olhar pra mim, diz:
- É escolha. - fala baixo.
Eu sorrio de lado.
- Frio. Ou você só não gosta de companhia que não consegue controlar?
Ela fecha o caderno com calma e finalmente me encara. Direto e sem hesitação, tem algo no olhar dela que não é só desinteresse. É defesa, e isso me prende ainda mais.
- Você me segue agora? - ela pergunta, séria.
Eu apoio o braço na mesa, relaxado.
- Eu prefiro chamar de coincidência conveniente. Mas se eu estivesse te seguindo, você ia perceber antes... você presta atenção demais pra não notar.
Ela arqueia uma sobrancelha.
- Você não parece alguém que acredita em coincidências.
- Só nas que me interessam.
Ela solta um pequeno suspiro e revira os olhos, claramente já irritada.
- Eu só quero comer em paz.
- E eu só quero companhia - respondo, simples.
Ela cruza os braços.
- Então escolheu a pessoa errada.
- Discordo.
Silêncio. Ela me encara por alguns segundos, como se estivesse tentando entender qual é exatamente o meu problema.
- Você não cansa disso?
- Disso o quê?
- De se achar engraçado.
Eu solto um riso baixo.
- Eu nem tô tentando ser engraçado.
- Pior ainda.
Eu inclino a cabeça, analisando ela com mais atenção.
Ela é rápida. Afiada, não se perde nas palavras. Isso é... interessante.
- Você sempre é assim?
- Assim como? - ela me encara.
- Difícil, fria, ignorante.
Ela não demora pra responder.
- Só com quem merece. - seus olhos se estreitam.
Eu sorrio.
- Então eu mereço?
- Claramente. - balança a cabeça.
Ela pega o copo e toma um gole, como se a conversa já estivesse encerrada, mas não está.
- Você devia relaxar um pouco - digo, olhando para o caderno dela. - Ninguém aguenta ser tão focado o tempo todo.
- Eu aguento.
- Isso é tão chato. - reviro os olhos.
- Isso é funcional. É algo inteligente, ao contrário de você.
Tento ignorar a segunda parte, a língua dela é afiada demais. E isso me atiça ainda mais.
- Você não se diverte nunca?
Ela me encara de novo.
- Não com você.
Direto, sem filtro. Eu apoio o queixo na mão, ainda olhando pra ela.
- Você tá tentando me afastar ou isso é seu charme natural?
- Nenhum dos dois. Eu só estou sendo honesta.
- E isso funciona?
- Sempre funcionou.
Eu sorrio de novo, mais lento dessa vez.
- Até agora.
Ela segura meu olhar por um segundo a mais do que deveria e então desvia.
Ela termina de comer rápido. Rápido demais, como se ficar ali falando comigo mais tempo fosse um erro. Ela começa a guardar as coisas, já se preparando pra sair.
- Eu tenho que estudar - diz, como justificativa.
- Claro que tem. - falo num resmungo.
- E eu não vou me atrasar por sua causa.
- Fico honrado de ser considerado uma distração.
Ela revira os olhos.
- Você não é especial.
- Ainda. Mas você já percebeu, só não quer admitir.
Ela para por um segundo. Me encara. E dessa vez, tem mais coisa ali. Tem mais intensidade e irritação, mas não só isso.
- Você se acha demais - ela diz.
- Só o suficiente.
Um silêncio domina o ambiente, curto, mas carregado. Eu observo ela terminar de arrumar tudo, cada movimento controlado, como se estivesse tentando recuperar o próprio ritmo. Como se eu tivesse bagunçado isso. E talvez tenha.
Ela se levanta.
- Até nunca, Zane.
Eu levanto também, sem pressa.
- A gente se vê, Scarlett.
- Não se depender de mim.
- Ainda bem que não depende.
Ela começa a andar. Eu não sigo, dessa vez, não, eu só observo o jeito firme, a postura, a forma como ela não olha pra trás, mas quase.
No último segundo, ela hesita com um movimento mínimo e eu sei que ela sente. Mesmo que seja pouco e que ela odeie isso. Eu passo a mão pelo cabelo, soltando um riso baixo.
Isso não é só sobre provocar mais. Não é só sobre ganhar atenção fácil.
É diferente. E eu quero descobrir até onde isso vai.
Porque Scarlett Voss pode até fingir que não quer nada comigo, mas o jeito que ela me olha, mesmo que por um segundo, diz outra coisa. Coisa que eu simplesmente não consigo ignorar. Eu ainda fico parado por alguns segundos depois que ela some pelo corredor. Não vou atrás, não porque correr atrás tira a graça. E, com ela, a graça está exatamente nisso.
Na resistência e no jeito que ela trava, responde, corta, mas não some completamente. Ela sempre fica o tempo suficiente para reagir. E a reação é tudo que eu preciso.
Saio da cafeteria sem pressa, com um meio sorriso que eu nem tento esconder. Minha cabeça ainda está nela, o que é meio irritante e interessante ao mesmo tempo.
No caminho, vejo algumas pessoas conhecidas, escuto meu nome sendo chamado, só ignoro. Nada ali prende minha atenção, nada além dela.
Mais tarde, na biblioteca, eu nem deveria estar ali, mas estou. E não é surpresa nenhuma quando encontro Scarlett sentada em uma mesa mais afastada, cercada de livros, completamente focada de novo, como se eu não tivesse bagunçado nada. Eu analiso por um tempo, encostado em uma estante, em silêncio. Ela parece tranquila e controlada.
Mas eu sei que não está exatamente igual, porque eu vi, e agora, quero ver de novo.
Sem pensar muito, caminho até ela e paro ao lado da mesa.
Ela nem levanta o olhar, mas a mão dela trava por um segundo.
Eu sorrio.
- Eu sabia que você ia sentir minha falta. - dou uma risada maliciosa.
Ela fecha o livro devagar. E quando levanta o olhar, vejo que tem algo ali. E quero descobrir exatamente o quê.