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Depois do fim
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3 Capítulo
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Capítulo 7 Uma proposta img
Capítulo 8 Dando início a liberdade img
Capítulo 9 Decisão tomada img
Capítulo 10 Voando para uma nova vida img
Capítulo 11 Bem-vinda ao Texas! img
Capítulo 12 Surpresa img
Capítulo 13 Uma nova equipe img
Capítulo 14 Palavras de conforto img
Capítulo 15 Conhecendo o futuro img
Capítulo 16 Dois sobreviventes img
Capítulo 17 Bem-vinda ao lar img
Capítulo 18 O divórcio img
Capítulo 19 Uma chance img
Capítulo 20 O encontro img
Capítulo 21 Invasão img
Capítulo 22 Revelações img
Capítulo 23 Determinação img
Capítulo 24 Planos img
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Capítulo 3 Denúncia

O estacionamento da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) estava vazio sob a luz neon fria que fazia meu sangue parecer preto. Eu não conseguia chorar; meus olhos estavam pesados demais, a pele ao redor deles latejando em um ritmo próprio.

Entrei na recepção e o silêncio foi quebrado pelo barulho das minhas chaves caindo no chão.

Quando a atendente levantou os olhos, sua expressão mudou de tédio para um choque contido.

Eu já tinha lido sobre isso nos jornais e revistas, mas viver a triagem era diferente.

- Preciso de um laudo. - Minha voz saiu estranha, o lábio cortado dificultando a pronúncia. - Meu marido... ele me bateu.

A burocracia começou.

Enquanto o médico limpava os ferimentos com um antisséptico que ardia como fogo, ele não fazia perguntas invasivas, apenas anotava os danos com uma precisão cirúrgica: Edema periorbital, possível fratura de septo nasal, escoriações na face. Cada palavra dele era uma peça de evidência que eu usaria para enterrar meu passado.

- Você quer registrar a ocorrência agora? - O médico perguntou, olhando-me com uma compaixão que quase me fez desmoronar. - Temos uma equipe da Polícia Civil que pode vir até aqui.

Assenti.

Eu sabia que, sob a Lei Maria da Penha, eu tinha direito à proteção imediata. Enquanto esperava o investigador na sala de observação, meu celular vibrou no bolso.

Era uma mensagem do Diego.

'Ariane, volta para casa. Eu perdi a cabeça, você sabe como eu fico quando você me provoca. Vamos conversar. Eu te amo.'

Li a mensagem através do meu único olho que ainda abria totalmente. O 'eu te amo' dele agora soava como uma ameaça, ele nunca, nunca mandava mensagens dizendo "eu te amo", ou até mesmo falava as palavras para mim, era como se ele fosse tão frio que não sentisse nada.

Meu coração doeu. Doeu muito. E uma vontade de chorar, misturada com a dor, começou a aparecer – como se eu tivesse perdido um membro do meu próprio corpo – e então entendi que não era só o meu coração que doía. Tudo doía. E então me lembrei, novamente, o porquê tudo doía.

Bloqueei o número.

Aquela versão da Ariane que pedia desculpas por ser agredida tinha ficado caída no chão do quarto.

Quando o policial entrou com o papel do depoimento, eu não hesitei. A raiva crescendo dentro do meu peito como um tsunami que não é possível ser parado.

- Eu quero uma medida protetiva. E quero que ele saiba que, desta vez, não haverá próxima.

***

Eu poderia ter ido para qualquer lugar. Poderia ter ido para a casa da minha mãe, dos meus tios, amigas, primas.

Mas não queria isso.

Não queria responder a perguntas que eu nem mesmo tinha respostas.

Eu só queria paz. Sossego. Pelo menos por uma noite.

Depois de sair da delegacia eu fui até um hotel no centro da cidade. Pelo menos lá não fariam tantas perguntas.

- Boa noite, gostaria de reservar um quarto. - Eu disse a moça da recepção que estava prestando atenção no celular. Quando ela olhou para cima e viu o meu rosto, inchado e roxo, o queixo dela foi ao chão. - Fica tranquila, já fui à delegacia denunciar o abuso. Será que você pode ver se tem um quarto disponível?

A recepcionista só balançou a cabeça em concordância e fez o seu trabalho. Levou-me até o quarto e antes que ela fosse embora me disse:

- Eu sinto muito pelo que aconteceu com você. Já vi minha mãe passar por isso, portanto, eu entendo. Se precisar de qualquer coisa, não hesite em pedir.

Eu assenti, e fechei a porta.

Exausta, não sabia se caia na cama e dormia, ou se tomava um banho. No fim, optei por tomar um banho, precisava trocar de roupa, tirar aquela que havia ficado suja de sangue.

Passei pelo espelho do banheiro antes de abrir o chuveiro, e decidi me olhar.

Foi um erro. Não deveria ter olhado.

Meus olhos? Bom, eu quase não conseguia vê-los. Fiquei me perguntando como consegui dirigir.

Minha boca? Se eu já tinha lábios fartos, depois dos socos eles triplicaram de tamanho.

Meu nariz? Quebrado e estava meio torto. Logo meu nariz, que era tão bonitinho. O médico não quis colocar no lugar na hora, eu já estava com dor suficiente e ele disse que eu não precisava de mais uma no combo todo.

Além de tudo inchado, estava roxo. Roxo puro, como a minha cor favorita.

Eu enfim, comecei a chorar. Não sei de onde vieram as lágrimas, porque eu sentia que não poderia haver nenhuma dentro de mim, mas havia.

Meu mundo tinha desabado em uma única noite, em questão de horas.

Eu não conseguia raciocinar direito. Estava entrando em parafusos. Não conseguia entender onde foi que eu errei, qual era realmente o erro e como tudo pôde ter acabado assim, do nada. Minha cabeça girava e doía. Sempre me considerei uma mulher pé no chão, controlada em questão de sentimentos, mas agora? Eu só queria gritar até perder a voz, mas não podia, eu precisava me controlar.

Respirei fundo e entrei embaixo do chuveiro. Tentei passar as mãos no rosto mais não conseguia, estava dolorido demais, inchado demais. Deixei que a água morna caísse pela minha face, tentando assim aliviar um pouco da dor e rezando a Deus para que a dor fosse embora pelo ralo junto com a água e as lágrimas que agora não conseguia mais conter. O vapor parecia carregar o cheiro de hospital que ainda grudava em mim. Cada gota que escorria pelo meu nariz torto era um lembrete físico de que o 'nós' tinha morrido, e o que sobrava ali, debaixo do chuveiro, era apenas o que ele não conseguiu quebrar: minha vontade de sumir para me encontrar.

Após sair do banho, enrolei a toalha no corpo, e me lembrei que não havia pegado nada. Nem roupas, nem mala, literalmente nada. Eu simplesmente sai, deixei tudo para trás.

A dor de cabeça que comecei a sentir só piorou. Onde eu iria conseguir roupas sem ter que precisar sair daquele quarto?

Lembrei da recepcionista, e que ela tinha dito que eu poderia pedir qualquer coisa, ela me ajudaria né?

Peguei o telefone e disquei o número, deu dois toques e ela logo entendeu.

- Recepção, boa noite. - disse a voz do outro lado da linha.

- Oi, eu, hã... - comecei a falar, antes que me arrependesse de ter ligado. - Lembra que você disse para mim que se eu precisasse de algo eu poderia pedir?

A moça ficou muda na linha por alguns instantes, talvez ela estivesse tentando se recordar de com quem havia falado.

- Ah, sim claro.

- Será que poderia me arrumar algumas roupas? Eu vim embora sem nada. Sai de casa só com a carteira. - perguntei hesitante, não sabendo se ela iria me ajudar.

Um minuto de silencio se passou e ela logo respondeu.

- Claro. Eu tenho uma troca no meu armário aqui, posso levar para você. Assim você consegue sair e ir comprar mais. Pode ser?

Juro que fiquei aliviada no momento, e quase chorei de novo.

- Sim, perfeito. Obrigada. - disse desligando o telefone e sabendo que em poucos minutos ela bateria na porta.

Fiquei ali, enrolada na toalha e esperei. Depois de alguns minutos, ouvi as batidas leves. Levantei-me e abri a porta, deixando a recepcionista entrar.

- Aqui estão. - Ela disse me entregando uma muda de roupas e uma sacola com algo dentro. - Meu nome é Clarissa.

- Eu sou a Ariane. - disse pegando a muda das mãos dela. - Muito obrigada pela ajuda. Eu juro que te devolvo, limpinhas.

- Fica tranquila. Você precisa mais delas do que eu. - disse ela com um sorriso leve no rosto. - Espero que o desgraçado que fez isso com você pague.

- Eu também. - Respondi baixinho olhando para o chão.

- Vou te deixar em paz. O café começa amanhã às 07 horas. - Ela disse e saiu do quarto fechando a porta trás de si.

E eu fiquei sozinha.

Por um momento, fiquei olhando para a porta que tinha acabado de se fechar. E pensei em como a Clarissa tinha sido gentil. Na maioria das vezes, duvido que alguém ajudasse outra pessoa sem fazer perguntas, ou sem questionar qual a real história através do meu rosto roxo.

Por fim me mexi.

Enquanto eu me trocava, chegaram mensagens no meu celular de dona Eva, mãe do Diego, minha agora, ex-sogra.

"Oi, onde você tá?".

"Estamos preocupados.".

"Claudio esmurrou o Diego, ele perdeu a paciência enquanto perguntava o que tinha acontecido.".

"Você vai voltar??"

Não respondi nenhuma das mensagens.

Simplesmente me deitei na cama, bloqueei o celular e fui dormir.

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