- Eu sei o que aconteceu. Mas sim, eu quero, preciso ouvir de você. Mas to me preparando para não sair daqui correndo e ir matar aquele infeliz. Afinal, não posso gastar o meu réu primário agora, pelo menos não com aquele monte de bosta. - Ela disse, com raiva e quando ela ficava com raiva, começava a xingar horrores tudo e todos.
Respirei fundo e comecei a contar tudo o que houve na outra noite. Contei tudo, todos os detalhes, eu precisava. Parecia que falar me deixava menos abatida e menos confusa com tudo.
- E aqui estamos nós. - Eu disse assim que terminei a história.
Camila respirou fundo e para tentar se controlar apertou a ponte do nariz entre os olhos.
- Ele tem problemas graves, muito graves. - Ela disse me olhando incrédula.
- Pois é... Mas estou melhor. Me sinto melhor só de falar com você. Obrigada.
- Ari, eu sempre vou estar aqui para você. Assim como você sempre vai estar aqui por mim. Somos amigas, jamais te deixaria passar por tudo isso sozinha. E você não precisa se fingir de forte para mim. Sei que você é incrível, mas não precisa, pelo menos não hoje.
- Eu sei.
- Bom, e o que você quer fazer agora?
Balanço a cabeça em negativa.
- Não sei. - Respirei fundo e fechei os olhos. - Primeiro, vamos ser práticas: eu preciso de roupas, essa que eu estou usando é emprestada da recepcionista. Preciso ir à farmácia, tenho que comprar analgésicos, pasta e escova de dentes, assim como uma escova para cabelos. Preciso de pomadas e maquiagem, eu...
- Eu sei, precisa de muitas coisas. - Ela disse me interrompendo enquanto se levantava. - Vamos fazer assim, eu vou à farmácia pegar tudo isso aí. Na minha mochila tem umas maquiagens, você pode usar, só não usa muito porque eu sou mais branca que você, e você não quer parecer um fantasma. - disse ela me fazendo rir. Só ela para conseguir me fazer rir nesses momentos de merda.
Ela pegou sua carteira e saiu. Sem dizer nada. Eu sabia que era porque ela estava tentando digerir tudo.
Fui até a sua mochila para ver o que ela tinha de maquiagem. Eu precisava mesmo esconder aqueles roxos.
E merda, ela tinha razão, a pele dela era vários tons mais claras que a minha, Camila era quase branca e eu era morena.
Peguei alguns corretivos e tentei passar no rosto, sem que eu sentisse tanta dor.
Assim que apliquei o corretivo sobre os olhos, me encolhi. Parecia que o pulsar de antes tinha voltado só de encostar ali. Mas eu precisava. Tinha que fazer a maldita maquiagem para poder sair daquele quarto, ir até a minha casa pegar minhas coisas e começar a mudar minha vida.
Então respirei fundo e comecei a passar o líquido viscoso pelo rosto para esconder a maior parte dos hematomas, ou tentar melhorar aquela escuridão.
Quando terminei, não tinha ficado lá aquelas coisas. Ainda dava para ver os tons de roxo, não tão nítidos como antes, mas se alguém olhasse muito para o meu rosto, saberia.
Trinta minutos depois a Camila voltou com as compras que fez na farmácia.
- Trouxe tudo o que consegui encontrar, e parei numa lojinha de roupas. - Ela disse, apontando para as sacolas que carregava. - Tem escova de dentes, um pente, e algumas roupas que achei que serviriam em você. São largas, confortáveis.
- Obrigada! Sério.
- Ah, tem um óculo escuro aí também, daqueles grandes. - Ela disse vindo até mim e olhando o trabalho que eu tinha feito com a maquiagem - Trouxe também um pó, assim ele vai deixar a sua pele quase no seu tom normal.
Eu assenti.
Peguei o pente e comecei a desembaraçar meu cabelo me olhando para o espelho. Cada puxão no couro cabeludo me lembrava de que eu ainda tinha sensibilidade, de que eu ainda estava viva.
- Camis, você acha que eu sou fraca por ter demorado quinze anos? - Perguntei, olhando para o reflexo dela pelo espelho.
Ela se levantou, parou atrás de mim e colocou as mãos nos meus ombros, evitando tocar no meu pescoço ainda marcado.
- Eu acho que você foi uma sobrevivente por quinze anos, Ariane. Agora, você só vai começar a viver.
Saímos do hotel meia hora depois. Eu usava os óculos escuros, escondendo o que o Diego tentou transformar em minha marca permanente. Ao passar pela recepção, vi Clarissa. Ela me deu um aceno discreto com a cabeça. Um código entre mulheres que entendem o peso do silêncio.
Eu não queria dirigir, entrar naquele carro só me traria lembranças, tanto boas quanto ruins então entramos no carro da Camila. O motor arrancou, e enquanto nos afastávamos do hotel, eu senti que não estava apenas saindo de um quarto, mas de uma tumba que eu mesma tinha ajudado a construir com tijolos de "desculpas" e "ele vai mudar".
- Próxima parada: a delegacia para confirmar a medida protetiva - disse Camila, ligando o rádio em uma música baixa. - Depois, a sua casa. Vamos retomar o que é seu, Ari.
Eu olhei para minhas mãos no colo.
Minha mente viajando nas possibilidades de voltar para o lugar que um dia eu chamei de lar.
Minhas mãos tremeram um pouco, as fechei em punho e apertei forte.
Respirei fundo e voltei a olhar para a frente.