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Depois do fim
img img Depois do fim img Capítulo 4 A amiga
4 Capítulo
Capítulo 6 Colocando um ponto final img
Capítulo 7 Uma proposta img
Capítulo 8 Dando início a liberdade img
Capítulo 9 Decisão tomada img
Capítulo 10 Voando para uma nova vida img
Capítulo 11 Bem-vinda ao Texas! img
Capítulo 12 Surpresa img
Capítulo 13 Uma nova equipe img
Capítulo 14 Palavras de conforto img
Capítulo 15 Conhecendo o futuro img
Capítulo 16 Dois sobreviventes img
Capítulo 17 Bem-vinda ao lar img
Capítulo 18 O divórcio img
Capítulo 19 Uma chance img
Capítulo 20 O encontro img
Capítulo 21 Invasão img
Capítulo 22 Revelações img
Capítulo 23 Determinação img
Capítulo 24 Planos img
Capítulo 25 A chegada do inimigo img
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Capítulo 4 A amiga

Acordar foi pior do que apanhar. Quando abri os olhos, o teto branco e impessoal do hotel levou alguns segundos para fazer sentido. Tentei me espreguiçar, mas meu corpo inteiro protestou. O rosto não latejava mais; agora era uma dor surda, constante, como se tivessem cimentado minha pele.

Olhei para o lado e vi no criado-mudo, meu celular, que brilhava com notificações incessantes.

Quarenta chamadas perdidas.

Mensagens do Diego, da mãe dele, do pai dele e do irmão dele.

Era quase que um milagre não ver mensagens de mais pessoas, pois conhecendo o Diego, logo ele iria começar a me caçar entre nossos amigos e conhecidos.

O silêncio que eu tanto desejava era interrompido pelo mundo exterior tentando me puxar de volta para o papel de vítima compreensiva.

Eu não queria ser compreensiva.

Levantei-me e fui até a janela. O sol de quinta-feira brilhava lá fora, indiferente ao fato de que minha vida de quinze anos tinha acabado em uma quarta-feira de comida japonesa. Eu não tinha escova de dentes, não tinha pente, não tinha nada além daquela muda de roupa emprestada e um carro que agora cheirava ao perfume dele.

A sensação de não ter nada era, curiosamente, a coisa mais leve que eu já sentira. Pela primeira vez em mais de uma década, ninguém estava me dizendo como me vestir, como falar ou por que eu deveria me sentir culpada por um esbarrão de um estranho.

Peguei o celular.

A única mensagem que eu enviei foi para a minha chefe, dizendo que houvera um imprevisto e que eu não iria trabalhar hoje. Depois da mensagem enviada, minha mão hesitou sobre o botão de desligar. Se eu queria paz, precisava de um vácuo total.

Ativei o modo avião e desliguei o celular.

O silêncio digital foi imediato e reconfortante.

Depois disso fui até as janelas, puxei as cortinas blecaute com força, impedindo que qualquer raio de sol me lembrasse de que o mundo lá fora continuava girando. Eu não estava pronta para o mundo, e certamente o mundo não estava pronto para o meu rosto.

Passei o dia inteiro entre a cama e o chão. O silêncio do hotel era interrompido apenas pelo som do ar-condicionado e, ocasionalmente, pelo barulho de passos no corredor.

Minha mente bagunçada e praticamente paranoica surtava a cada barulho lá fora.

Cada vez que alguém passava pela minha porta, meu coração disparava. Será que ele me achou? Será que alguém contou onde eu estava? A paranoia dele era contagiosa; ele a injetara em mim por quinze anos, e agora eu a carregava como um vírus.

Comi o resto de um chocolate que Clarissa tinha deixado junto com as roupas, mas o gosto era de cinzas. Tentei ligar a TV para abafar meus pensamentos, mas todas as imagens de casais felizes ou discussões banais me davam náuseas.

O ponto alto do meu isolamento foi quando precisei usar o banheiro. Evitei o espelho com a habilidade de um ninja, mas, ao lavar as mãos, cometi mais um erro de olhar novamente no espelho e vi as manchas roxas descendo pelo meu pescoço.

Ele não tinha apenas batido no meu rosto; ele tinha tentado apagar quem eu era, tentara me estrangular, e eu não me lembrava dessa tentativa. Não lembrava das mãos dele no meu pescoço tentando apagar a vida que existia em mim.

A exaustão emocional é diferente da física; ela te esvazia de dentro para fora como um balão murcho.

Meus olhos se enceram de lágrimas novamente e minhas pernas perderam as forças quando finalmente entendi o que Diego quis fazer comigo, com a minha essência.

Desabei-me no chão frio do banheiro, o rosto encostado no azulejo para aliviar o calor da inflamação. Ali, naquela solidão absoluta, eu percebi que a parte mais difícil não seria o divórcio ou a delegacia. Seria aprender a conviver comigo mesma agora que o barulho das crises dele finalmente tinha parado.

Eu estava em silêncio. E o silêncio era, no mínimo, aterrorizante.

***

Devo ter dormido de novo no chão do banheiro, porque eu abri os olhos e ainda estava ali, deitada, com o rosto contra o piso, do mesmo jeito que me deitei no início da manhã.

Olhei o relógio ao lado da TV e vi que marcavam treze horas.

Agora, minha barriga roncava de fome.

Pelo menos eu sentia fome.

Achei que não seria capaz de sentir nada. Precisava me levantar, tomar coragem e olhar como o meu rosto estava no espelho. Respirei fundo, levantei o corpo, e olhei novamente.

- Merda. - Eu disse para o meu reflexo no espelho. Grande parte do meu rosto ainda estava com a minha cor favorita: roxo. Mas o inchaço estava começando a melhorar. Agora a dor? Bom, a dor continuava ali, sem diminuir e sem aumentar, só estava presente ali, em um ritmo constante, como uma melodia triste.

Eu precisava de analgésicos. Na realidade, eu precisava de muitas coisas. Precisava ir a uma farmácia e a uma loja de roupas. Mas como sair com o rosto daquele jeito?

Decidi que era hora de pedir ajuda. Mas para quem?

Eu não queria alguém da família, não precisava de julgamento ou de olhares de pena e principalmente da ira dos meus irmãos. Eu só precisava de alguém que entenderia tudo, e que simplesmente me ajudasse.

Lembrei da minha melhor amiga, Camila. Nós trabalhamos juntas por um tempo, até que eu mudasse de emprego. Nossa amizade continuou, conversávamos todos os dias, ela era a única das minhas amigas que Diego aceitava em casa, talvez pelo jeito caótico de que ela o fazia engolir goela abaixo a nossa amizade. E ela sabia de todas as coisas que aconteciam no dia a dia com meu marido. Eu contava. Precisava contar para alguém, ou eu enlouqueceria. E ela sempre fora maravilhosa comigo. Ela não me negaria ajuda.

Decidi sair daquele torpor de solidão e tirar o celular do modo avião.

Enquanto procurava o número dela nos contatos, milhares de mensagem chegavam e minha caixa de voz apitava feito louca, ignorei tudo até encontrar a Camila e liguei.

Esperei o primeiro toque, o segundo, e no terceiro ela atendeu.

- Oi amorzinho! Que saudades de você. Como você está? - ela perguntou, com aquela voz que me trouxe conforto na hora só de escutá-la.

- Oi Camis. - Eu disse, já querendo chorar novamente. - Preciso de ajuda.

- O que aconteceu? - a voz dela ficando com tom preocupado. - Aquele babaca te fez chorar de novo?

- Pior. - Eu disse respirando fundo, sabendo que ela nunca tinha gostado do Diego. - Será que você pode me encontrar? Eu vou mandar o endereço no seu celular. Sei que você está trabalhando, mas eu preciso de você. Por favor.

- Eu sei que você não pediria se não precisasse mesmo, eu já to indo. Eu vou avisar que tenho médico ou sei lá, eu me viro aqui. Te encontro logo.

Ela disse e desligou. Mandei o endereço para ela e esperei.

Depois de mais ou menos cinquenta minutos, eu ouço a batida na porta.

Sabia que era ela.

Assim que eu abri a porta e a Camila olhou no meu rosto vi suas feições mudarem de preocupada para extremamente irritada, e no instante depois, preocupada de novo.

- Eu imaginei que você ia estar com fome, então passei no Subway para pegar o seu lanche favorito, por isso eu demorei um pouco. - Disse ela, entrando no quarto e colocando a comida em cima da mesinha que tinha perto da janela sendo totalmente prática.

Camila me conhecia melhor que ninguém, principalmente melhor que o Diego. Ela conhecia meus gostos, sonhos, qualidades e defeitos. Nos conhecíamos tão bem que conversávamos somente de nos olhar, sabia que não iria precisar ficar explicando muito o que aconteceu, sabia que não iria precisar disfarçar qualquer que seja o sentimento gritando no meu peito que ela iria entender, ela sabia, sempre sabia.

Eu a vi respirar fundo antes de se virar e me olhar de novo.

- Eu vou matar aquele filho da puta. - Ela disse, me olhando com os olhos marejados. - Amiga, eu sinto muito pelo que aconteceu com você. E to orgulhosa que você conseguiu sair de casa... Viva.

- Bom, você sabe, eu aceitaria tudo dele, menos isso. - Eu respondi apontando para o mesmo rosto e indo me sentar na beirada da cama.

Antes que eu pudesse chegar até lá, ela veio de encontro a mim, e me abraçou, forte e com tanto carinho, que eu não suportei, comecei a chorar que nem criança.

E ali, nos braços dela, eu fiquei um bom tempo.

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