Além de corna, expulsa de casa e emocionalmente destruída, agora eu também estava passando vergonha por fome.
Fechei os olhos novamente e afundei um pouco mais na água.
A verdade era simples: eu não tinha comido nada o dia inteiro.
Nada.
Desde cedo eu já estava estranha. Ansiosa. Aquela sensação ruim no peito que parecia avisar que alguma coisa estava errada.
E estava.
Muito errada.
A lembrança de Enzo com Bianca na nossa cama voltou como uma facada.
Meu peito apertou imediatamente.
Droga.
Eu forcei uma respiração profunda.
Não.
Não ia pensar nisso agora.
Mas era impossível não pensar.
Tudo ainda parecia recente demais.
Cru demais.
Eu me sentia humilhada.
Descartável.
Substituível.
E o pior de tudo era lembrar que eu realmente amei aquele homem.
De verdade.
Enquanto ele...
Eu apertei os olhos com força.
Não.
Chega.
Eu precisava focar em outra coisa.
Em qualquer outra coisa.
E infelizmente minha mente escolheu logo o pior assunto possível:
Adrian Cortez.
Meu ex-sogro.
Lindo.
Gostoso.
Intimidante.
Perfeito demais pra existir.
E que, aparentemente, já tinha deixado bem claro que me queria.
Meu rosto queimou imediatamente ao lembrar da forma como ele me olhou no carro.
Do jeito que a voz dele ficou grave quando disse que queria fazer muito mais do que me devorar.
Meu Deus.
Aquilo definitivamente não era uma coisa que um sogro deveria dizer.
Ou olhar.
Ou pensar.
Mas ele pensava.
Eu vi.
Nos olhos dele.
Na forma como me segurou.
Na tensão absurda que parecia existir toda vez que ele chegava perto demais.
E o pior?
Meu corpo reagia.
Sempre.
Como uma completa traidora.
- Você perdeu a cabeça, Letícia... - murmurei sozinha.
Porque aquilo era errado.
Muito errado.
Só que meu cérebro parecia pouco interessado em colaborar.
Principalmente quando lembrava da forma como Adrian me pegou no colo.
Da facilidade absurda.
Do cheiro dele.
Do peitoral duro pressionado contra mim.
E céus...
Aquele homem tinha literalmente a voz mais sexy que eu já ouvi na vida.
Eu cobri o rosto com as mãos.
Isso era o cúmulo da vergonha.
Meu ex-sogro.
Meu ex-sogro absurdamente gostoso.
E agora eu estava na casa dele... nua... usando a banheira dele... enquanto ele provavelmente achava que eu era uma maluca emocionalmente instável.
Perfeito.
Simplesmente perfeito.
Subitamente me dei conta de outra coisa.
Eu ainda estava ali dentro há tempo demais.
E Adrian provavelmente viria me procurar.
Meu coração acelerou imediatamente.
Não.
Não.
Não mesmo.
Eu precisava levantar.
Colocar o roupão.
Sair dali minimamente digna.
Porque já bastava ele ter me carregado nua uma vez.
A ideia dele fazer isso de novo era humilhante.
...e estranhamente tentadora.
Meu Deus.
O que havia de errado comigo?
Respirei fundo e tentei me levantar da banheira.
Mas meu corpo protestou imediatamente.
Uma tontura forte me atingiu.
Minha visão escureceu por um segundo.
- Droga...
Segurei na lateral da banheira até recuperar o equilíbrio.
As pernas estavam fracas.
Muito fracas.
Mesmo assim continuei.
Devagar.
Me apoiando em tudo que podia.
A pia.
A parede.
O balcão.
Cada passo parecia exigir um esforço absurdo.
Quando finalmente alcancei o roupão pendurado próximo ao aquecedor, quase chorei de alívio.
- Isso... só coloca essa porcaria...
Minha voz saiu baixa e cansada.
Vesti o roupão lentamente, tentando ignorar a tontura crescente.
Mas quando fui amarrar...
Meu corpo simplesmente desistiu.
As pernas falharam.
Minha visão ficou completamente turva.
E tudo escureceu.
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A primeira coisa que senti quando acordei foi calor.
Um calor gostoso.
Confortável.
Macio.
Franzi levemente a testa antes mesmo de abrir os olhos.
Lençóis.
Eu estava numa cama.
Uma cama absurdamente confortável.
Abri os olhos devagar.
A iluminação do quarto estava baixa.
A chuva ainda podia ser ouvida do lado de fora.
E então eu vi.
Adrian.
Sentado na poltrona à minha frente.
Os cotovelos apoiados nos joelhos.
As mãos unidas.
O olhar completamente preso em mim.
Preocupado.
Intenso.
E Deus...
Aquele homem deveria ser proibido de existir.
Os cabelos escuros estavam levemente bagunçados, provavelmente por passar as mãos neles repetidas vezes. A camisa preta social tinha as mangas dobradas até os antebraços, revelando as veias marcadas e as mãos grandes demais.
E o olhar dele...
Meu Deus.
O olhar queimava.
Literalmente queimava.
- O que houve? - minha voz saiu rouca.
Ele soltou o ar lentamente, como se estivesse segurando a própria paciência.
- Você desmaiou.
Ah.
Ótimo.
Mais humilhação.
Perfeito.
Tentei me sentar, mas ele se levantou imediatamente.
Rápido demais.
Preocupado demais.
- Devagar. - a voz firme me atingiu em cheio.
Ele se aproximou da cama e segurou meu braço com cuidado, ajudando-me a sentar.
E lá estava de novo.
Aquele toque.
Aquela eletricidade absurda.
Meu corpo inteiro reagiu.
Idiota.
Completa idiota.
- Você comeu hoje, Letícia?
O olhar dele desceu lentamente pelo meu rosto.
Pesado.
Quente.
Intenso demais.
Eu engoli seco.
- Não.
O maxilar dele travou imediatamente.
- Mas que droga! - ele passou a mão no rosto claramente irritado. - Você não pode ficar sem se alimentar desse jeito.
Eu desviei o olhar.
Constrangida.
- Eu não estava com fome...
- Você quer morrer?
Meu olhar voltou imediatamente pra ele.
A preocupação na voz dele era real.
Forte.
Crua.
E aquilo mexeu comigo de um jeito estranho.
Porque fazia tempo que ninguém se preocupava comigo daquela forma.
Enzo certamente não.
Adrian soltou um suspiro irritado e saiu do quarto antes que eu pudesse responder.
Fiquei parada ali por alguns segundos, tentando processar tudo.
O quarto dele.
Porque obviamente aquela era a suíte dele.
O cheiro masculino espalhado pelo ambiente.
A decoração elegante.
Os tons escuros.
Tudo ali parecia... ele.
Forte.
Sofisticado.
Perigosamente atraente.
Meu olhar caiu involuntariamente na porta do banheiro.
E a lembrança dele me carregando nua voltou imediatamente.
O calor subiu pelo meu rosto.
Para Letícia, ele é seu ex sogro.
Sub: Falou bem, ex sogro. Cai em cima bebê, esse tanquinho gostoso da pra lavar uma boa roupa suja.
- Cala a boca! - murmurei sozinha, horrorizada comigo mesma.
Meu Deus.
Eu precisava urgentemente recuperar a sanidade.
A porta se abriu novamente antes que eu pudesse fugir dos próprios pensamentos.
Adrian voltou segurando uma bandeja enorme.
E quando colocou tudo sobre a cama na minha frente, eu arregalei os olhos.
- Meu Deus... pra que tudo isso?
Tinha sopa.
Salada de frutas.
Água.
Chocolate quente.
Parecia comida suficiente pra alimentar uma família inteira.
Ele puxou a cadeira próxima da cama e sentou devagar.
Sem tirar os olhos de mim.
- Come tudo e não reclama.
O tom autoritário me atingiu em cheio.
Meu estômago fez algo estranho.
Ridículo.
Constrangedor.
Mas fez.
Porque aquele homem mandando em mim deveria ser ilegal.
- Não quero você desmaiando pela casa. - ele continuou, sério. - Preciso de você bem... e de preferência viva.
Eu mordi o interior da bochecha tentando esconder o sorriso involuntário.
- Você sempre manda assim em todo mundo?
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
- Normalmente as pessoas me obedecem sem reclamar tanto.
Meu Deus.
Até arrogante ele conseguia ficar gostoso.
Peguei a colher da sopa tentando ignorar o olhar dele sobre mim.
Mas era impossível.
Porque Adrian não olhava.
Ele observava.
Intensamente.
Como se prestasse atenção em cada detalhe meu.
Cada movimento.
Cada respiração.
E aquilo me deixava nervosa.
Muito nervosa.
- Você está me encarando de novo. - murmurei antes de levar a sopa à boca.
- Estou.
Resposta simples.
Direta.
Sem vergonha nenhuma.
Eu quase engasguei.
- Adrian!
Ele apoiou o corpo na cadeira sem desviar o olhar.
- O quê?
- Você não pode falar essas coisas naturalmente!
Um canto da boca dele subiu lentamente.
Perigoso.
Provocante.
- E quem disse que eu quero agir naturalmente perto de você, Letícia?
{...}