Era isso.
Cru.
Intenso.
Errado.
Eu desejava a mulher do meu filho.
E passei anos enterrando isso dentro de mim.
Anos fingindo normalidade enquanto via Enzo desperdiçar uma mulher que qualquer homem desejaria ter ao lado.
E agora...
Agora aquele idiota tinha perdido ela.
A chance dele.
E talvez...
Talvez fosse a minha.
O pensamento me atingiu forte demais.
Perigoso demais.
Mas pela primeira vez em muitos anos eu não estava tentando fugir dele.
Porque ela não era mais minha nora.
E Deus sabia o quanto isso mudava tudo dentro da minha cabeça.
Meu olhar caiu sobre Letícia novamente.
Ela estava sentada na cama segurando a caneca de chocolate quente entre as mãos delicadas, usando um dos meus roupões enquanto os cabelos ainda úmidos caiam pelos ombros.
Linda.
Naturalmente linda.
Sem esforço.
Sem perceber o efeito que causava.
E isso só piorava as coisas.
Eu forcei uma respiração lenta e me levantei da cadeira.
Precisava criar distância.
Antes que eu acabasse falando alguma coisa que não deveria.
Ou fazendo.
- Esse fim de semana estou sem funcionários. - falei caminhando até o closet para pegar um travesseiro extra. - Mas segunda-feira peço para os criados arrumarem um quarto pra você.
Ela levantou o rosto imediatamente.
Os olhos encontraram os meus.
Atentos.
- Não precisa se preocupar com isso...
Ignorei.
Continuei pegando um cobertor.
- Por enquanto, durmo aqui no sofá.
A reação dela foi imediata.
- O quê?
Eu quase sorri.
A expressão indignada dela era adorável.
- Adrian, nem pensar.
- Letícia..
- Não. - ela me interrompeu rapidamente. - Essa cama é enorme.
Ela apoiou a caneca sobre o criado-mudo e puxou o lençol nervosamente entre os dedos.
Bonita.
Tímida.
Mas decidida.
- Se você não se importar... podemos dividir.
Silêncio.
Por um segundo inteiro eu apenas fiquei olhando pra ela.
Porque ela claramente não fazia ideia do que estava sugerindo.
Dormir na mesma cama que aquela mulher era praticamente tortura psicológica.
Principalmente depois do banho.
Principalmente depois de vê-la nua.
Principalmente depois de anos desejando ela em silêncio.
Meu maxilar travou.
- Se você se sentir confortável... - minha voz saiu mais baixa do que o normal - ...eu não vou negar.
Ela sustentou meu olhar por alguns segundos.
E então falou a frase que destruiu qualquer estabilidade mental que eu ainda tinha:
- Hoje você me despiu, me viu nua... dormir na mesma cama é o de menos, Adrian.
Meu nome saindo da boca dela deveria ser proibido.
Sério.
Porque aquela mulher falava "Adrian" como se estivesse acariciando meu ego sem nem perceber.
Lento.
Quente.
Perigoso.
Eu passei a mão pela nuca tentando manter o controle.
Mas estava ficando difícil.
Muito difícil.
Caminhei lentamente até a cama.
Cada passo parecia errado.
E inevitável ao mesmo tempo.
Quando me sentei ao lado dela, o colchão afundou levemente e o cheiro suave do shampoo dela invadiu meu espaço imediatamente.
Meu corpo inteiro reagiu.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
Porque ficou tensa no mesmo instante.
Os dedos apertaram o tecido do roupão.
A respiração ficou mais curta.
E aquilo mexeu comigo num nível absurdo.
- Relaxa. - murmurei, encarando ela de lado. - Eu não vou avançar em você.
Ela soltou uma pequena risada nervosa.
- Isso deveria me tranquilizar?
Eu arqueei levemente a sobrancelha.
- Depende.
Ela me encarou.
E droga...
Aquela mulher tinha os olhos mais perigosos que eu já vi na vida.
Porque eles perguntavam coisas demais.
Sentiam coisas demais.
Mesmo quando ela tentava esconder.
- Depende do quê? - perguntou baixo.
Eu me aproximei um pouco mais sem pensar.
Só alguns centímetros.
Mas suficiente pra sentir o perfume dela outra vez.
- Do quanto você quer que eu avance.
O silêncio caiu imediatamente.
Pesado.
Quente.
Ela prendeu a respiração.
Os olhos vacilaram.
E pela primeira vez naquela noite...
Letícia não desviou de mim.
Meu olhar caiu involuntariamente na boca dela.
Pequena.
Delicada.
Levemente inchada.
Perfeita.
A vontade de beijá-la veio tão forte que precisei fechar a mão sobre o lençol pra me controlar.
Porque se eu começasse...
Eu não sabia se conseguiria parar.
E isso era perigoso.
Muito perigoso.
Ela engoliu seco.
- Você sempre fala coisas assim para as mulheres?
A pergunta saiu quase como um sussurro.
Eu sorri de lado.
Sem humor.
- Não.
- Então por que fala comigo?
Porque eu estou obcecado por você há anos.
Porque cada jantar em família era uma tortura.
Porque eu odiava ver você ao lado dele.
Porque eu pensava em você mais do que deveria.
Mas eu não disse nada disso.
Ainda não.
Então apenas sustentei o olhar dela e respondi:
- Porque você mexe comigo de um jeito que nenhuma outra mulher conseguiu mexer.
Ela ficou imóvel.
Completamente imóvel.
E eu percebi o momento exato em que aquelas palavras atingiram ela.
A respiração falhou.
Os olhos piscaram lentamente.
As bochechas ganharam um tom rosado.
Bonita.
Perigosamente bonita.
Ela desviou o olhar primeiro.
Claro.
Mas o estrago já estava feito.
Eu me recostei na cabeceira tentando recuperar um pouco da sanidade.
- Dorme, Letícia.
Ela soltou uma respiração lenta antes de se acomodar do outro lado da cama.
O problema?
A cama era grande.
Mas não o suficiente.
Porque eu conseguia sentir o calor do corpo dela mesmo com a distância.
E aquilo era uma tortura.
A chuva continuava caindo do lado de fora.
O quarto estava silencioso.
Escuro.
Íntimo demais.
Por alguns minutos nenhum dos dois falou nada.
Até que a voz dela surgiu baixinha no escuro:
- Você está bravo comigo?
Eu virei o rosto imediatamente.
- O quê?
- Você ficou quieto...
Soltei um suspiro baixo.
- Não estou bravo com você.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois:
- Então por que parece tão tenso?
Porque você está deitada na minha cama usando meu roupão enquanto eu tento desesperadamente não imaginar como seria arrancá-lo de você.
Mas outra vez eu calei aquilo dentro de mim.
- Porque eu estou tentando ser um homem decente.
Ela virou o rosto lentamente na minha direção.
Mesmo na pouca luz eu consegui ver a expressão confusa dela.
- E isso é tão difícil assim?
Eu ri baixo.
Amargo.
- Você não faz ideia.
Silêncio outra vez.
E então...
Ela se mexeu.
Devagar.
Até ficar um pouco mais perto.
Pouco.
Mas suficiente pra acabar comigo.
Meu corpo inteiro ficou alerta imediatamente.
- Adrian...
A voz dela saiu baixa.
Suave.
Quase tímida.
- Hum?
- Obrigada.
Eu fiquei olhando pra ela em silêncio.
Porque havia sinceridade ali.
Muita.
E aquilo me atingiu mais do que deveria.
Ela continuou:
- Você foi a única pessoa que me acolheu hoje.
Meu peito apertou forte.
Eu queria matar Enzo outra vez.
Queria quebrar cada osso daquele moleque por fazer ela se sentir descartada.
Sozinha.
Quando ela era... tudo.
Absolutamente tudo.
Sem pensar muito, estendi a mão devagar e segurei o rosto dela.
Com cuidado.
Como se fosse algo precioso demais pra quebrar.
Os olhos dela encontraram os meus imediatamente.
E ali.
Naquela cama.
Naquele silêncio.
Com a chuva caindo lá fora...
Eu soube que estava perdido.
Completamente perdido por aquela mulher.
- Nunca mais deixa ninguém te fazer sentir sozinha desse jeito. - murmurei baixo. - Nunca mais.
Ela ficou me olhando em silêncio.
E então, lentamente...
A mão pequena dela segurou meu pulso.
O toque foi suave.
Mas destruiu qualquer controle que ainda existia dentro de mim.
{...}