Meus horários de serviço agora são melhores, trabalho somente à parte da tarde. Parte da manhã, dedico a arrumar a casa e, de noite, faço a janta mais cedo e vou ler alguns livros.
Minha mãe tem alguns livros na sua estante, estão empoeirados, mas nada que uma limpeza não resolva. E amo muito ler esses livros, mesmo que as histórias não sejam reais, eles me dão esperança no "amor".
Eu nunca amei ninguém além da minha família, não sei se isso é pra mim.
Pelo que sei, minha mãe cresceu na igreja ouvindo de Deus e serviu a Ele até a morte. Ela encontrou o amor, foi amada, nos amou. Mas ela partiu, Deus a levou. Nunca me indignei com ele. Foi a hora dela, mas tivemos tão pouco tempo.
Lembro de uma frase que ela sempre falava:
" NÃO DESISTA DE DEUS, ELE NÃO DESISTE DE VOCÊ. "
Isso sempre fica martelando na minha cabeça. E sempre digo isso ao meu irmão. Oramos toda noite juntos e tentamos sempre não reclamar da nossa vida e sim agradecer. Queremos parecer com nossa mãe, sermos uma boa pessoa.
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No dia seguinte, é minha folga.
Vou até o mercado com meu irmão e compramos algumas roupas, estávamos precisando. Pedro ficou contente, havia muito tempo que não compramos nada, só pagamos.
Comprei para ele dois pares de roupa e um tênis de que ele ficou apaixonado, e para mim dois simples vestidos, gosto de roupas simples, combina comigo.
Depois, Pedro fica encarando um lindo caminhão verde. Ele fecha a cara e sabe que suas economias não vão pagar o caminhão que tanto deseja.
Eu coloco minha mão em seu ombro. Ele se vira para mim e eu digo:
- Pode pegar. - Digo sorrindo para ele.
Ele fica espantado e diz:
- Mas e suas economias?
- Bom... eu junto de novo, meu livro pode esperar, depois você me paga o livro.
Eu pisco para ele, e meu irmão me abraça forte e enche meu rosto de beijos.
Compro o caminhão para ele e, quando estávamos indo para a estrada de pedra que segue até a nossa amada vila, somos surpreendidos...
Aparece um carro escuro, bem chique, na nossa frente. Pego na mão do meu irmão e respiro fundo, atenta.
O vidro se abaixou e percebi quem era na mesma hora.
- Boa tarde, jovens.
Seria difícil não reconhecer aqueles olhos verdes, cabelo perfeito, aquela colônia. É o Jones.
Reparo que ele continua com o mesmo jeito elegante.
- Que tal uma carona? - eu não respondi, não o conhecia, então por que ir com ele?
Mas, ele pareceu entender meu olhar.
- Bom, Lúcia, eu sou o dono do bar onde seu pai se encontra todas as noites. Ele nos deve uma boa grana, preciso lembrar a ele de pagar, se não, fico no prejuízo. - ele soltou um leve sorriso, me olhando.
Que droga! Por que meu pai faz isso comigo?
Todo nosso dinheiro vai para ele. aff
- Hummm, tudo bem. - assenti.
Ele abre a porta pra mim e eu e meu irmão entramos.
Ficamos em silêncio durante o percurso até chegar à nossa vila.
De vez em quando, percebi Jones me olhando.
E isso me deixou nervosa... com vergonha, na verdade. Por que ele me olha assim? Desvio o olhar, prestando atenção do outro lado do vidro.
Minutos depois, chegamos... não moro longe do trabalho.
Eu saio do carro com Pedro e segurando as sacolas.
Pedro entra em casa e vai guardar seu caminhão, todo animado.
Encontro meu pai do lado de fora, perto do jardim.
Quando ele percebe que Jones está ali, os dois se cumprimentam, secamente.
- Que coincidência, Rodolfo. Encontrei seus filhos, mas os trouxe em segurança para você.
- Obrigado.
Meu pai responde seco e segura meu braço.
O que está acontecendo?
- Ora. Ora. O que acha que está fazendo? - Diz Jones, sério, fitando meu pai.
- Levando minha filha para dentro, para a gente conversar. - Ele arfa para o Jones, eu francamente não sei o que está havendo.
- Não temos nada para conversar. - Jones chama um de seus guardas-costas que estava no carro conosco, eu nem prestei atenção nele.
Meu Deus, o que está acontecendo aqui afinal?