- Dinheiro? Mas não faz sentido. Você está me pagando uma fortuna para pegar pra você. Acredito que esteja pagando aos outros também
- Estão me pagando mais
Mais do que ele estava pagando a mim? Aos outros?
- Quem? Quem quer tanto essas joias?
- A risada estrondosa rompeu o ar até mim. A brisa do mar acertou meu rosto como se quisesse me dar uma bofetada.
- Não acha que direi, certo?
- Custa nada tentar. - Dei de ombros em uma despreocupação que eu não apresentava. O sorriso escondendo o nervosismo.
No momento em que deixei a cadeia, tudo o que conseguia pensar era na minha liberdade. Mas agora, com os ânimos mais calmos, eu pensei friamente sobre aquilo.
Não era uma aluna aplicada nas aulas sobre nossa religião que eram dadas pelas sacerdotisas, mas me lembro de algumas coisas, e apenas isso foi possível me alarmar. E agora, o que fazer?
Quatro pedras, uma para cada elemento e cada deus, cada uma carregada de poder, e isso separadas, eu não fazia ideia do poder delas juntas.
Como se adivinhasse meus questionamentos, ele fala:
- Não está pensando em desistir, está?
- É claro que não. Vou pegar essa pedra, meu dinheiro e sumir no mapa. Não quero saber de mais nada.
Falei com convicção, eu mesma precisava me prender a essas palavra. Era de dinheiro e liberdade que eu precisava.
Deixei o silêncio se acomodar entre nós novamente, e assim se seguiu até que chegamos no reino de D, Arcos.
***
Fui deixada a uma determinada distância de uma embarcação gigantesca. O homem disse que não precisaria me levar, nem me apresentar. Disse que tinha outros compromissos e assim que me afastei da embarcação que me levou até ali, os remos trabalhando silenciosos, não era possível ver quem o fazia se mover sob as águas, a mesma se afastava lentamente.
Andei até lá e algo me dizia que eu conhecia aquelas pessoas, ou parte delas pelo menos.
Ao chegar, comprovei, infelizmente, que estava certa.
- Diana!
Eu tinha que adivinhar que pessoas estavam ali, será que sabiam que seria eu?
- Não acredito, viva ainda
O casal que me cumprimentou tão calorosamente era Fill e Ida, os irmãos gêmeos que fizeram parte da equipe que salvaria a vida do rei, a mesma na qual eu me ferrei totalmente.
Andei a passos largos, apressados, seus sorrisos se ampliaram.
- Está mesmo com saudade, garota! - Fill falou, mas meu passo não cessou, não diminuiu.
Ida entendeu minha intenção antes do irmão e deu um passo para trás, mas de toda forma já era tarde demais.
Acertei um gancho de direita na mandíbula de Fill, antes que ele caísse para trás, o segurei pelo cabelo e acertei sua testa na madeira lateral do barco. Ida já estava correndo, mas a raiva era tanta que alimentei meus músculos destreinados com ela, e a alcancei.
Puxei pela gola do casaco e ela caiu no chão, sentei na sua barriga e a esbofeteei várias vezes. Ela tentou me acertar, mas não senti seus golpes tamanha era minha fúria. Pessoas se juntaram ao nosso redor e me agarraram, me puxaram, encerrando meu acerto de contas.
Ouvi uma voz dizer:
- Calma, gatinha! Calma, está tudo bem agora.
Não podia ser, estaria ouvindo coisas ou estaria realmente ouvindo sua voz.
- Adam!
***
Arya
O ritual estava prestes a acontecer, e eu fui me preparar para ele. As vestes ornamentadas eram exclusivas das guardiãs, por isso eu seria notada a partir do momento que colocasse os pés para fora do templo. Quando deixei o templo, vi Adam observando a movimentação do povo em torno do local já preparado. Seu olhar estava distante, não sei o motivo, mas algo apertou em meu peito. Fui até ele, e o rapaz me elogiou de uma maneira que fiquei envergonhada, não era comum receber elogios, muito menos vindo de homens.
Ele pareceu interessado nos processos do ritual, respondi todos seus questionamentos. Era bom ter alguém interessado, e para quem ensinar estas coisas.
Notei que imediatamente ele pareceu inquieto, desviou o olhar, coçou a cabeça e eu não entendi o motivo de sua inquietação.
- Arya, antes do ritual, você precisa fazer alguma coisa? preparar a pedra ou o local da cerimônia?
Sua pergunta podia ser só mais uma entre as outras que ele havia feito, mas seu comportamento estava estranho agora.
- Não, já está tudo pronto. Os guardas trarão a pedra em breve. - Respondi.
- Os guardas trarão a pedra?
- Sim, por quê? - Estava ficando confusa.
- Por nada, só curiosidade. - Respondeu e me lançou aquele sorriso estranho.
Ele estaria nervoso por nunca ter participado de um ritual como esse?
- Fique tranquilo, Adam, não é um tipo de ritual sacrificial ou algo assim.
Seu sorriso vigilante ampliou.
- Que bom, melhor assim.
Os sinos começam a tocar, a população se anima. Todos começa a dançar e bater Palmas, mesmo sem música tocando. Olho para o templo e vejo dois guardas trazendo a relíquia. Suas lanças apoiadas em seu ombro livre, enquanto o outro braço segurava a alça do suporte.
Vi Adam dar um passo vacilante, mas parou, olhando para mim. Sorri o encorajando e ele caminhou até os guardas que com minha autorização silenciosa, entregaram a pedra a ele. Mas os guardas não se faltaram, o seguiram enquanto caminhava.
O vi olhar para os guardas atrás dele, depois seus olhos percorreram todo o lugar e percebi que ele não sabia para onde ir. Indiquei com a mão o lugar aí centro, quando seus olhos pararam nos meus. Novamente o vi vacilar, parecia em dúvida. Estaria com medo de acontecer algo a ele?
- Está tudo bem. - murmurei calmamente para que ele lesse em meus lábios e apontei para o pequeno altar preparado para receber a pedra.
Então Adam olhou ao seu redor novamente e finalmente caminhou até o altar colocando a pedra sobre ele. Os guardas se posicionaram um de cada lado do altar, meu amigo fez um cumprimento engraçado e voltou em minha direção. A mão atrás da cabeça, como se estivessem envergonhado, me fizeram sorrir, embora não soubesse o porquê.
- Sabia que você teve uma grande honra?
Falei, o sorriso se expandindo .
- É sério? - Ele ainda tinha aquela expressão engraçada no rosto.
- É sim, agora vamos que já está na hora.
Segurei sua mão e o arrastei de volta para o centro. Já havia muitas pessoas em torno da pedra, o círculo já estava grande o bastante para que começassemos a cerimônia. A lua estava alta o bastante, então, quando apagaram as tochas e lamparinas, uma luz pálida banhou o lugar. Toda a praça ganhou um iluminação azulada pálida, e, a medida que a visão de todos se acostumaram com a nova iluminação, foi possível observar tudo perfeitamente. E era lindo, muito lindo, lindo mesmo.
Começamos o cântico, era animado e dançante. As crianças que participavam pareciam se divertir bastante. Senti algo em meu ombro e notei que Adam havia apoiado a mão sobre meu ombro. Senti-me corar, mas eu precisava me concentrar.
Voltei a atenção para frente e continuei o cântico enquanto dançamos em círculo. O ritmo de animado, tornou-se mais lamurioso. Era nosso pedido ao deus Arcos: como viveríamos sem sua benção e sua misericórdia?
Talvez não parecesse tanto tempo para nós que passamos todo o ano esperando por este dia, mas foram duas horas de canções e danças. Eram todas passadas se geração em geração. Algumas animadas e outras nem tanto .
Finalmente chegou o ponto alto. Retirei a relíquia de dentro de seu suporte, e me mantive no meio do grande círculo, não mais o compondo junto com os outros aldeões. A ergui para o alto e entoei o último cântico. As pessoas ergueram suas velas apagadas, repetindo minhas palavras, e ao fim delas, um clarão rasgou o céu, um turbilhão dourado envolveu a todos nós. As velas que estavam apagadas acenderam com o poder emanado e eu senti o poder em meu corpo ser revigorado.