ridículo e errado chamar a atenção do chefe depois de tudo que já
fiz. Não é uma boa ideia.
Não me importo se o bundão disse que não me demitiria e
que não foi grande coisa o que falei a ele durante todo este tempo.
Sei que se me visse pessoalmente e concluísse que a Birdpink não é
grande coisa, com certeza se enfureceria e me mandaria embora.
Meu coração vai à boca quando o celular vibra ao meu lado. É
ele, seu nome. Ou melhor, o apelido que o dei. Está grande e claro
na tela.
Luto para não deixar a curiosidade me tomar, só que é
impossível resistir quando a segunda mensagem chega.
"O que está fazendo, passarinho?"
"Se estiver de acordo, podemos sair e conversar pessoalmente."
Ótimo! Ele quer conversar. Mas sabe qual será a minha
resposta.
"Ian, não vai conseguir me convencer a mudar de ideia. Então,
NÃO!"
"Odeio mulheres difíceis. Deve saber que nossa amizade pode
acabar se não me der mais do que pistas. Não sou de gostar quando
não sei das coisas ou com quem estou falando."
Amizade?
"Primeiro: somos amigos? Segundo: como está acostumado a
sempre estar no comando, deve saber que o mundo não gira em
torno de você, bundão. Acho que vai ter que lidar com isso ou,
simplesmente, pararemos de nos falar."
A ideia é boa. Não poderíamos ser amigos porque não faço
amizades com tanta facilidade. Por isso fiquei surpresa ao ver que
ele me considera uma amiga. Acima de tudo, não posso me
esquecer de quem é Ian Novack. Apesar de ser um cara que vive,
aparentemente, estressado com tudo e que pode ser um homem
legal, não é um qualquer, e sim meu chefe.
Na prática, não sou muito de falar e não gosto quando brigo
com as pessoas. Portanto, eu me sinto confortável apenas em falar
com ele por mensagens. Dizer na cara dele tudo que penso é algo
que nunca aconteceria.
"É o que você quer? Porque não quero forçá-la a nada. E, sim,
estou curioso. Mas não pense que estou exigindo nada! Todos
pensam que Ian Novack é só mais um cara babaca que usa as
pessoas, mas não sou sempre um idiota, passarinho. Se acha isso
demais, posso simplesmente me esquecer de tudo, e nunca mais
terá que se preocupar comigo."
Merda! Não é o que quero, mesmo. Na verdade, não sei o que
quero.
"Não quero ser a pessoa que te julga, Ian. Não sei como agir
em relação a isso. Você não é tão babaca quanto pensei ser, mas
ainda é meu chefe. E nem nos conhecemos."
O que estou falando?! Ele não é um futuro pretendente.
"Quero dizer... Não faço amigos com facilidade e não costumo
confiar nas pessoas."
Não obtenho uma resposta rápida. Acho que ele desistiu e
acabo pensando que é melhor assim. Eu não devia ter começado
com essa brincadeira. Teria evitado toda essa confusão.
Quando desligo a tela do celular, sua mensagem chega.
"Também tenho dificuldade em confiar, passarinho, e entendo o
que pode estar sentindo. Você é a única pessoa que realmente fala o
que deseja, sem medo de ser rude ou me irritar. Gosto disso e não
quero perder nossa interação interessante."
Interessante?! Achei que ele odiasse.
"Não fica chateado quando falo essas coisas? Achei que não
gostasse."
"Se fosse com qualquer outra pessoa, eu odiaria, mas você,
passarinho, tem algo que muda isso em mim. Faz eu gostar de
conversar e de ouvi-la dizer o quanto sou errado."
E, novamente, ele me surpreende.
"Então... Somos amigos?"
"É estranho, porque você é meu chefe. Então..."
"Sabe o que é mais estranho? Esbarrar em alguém, ela me achar
um escroto, depois me devolver o celular que deixei cair,
conversarmos um com o outro como se fôssemos íntimos e nem a
conhecer."
Estranho também é gostar de falar com você ou sorrir como
uma idiota só porque quer seu meu amigo.
Tudo fica estranho a cada dia ou a cada mensagem. Ian é
meu chefe e, mesmo dizendo que quer minha amizade, nada
mudaria esse fato. Portanto, para que eu não seja punida
futuramente por algo que venha a fazer, é melhor me esquecer disso.
"Deve estar entediado. Conversar com uma estranha em plena
sexta-feira é algo quase deprimente. Quando se pensa em alguém
como você, mesmo sendo um bundão, imagina-se que não estaria
sentado em um sofá digitando mensagens para alguém que nem
conhece."
E, mais uma vez, fico sem uma resposta imediata. O pior é
que não quero parar de conversar com ele, embora saiba quão
estranho é esse desejo.
"Já faz um tempo que não saio para me divertir, passarinho. Com
meu pai em coma e com todas as responsabilidades em cima de
mim, é difícil achar um momento só meu. É difícil até ir ao escritório,
porque sempre espero uma ligação me dizendo que ele não resistiu."
"Sinto muito, Ian. Sei sobre o acidente, só que de nada além
disso."
"Eu deveria estar no lugar dele agora, mas me recusei a ir ao
evento. E, como ele não poderia deixar de comparecer lá, foi. Mas
queria tanto que eu tivesse ido. Agora, por minha causa, meu pai
pode não resistir."
Eu não faço ideia do porquê Ian está me contando essas
coisas, mas ver um pouco mais do homem arrogante e descobrir que
ele não é isso tudo, está sendo bom, mesmo que no meio dessa
história toda haja algo tão terrível.
"Aposto que ele não pensará assim quando acordar. Você não
queria que aquele acidente tivesse acontecido. Ninguém poderia
adivinhar. Então, deve parar de se culpar. Coisas assim acontecem."
"Por que está me falando essas coisas? Mal me conhece. Acha
que sou a pior das pessoas e, mesmo assim, está dizendo algo para
fazer eu me sentir melhor?"
Não sei se esse é o Ian arrogante ou o que não acredita no
que falei, por não se achar merecedor daquelas palavras. Fico em
cima do muro, sem saber o que responder com exatidão.
"Apesar de não confiar muito nas pessoas, sempre tento dar a
melhor parte de mim. E não acho que alguma força superior tenha
causado tal acidente para lhe punir. Espero que possa acreditar em
minhas palavras."
"Não se ofenda, passarinho! Só não estou acostumado a ouvir
alguém dizer algo ao meu favor. Não sou a melhor pessoa do
mundo, e muitos que estão ao meu redor só querem se aproveitar. É
por isso que estou gostando de você: não é assim."
Acho que ele não soube se expressar. Sim! Quis dizer que
gosta da minha sinceridade.
"Gosto de conversar com você."
Claro. Agora sim.
"Ok, Ian. Já está tarde e ainda tenho que trabalhar."
"Trabalhar? É sexta à noite. Como vai trabalhar?"
Um sorriso sai da minha boca ao ler sua mensagem, que
chegou em poucos segundos. Se eu falar o que irei fazer,
logicamente ele ligará os pontos. E eu não darei tudo de mão beijada
ao meu chefe bundão.
"É um projeto pessoal. Nada de tão importante."
"Sabe, passarinho? Esse seu mistério só me deixa ainda mais
curioso e motivado a te achar."
"Não entendo como não pode deixar isso para lá e seguirmos
com nossa "amizade" em anonimato. Sinto-me mais confiante para
dizer as verdades na sua cara se eu não correr o risco de você
aparecer do nada na minha porta ou me demitir no trabalho."
"Vou repetir mais uma vez, passarinho: não quero demiti-la,
somente acabar com a fantasia que minha cabeça insiste em criar.
Se eu não soubesse que a minha secretaria é tão medrosa, pensaria
que seria ela querendo me enlouquecer por tudo que já fiz."
"Não fantasie! E, eu não sou a Mia. A coitada morre de medo
de ser demitida quando você chega na empresa como um vilão da
Disney, buscando uma desculpa para ser grosso com todos."
"É o que todos pensam de mim? Ótimo! Já não bastava meu pai
me achando um idiota, os funcionários acham que sou um bosta."
"Bem... Confesso que também achei isso quando me derrubou
outro dia. Mas, fique tranquilo! Você é um bundão que não gosta de
ser tão bundão e tenta mudar quando as pessoas reclamam."
"Fico feliz que não me odeie totalmente, estranha. Mas, ainda
assim, sou uma péssima pessoa. E isso irrita a mim mesmo. Na
verdade, só percebi graças a você. E não acho que conseguirei a
confiança deles após meus ataques de fúria."
"Um dia de cada vez, Ian. Só precisa ser mais educado e
menos babaca."
Eu deveria desligar o celular e deixar para falar com ele em
outra hora, porém não consigo tirar os olhos da tela, esperando por
uma mensagem sua. Sinto essa necessidade como se o cara fosse
alguém importante ou algo do tipo.
"Boa noite, passarinho! Pode ir trabalhar no seu projeto pessoal
enquanto eu tento, de alguma forma, contentar-me com a ideia de
nunca saber quem é você."
"Boa noite, Ian!"
Foi difícil desligar o celular. Nas outras vezes em que
conversamos, terminamos as conversas com alguma provocação,
briga ou com ele ameaçando me achar de alguma maneira, mas sua
última mensagem de hoje me deixou pensativa.
Em um buraco escuro dentro do meu peito, sei que quero
dizê-lo quem sou, só para que ele olhe para mim sem ser como um
chefe bravo ou apressado, e sim como uma amiga.
Ian
Não sei o que está acontecendo comigo. Desde que comecei
a conversar com aquela estranha, não paro de pensar nela ou em
como ela pode ser, na cor de seus olhos, dos cabelos, em como se
veste... As únicas coisas que sei dela até o momento é que tem uma
tatuagem, que sua pele é pálida, que trabalha na minha empresa e
que é tímida. Mas, por trás do seu anonimato, é sincera e
provocante.
Todo esse mistério está me deixando louco; e uma mulher
nunca conseguiu isso de mim. Estou fascinado por ela como se
fosse uma necessidade saber sua identidade, seu nome, onde vive e
com quem.
Não acho que o passarinho tenha algum namorado, mas pode
ter algum pretendente.
Hoje, mesmo, senti que deveria sair do meu escritório só para
buscar por uma pessoa que eu nem sabia quem era.
É loucura. Estou ficando louco.
O pior de tudo é que sempre quero mais dela: mais
informações e mais uma mensagem.
Ela foi a primeira mulher que me fez dizer tudo aquilo sobre
mim, porque a maioria que sai comigo só fala banalidades, enche o
saco e me faz desejar que as horas passem rápido. Diferentemente
do que a estranha causa em mim.
Em qual departamento ela trabalha? RH? É uma secretária?
Assistente pessoal? Técnica de manutenção? É um mistério.
Hoje terei uma visitação com um dos nossos novos clientes. O
homem é daqueles que não acredita nas novas tecnologias, mas,
ironicamente, precisa de proteção virtual para os seus dados. Tudo
hoje em dia gira em torno delas, como a internet. Se não se sabe
guardar adequadamente os dados da sua empresa, seja banco,
construtora, etc., corre-se o risco de ser roubado pelos hackers ou,
como os antigos os chamam, "piratas virtuais". Essa gente rouba
tudo que você tem para ganhar.
Apesar de ser difícil gerir números e dados de outras
empresas, meu pai foi um homem muito cuidadoso e sabia que, para
não errar, teria que sempre inovar e buscar novas maneiras de
proteger tais informações.
Minha cabeça oscila entre o trabalho, o novo cliente e a
estranha do celular. Passei a frequentar espaços onde os
funcionários frequentam e a observar tudo e todos. Até agora, dentro
do elevador social, procuro por respostas.
As mulheres lindas com seus terninhos e vestidos justos estão
caladas. Eu não sou o único homem aqui, mas ninguém, nem
mesmo o cara de óculos estranhos, diz um "pio".
Segundo a estranha, todos me acham um vilão. E ela tem
razão. Desde que pus os pés neste lugar, tenho sido um bundão. Fui
muito bem educado com os melhores princípios, e tudo mais, porém
quando estou estressado ou de saco cheio, estouro e não penso
muito nas pessoas ao meu redor.
Agora, eu não quero ser um tarado que está tentando ver uma
parte do corpo de alguma mulher. Sendo assim, impeço meus olhos
de procurarem por um pulso com uma tatuagem de pássaros
voando. É difícil.
Você é um tarado, Ian!
Ela diria isso. Rio do meu próprio pensamento e do da mulher
que, ultimamente, está tirando o meu juízo.
Dou graças a Deus quando chego ao meu andar. O clima no
elevador estava estranho. As pessoas ficam assim quando estão
perto de mim. O que só comprova que sou um homem odiável.
- Bom dia, senhor Novack! - Mia me cumprimentou,
entregando-me meu café antes mesmo de eu entrar no escritório. -
A visita com o senhor Phil está marcada para daqui a dez minutos.
Ele insiste para que o senhor o acompanhe.
"Ótimo!" Como se eu não tivesse outras coisas para fazer!
Phil é o dono de uma das maiores empresas de publicidade
do país, e já fazia um tempo que ele e meu pai estavam conversando
sobre um acordo. O homem demorou para aceitar que uma empresa
como a TEC Corporation poderia proteger o seu dinheiro. Até parece
que ainda vive no século passado, onde tudo era armazenado em
gavetas e escrito em papéis que só juntavam poeira. No novo século,
tudo que fazemos, até mesmo criação de projetos, é colocado em
HD's ou em bancos de dados. Empresas como a dele dependem de
servidores modernos para que nada seja perdido.
Contudo, o que é facilitado, também pode ser uma porta para
roubos. Antes alguém tinha que passar por um segurança armado
para pegar a papelada que poderia arruinar um negócio, como
contratos e muito mais, porém, para isso hoje em dia, é necessário
apenas um bom conhecimento e ferramentas capazes de alcançar
computadores até do outro lado do mundo. Ninguém está seguro de
ser roubado, no entanto dificultamos os idiotas de conseguir esse
feito.
- Ok, Mia. Prepare tudo para mais tarde! - avisei, tentando
não ficar de mau humor só porque um velho amigo de meu pai
precisa da minha presença para acreditar que a TEC Corporation é
capaz de fazer o seu trabalho: cuidar do patrimônio virtual de um
bilionário qualquer. - Remarque a reunião das 10 horas para às 14
horas! Farei o possível para que isso acabe logo.