para resolver qualquer problema.
- E vocês cobrem qualquer prejuízo se isso acontecer? -
Levanta as sobrancelhas grossas ao me olhar.
- Claro. - Coloco um sorriso no rosto, sendo que não estou
nada feliz. - Sabemos como é importante manter tudo em ordem,
para que nada dê errado, Phil. As manutenções são constantes, e
não é só na sede que temos este extenso equipamento que está
vendo. - Eu o acompanho para fora do local, indo em direção à sala
onde os engenheiros e técnicos trabalham. - Em Los Angeles está
o que meu pai chama de "cérebro". É parecido com o que acabou de
ver, só que cinco vezes maior; e os servidores se comunicam entre
si, permitindo que saibamos de tudo em tempo real, tanto em Nova
York, quanto em Los Angeles.
Sua expressão de surpresa me alegra. Ele é tão difícil quanto
convencer um certo passarinho a me encontrar pessoalmente. Mas,
diferentemente de como é com ela, vou conseguir fechar o negócio
com esse homem.
- Seu pai tinha razão. - chamou minha atenção. - Você é
bom nos negócios e um ótimo negociador.
- Nunca ouvi meu pai falar essas coisas sobre mim. -
Lembro-me da nossa última briga, antes de ele sair irritado do meu
apartamento e ir à festa que eu devia ter ido.
- Ele sempre reconheceu a sua capacidade. Mas, não pode
mentir, dizendo que não era um imprudente com as mulheres. As
notícias saíam sobre você nos noticiários de fofoca. - brincou.
- É. Eu não posso. - Sinto-me ainda mais culpado.
Entramos na sala onde todos trabalham para manter tudo em
ordem. Sem os engenheiros, não somos nada. Ainda não sei como
funciona essa parte, mas também não preciso. Eu cuido da
administração e deixo essa área para os que amam as coisas
confusas que estão nas telas dos computadores agora. O local não é
tão fechado e todos estão em seus lugares, com vários monitores,
fios, e com uma climatização especial. Eu nunca tinha entrado aqui.
Milton é o chefe desse setor, e é ele quem nos explicará tudo.
- Bem... É aqui onde tudo acontece, Phil. Este é Milton,
chefe do setor, e quem realmente sabe o que acontece nessa sala.
O homem baixinho, quase careca e de sorriso que vai de
orelha a orelha, cumprimenta o nosso visitante e logo começa a sua
palestra sobre todo o processo. Eu deveria prestar atenção nisso
também. Não porque iria me ajudar a convencer Phil a nos contratar,
e sim porque gostaria de saber mais sobre tudo, já que agora sou eu
quem administro a TEC Corporation. O problema é que passo o
tempo inteiro tentando achar alguém que não quer ser achada.
Poderia deixar isso de lado e respeitar o anonimato dela, porém é
impossível impedir os meus olhos de buscar por ela, mesmo não
sabendo como achá-la.
Está difícil parar de pensar nessa mulher ou na possibilidade
de estar sendo enganado e, na verdade, estar conversando com um
estranho que sente a necessidade de brincar comigo. Apesar da foto
que recebi do seu pulso, pode ser isso.
Milton e Phil estão andando pelo espaço em minha frente
enquanto eu nem escuto o que eles dizem. Até que uma coisa no
meio do caminho chama a minha atenção. Embora não tenha
inspecionado este lugar, sei que aqui dentro não há tantas mulheres.
Milton me disse uma vez que dentre todos os engenheiros diurnos,
só há uma delas, a melhor entre todos. E estou a uns passos dela
agora. O mais interessante de tudo é que sua nuca, a cor dos seus
cabelos e sua pele clara não me são estranhos.
Eu posso estar ficando louco, já que pareço fantasiar
ultimamente. O passarinho que me perturba é anônimo, portanto
minha cabeça tenta, a todo custo, moldar uma pessoa física para ele.
Mas devo confessar que, em algum momento, já vi tais
características.
Tudo está começando a ficar estranho, pois ela parece
perceber que eu a encaro; toca na nuca com desconforto. Um de
seus colegas me olha com estranheza.
Quando percebo o quão ridículo estou demonstrando ser,
afasto-me, indo de encontro aos dois homens que passeiam pelo
setor de monitoramento.
Pego o meu celular e digito uma mensagem à mulher que está
me deixando louco.
"Você é culpada por estar me deixando louco, passarinho.
Passei a manhã toda andando pela empresa e foi impossível não a
procurar em cada canto. Deve, pelo menos, dizer para mim em qual
setor trabalha, só para me libertar dessa loucura."
É obvio que ela não me dirá, mas, mesmo assim, pedi. O mais
interessante é ouvir o som de uma notificação chegar em um celular
de dentro da sala. É um barulho sutil e breve que esquenta meus
miolos.
Acho que estou ficando louco.
- Devo confessar que não entendi muito bem o que disse,
mas me passou muita segurança. - falou Phil, trazendo-me de volta
à realidade.
A verdade é que a história com a estranha está me deixando
tão fora de mim, que me irrita. Assim, decido que o melhor para a
minha sanidade mental é esquecê-la. Nunca nos encontraremos e
ela continuará brincando com minha cabeça. Já estou cheio.
- Podemos terminar o nosso tour agora. Estou convencido
de que a melhor coisa a se fazer é contratar os serviços daqui.
Confirmo com a cabeça. Preciso voltar ao meu trabalho, às
reuniões intermináveis e à minha breve paz. A última opção sei que
não durará, pois são muitas as questões que me levam ao estresse;
e a tal desconhecida está se tornando uma delas.
Ao passar novamente pela mulher em frente ao computador,
que parece concentrada na tela, sinto outra vez aquela sensação de
semelhança.
- Isso já está indo longe demais. - falei a mim mesmo,
condenando-me.
***
A reunião foi mais do que chata, foi quase insuportável. Já
estive em muitos lugares onde o assunto me desse muito sono ou
onde o palestrante que estava me passando a sua ideia, não
parecesse bom no que fazia.
Mesmo dizendo que me esquecei da mulher, minha mente
idiota me trai. Na verdade, não para de pensar na funcionária que vi
mais cedo, na sala dos computadores. Eu devia ter falado algo e,
pelo menos, visto o seu rosto.
Ao pegar o meu telefone, que havia deixado de lado, vejo uma
única mensagem. É da anônima.
"Acho que isso passou dos limites. Nós dois não podemos ser
amigos e você ainda insiste em me conhecer. E, mesmo eu sabendo
que não é tudo aquilo que os outros falam, ainda me sinto confiante
em apenas conversarmos por mensagens. Acredite: não sou nada
interessante. E você é meu patrão. Querendo ou não, é melhor que
as coisas continuem como estão: relação de chefe e funcionária. Foi
culpa minha começarmos, e até gosto de conversar com você, mas o
problema é que isso esteja atrapalhando o meu e o seu trabalho.
Então, creio que o melhor a fazermos é parar de escrever um para o
outro."
Tenho que reler a mensagem várias vezes para acreditar no
que está escrito. Não era para ser nada de mais, pois ela é uma
pessoa anônima com quem me esbarrei há alguns dias. Não sei
como vive ou quais são os seus princípios, portanto deveria levar
tudo na maior tranquilidade.
Como se, em um passe de mágica, eu fosse me esquecer de
tudo! E, olha que nem foi grande coisa.
Olho as horas e constato que já deveria estar saindo do
escritório. Mas, infelizmente, meu corpo demora a reagir e o silêncio
se torna estranho.
Uma nova mensagem chega em meu celular, que está sobre a
mesa, e corro para ver quem é o remetente. Decepciono-me por não
ser de quem eu esperava que fosse.
"Já faz um tempo que não nos vemos. Que tal aproveitarmos que
estou na cidade e conversarmos um pouco?"
Já estou farto de apenas conversar. Eloísa não é a pessoa
que eu escolheria para uma conversa. Minha intenção com ela é
outra.
Emma
O que está acontecendo comigo? Ian Novack sabe me deixar
louca.
Como se a amizade que dizemos ter, fosse algo tão
importante e vital para a minha vida!
Ele estava a poucos centímetros de mim, encarando minha
nuca, causando arrepios pelo meu corpo todo e outras reações
idiotas que desejei rejeitar a todo custo.
Meu chefe é charmoso, e ver suas fotos me deixa boba.
Eu senti que ele estava a poucos passos de mim e seu
perfume sutil me deixou de quatro, no chão. Mas não como foi na
última vez.
Ele está frustrado, assim como eu. Por isso decidi acabar de
vez com nossa brincadeira. Eu fui culpada por ter a começado, então
terminei com ela.
Saio atrasada do trabalho, já imaginando que perderei o metrô
para chegar cedo em casa. Assim que ponho os pés para fora do
prédio, Ian sai com uma expressão nada legal.
Meu coração quase salta pela boca e o desejo de ir até ele,
vem até mim.
Não é como se tivesse sido semanas ou meses de conversa,
mas o pouco que falamos um com outro foi suficiente para me abalar
por esse "término" idiota.
Faço todo o caminho até a estação, pensando no que ele fará,
se é por minha causa o seu mau humor e se, em algum momento,
nós nos esbarraremos outra vez ou ele insistirá em continuar
mantendo contato.
Depois do que que lhe enviei, não obtive respostas. Não
deveria estar desejando isso, mas mentiria se dissesse que não
estou.
***
Apesar de ter passado o dia todo sentada, meu corpo está
cansado, insistindo para entrar na banheira e ficar lá até o outro dia.
No entanto, Bia, como uma fiel e pontual amiga, bate em minha porta
com o maior sorriso do mundo e com uma empolgação fora do
comum.
Apesar de sermos vizinhas e de ela estar ao meu lado durante
todos os cincos anos em que moro em Nova York, ainda me
impressiono com a ideia de que somos amigas. Ela é linda e
confiante. Mas, também... Pudera! A mulher tem um metro e setenta
de altura, cabelos naturalmente ruivos, corpo esbelto e
autoconfiança. Tudo que falta em mim.
Claro... Eu não sou horrorosa, nem acredito em um conceito
ou tipologia. Minha magreza é um mistério, já que sempre como o
mais variado cardápio de gorduras, e meus cabelos são pretos, lisos,
naturais e bem tratados em casa. Só não gosto de sair para comprar
roupas. Algo que Bia não deixa de lado e sempre me passa na cara.
- Sabe, Emma? Você deveria me dar uma porcentagem do
seu salário. - Senta-se em meu sofá, esperando-me. - É uma das
pessoas mais inteligentes que conheço, se não for a mais, é bonita e
tem dinheiro para dar e vender. Sei quanto ganha um engenheiro na
sua área. Eu pesquisei.
- Quer dinheiro emprestado? Eu já te ofereci. Foi você quem
não...
- É brincadeira, sua ridícula. - Revira os olhos e deixa o
sorriso voltar, iluminando seu rosto cheio de sardas. - Na verdade,
estou meio que em um trabalho.
Paro o que estou fazendo para prestar atenção no que ela irá
dizer. Essa é mais do que uma novidade, é um milagre. Claro que
Bia é esforçada e tenta, de diversas formas, arrumar um dinheiro por
si só, porém devo admitir que não consegue, de jeito algum, deixar
para trás a boa vida de uma filha de magnata.
- Trabalho? - Levanto as sobrancelhas. - Você?
- Posso saber que surpresa é essa? - Questionou ofendida.
- Sempre trabalhei. Fui personal trainer em uma das lojas da
GUCCI e até para aquela mulher que dava dicas de moda.
- Você durou mais ou menos quanto tempo em cada uma
dessas atuações? - Perguntei, tirando sarro dela. - Bia, você
realmente se esforça para ficar no trabalho, mas sempre diz que
ficou chato depois de duas semanas.
- Não pode me culpar pela última vez. A mulher poderia
trabalhar na loja mais chique da cidade, mas as roupas... Meu deus!
Eram horrorosas. - Faz cara feia.
- O que é dessa vez? - Visto-me em frente ao espelho. Pelo
que conheço dela, contará uma longa história que durará todo o
percurso da corrida. - Contadora do seu pai? Porque sempre diz
que quer ser independente, só que não sai do apartamento que ele
te deu e não para de comprar no cartão ilimitado. Bia, você não... -
Ela joga uma das almofadas em mim. Nem esperava que fosse usar
tanta força. - Ok. Vou levar a sério.
- Uma das minhas antigas amigas da loja me levou a uma
agência. E lá, eu... - Viro-me para a olhar com desconfiança. Eu
bem sei quem é essa amiga, e imagino que não deve ser boa coisa.
- O que foi? Por que está me olhando como se fosse me dar uma
bronca?
- Que amiga foi essa? - Perguntei com calma,
aproximando-me dela.
- Sei que Victória não é a pessoa mais confiável, mas...
- "Confiável" não deveria estar na mesma frase que o nome
dessa mulher. - Falei entre os dentes. - Você se esqueceu que
quase foi presa porque ela colocou drogas na sua bolsa? Sem falar
da joia cara que fez todos pensarem que você roubou.
- Eu não me esqueci disso, mas a perdoei. Além do mais, fui
bem recebida e aceita, enquanto ela foi rejeitada. - Contou com
muita alegria. - Meu primeiro cliente é lindo de morrer e tenho que...
- Beatriz Alencar, do que está falando?
Preocupar-me com ela já faz parte do combo. Realmente, eu
a tenho como uma irmã e não quero vê-la metida com coisas
erradas. Seu pai até me liga para perguntar como ela está, já que a
garota insiste em não falar com ele, mesmo que ele o banque.
- É algo sério e seguro, Emma; nada demais. - Nem se
importa com minha cara feia, só sorri e se prepara para contar a
longa história. - Eu não estava confiante para falar a verdade e
tinha as minhas ressalvas, mas depois que a mulher me explicou
tudo, passei a dar credibilidade a esse trabalho. Funciona assim: eu
sempre vou estar disponível para sair com caras ricos para onde eles
quiserem me levar. - A forma calma e empolgada como ela falou
essa frase, assustou-me e me paralisou.
Eu já sabia que minha amiga era maluquinha, só que isso é
loucura, uma maluquice digna de Beatriz.
- Não me olhe com essa cara! Eu não vou ser prostituta,
apenas sair com eles como uma acompanhante.
- Vou ligar para o seu pai e pedir para que ele te interne. -
Estou furiosa. - Ficou louca? Esse é um modo de punir sua família
ou a mim?
- Nem ouse ligar para o meu pai! Se ligar, a nossa amizade
acaba agora. - Reclamou, levantando-se. - Eu estava empolgada
para te contar, mas devia ter adivinhado que alguém tão sem graça
como você, não entenderia a real situação.
- Real situação? - Debochei. - É loucura, Bia. Sair com
homens ricos por dinheiro? Eu já ouvi falar nisso. Está se iludindo se
pensa que vai ficar só na amizade.
- Está me ofendendo. - Afirmou brava.
- Desculpe! Mas, o que quer que eu pense quando fala que
será uma acompanhante? - Nós duas estamos alteradas.
Minha cabeça já ameaçava doer por conta de Ian; e agora,
com essa conversa com Bia, ela nem ameaça mais e parte logo para
o ataque.
- Quer saber? Não vou mais sair com você. Já me colocou
muita preocupação e está agindo como uma mimada sem juízo.
- Quer saber, Emma? Você está sendo tão sem juízo quanto
eu. - Provocou-me, levantando o nariz e vindo em minha direção.
- Mente para si mesma e acha que esconde sua insegurança em
relação aos homens, mas a sua recusa em se revelar para o homem
que gosta e com quem conversa é a prova disso. Sempre foi assim,
até mesmo com a nossa amizade, quando se recusava a aceitar ser
minha amiga.
Quando Bia fica com raiva, fala muitas besteiras, como agora.
Eu deveria estar acostumada com suas piadas e deboche, só que
ela acabou de tocar em uma ferida ainda aberta.
- Não é porque ele é seu chefe. Não é porque não gosta de
fazer compras, que se veste assim; é porque se vê desse modo e
gosta de não ser atraente ou chamativa, pois tem medo de ser usada
e traída, como foi no passado.
- Saia do meu apartamento e só volte quando deixar essa
loucura de lado! Caso contrário, nossa amizade acaba aqui. - Tento
reprimir a insegurança e a decepção que me tomaram depois do que
ela me disse. - Está sendo malvada porque odeia quando estou
contra você. Até tem razão em algumas coisas, mas, como minha
amiga, não deveria dizê-las. Eu não faria isso com você.
O arrependimento no seu rosto é evidente, contudo não mudo
de ideia. Saio da sua frente e vou até o banheiro. Estou muito
cansada para continuar brigando. Eu queria ajudá-la, pois,
claramente, seu novo "trabalho" não é confiável.
Logicamente, não posso julgar nada que não conheço, porém
sei quando algo vai dar errado. Muitas meninas já se envolveram
com essas coisas e nada terminou bem para elas, pois os homens
costumam achar que podem usar e abusar delas, prometendo-as
tudo só para, no fim, saírem vencedores.
Eu não sei se Ian é como essas pessoas, já que mal o
conheço e agora nem dá mais para conhecer. Tive que acabar com
essa loucura antes de sair magoada dela.
Ele estava louco para me ver, no entanto, assim que pusesse
seus olhos azuis sobre mim, ficaria decepcionado. Hoje foi um teste.
Quando se aproximou, ainda assim não pensou que a garota com
quem conversava, pudesse estar em um espaço escuro, olhando
para um computador e vestida como uma estranha.
Odeio me ver em vestidos chamativos e meu corpo não é lá
essas coisas, embora tenha partes interessantes nele; também
nunca sofri abusos, nem nada. No entanto, chamei a atenção de
uma pessoa errada que usou da minha inocência e curiosidade para
me colocar no meio de um furacão.
Minha mãe, como uma mulher religiosa, quando isso
aconteceu, disse que a culpa foi minha, por ser inconveniente,
perguntar demais, não ir à igreja, e muito mais. Usou esse
acontecimento para me punir e me fazer acreditar que o erro foi eu,
não outra pessoa. E, desde esse dia, ela me fez usar roupas que
cobrissem mais o corpo, o cabelo comprido, nunca blusas com
decote, jamais saltos... E muitas outras regras sem sentido.
Essas coisas não têm relação com o que aconteceu e eu não
devia ter feito o que ela queria, no entanto sempre fui submissa. E,
com o tempo acabei me acomodando e me acostumando com a
forma de vida com a qual comecei a lidar.
Eu vir para Nova York era para ter sido a minha liberdade,
mas ela arranjou um emprego aqui e continuou a me exigir modos e
vestimentas específicas. Aí teve um dia em que não suportei tanta
coisa e brigamos. Desde então, não nos falamos mais.
Bia sabe de toda essa história e sempre me apoiou, só que
agora a usou contra mim.
Não posso dizer que entrar na banheira quente me relaxou, já
que minha cabeça não para de pensar em Ian e no que escrevi para
ele. Como, em tão pouco tempo, apeguei-me tanto a alguém? Ainda
por cima, é o meu chefe arrogante.
No fim das contas, Beatriz está certa: sou tão solitária e
medrosa, que afasto as pessoas para não me decepcionar.
Conversar com Ian, apegar-me e depois descobrir que ele se
arrependeu por tudo, seria terrível. Além do mais, o passado ainda
me corrói.
Pensando bem, onde pararíamos com essa amizade louca?
Ian Novack é meu chefe, um homem bonito, importante e muito
arrogante. Não quero mais problemas para a minha vida chata. Não
mais do que os já tenho.
Fiquei tão distraída com meus pensamentos, que só me liguei
que ainda estou na banheira, quando notei meus dedos enrugarem.
Será mais uma noite em que ficarei até meia-noite na frente
do meu monitor, tentando melhorar o meu sistema de monitoramento
e rastreio de dados que estou inventando? Na verdade, preciso de
um servidor adequado para o seu desenvolvimento. Meu computador
não tem a capacidade ideal para criar algo desse tipo, mas o
protótipo já está esboçado, esperando apenas as finalizações
numéricas. Quando estiver pronto, meu sistema poderá ser
implementado por bancos de dados, como os da TEC Corporation.
Dentro dele, será monitorado tudo, desde início, quando os dados
são armazenados, ao fim, quando as informações são modificadas
ou retiradas. Eu o chamo de soldados, pois protege, vigia e vai atrás
das pistas caso algo dê errado, para que não se perca as
informações.
Depois de colocar meu pijama confortável e ficar em frente ao
computador no qual trabalho em casa, passo um bom tempo apenas
encarando o objeto em minha frente. Sei o que devo fazer, só não
estou tomando a iniciativa. Parece que os conflitos do dia
permanecem me impedindo de continuar.
Qual é, Emma? Você já fez isso antes. Um problema não é
tão maior quanto sua inteligência e determinação.
A minha automotivação não ajuda, porém, meu telefone toca
ao meu lado, fazendo meu coração quase sair pela boca.
Ele nunca me ligou. Ian nunca me ligou.
Talvez seja um sonho estranho em que minha noite está se
tornando um filme de suspense e drama esquisito.
Quase desmaio com a respiração frenética e o coração
batendo mais rápido do que um motor de carro. O pior é que meu
corpo simplesmente toma a iniciativa de pegar o celular e atender a
chamada quando ela está quase caindo.
Por alguns segundos, a linha fica muda e eu acho que pode
ter sido um engano dele ou que algo no seu sistema tenha,
simplesmente, ligado para o meu número. Contudo, logo ouço sua
voz grossa e rouca ao meu ouvido, fazendo os pelos do meu corpo
ficarem arrepiados.
- Eu sei que você disse que era melhor pararmos de
conversar, e eu mesmo cheguei à conclusão de que era o certo a se
fazer, mas não consegui parar de pensar em você, apesar de não te
conhecer.
Eu não digo e nem direi um "pio". Ouvi-lo dizer essas coisas
só aumentou a idiotice dentro de mim, pois o sorriso bobo logo
tomou conta do meu rosto.
- Sabe, passarinho? Nenhuma mulher no mundo conseguiu
chegar tão longe. Claro... eu amo a minha mãe e avó. Mas fora
essas duas, nenhuma outra me fez perder o juízo. Confesso que o
mistério aumenta mais o meu interesse e a vontade de falar com
você todos os dias. Quero saber onde está, o que faz ou até contá-la
sobre a reunião chata e a loucura que acabei de fazer. Dispensei a
mulher com quem eu teria uma noite fantástica de sexo. - Eu não
estava preparada para ouvir isso. Nem sei como reagir. - Enquanto
ela falava sobre tudo que aconteceu em Paris, eu só pensava em
você, nas suas ironias.