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img img Meu CEO img Capítulo 5 Perder o juízo
5 Capítulo
Capítulo 6 Raiva e carinho img
Capítulo 7 Real indentidade img
Capítulo 8 Sem pressa img
Capítulo 9 Quero que seja diferente img
Capítulo 10 Farei tudo img
Capítulo 11 Estou grávida img
Capítulo 12 O que deu em mim img
Capítulo 13 Me sinto protegida img
Capítulo 14 Fruto da minha imaginação img
Capítulo 15 Ofegante img
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Capítulo 5 Perder o juízo

- É muita tecnologia. - O homem está abismado com a sala

onde é armazenada milhares de combinações numéricas que

representam os dados de cada empresa para a qual trabalhamos. -

Nunca vi algo igual.

- Todos os anos essa ala cresce para acompanhar o número

de empresas com quem temos parcerias. - Observo atentamente o

senhor Phil, que se estica, tentando ver até onde vão os

equipamentos da sala. - Tudo é monitorado vinte e quatro horas por

dia e temos um sistema de climatização para que os servidores não

se danifiquem. Além do mais, nossos funcionários são capacitados

para resolver qualquer problema.

- E vocês cobrem qualquer prejuízo se isso acontecer? -

Levanta as sobrancelhas grossas ao me olhar.

- Claro. - Coloco um sorriso no rosto, sendo que não estou

nada feliz. - Sabemos como é importante manter tudo em ordem,

para que nada dê errado, Phil. As manutenções são constantes, e

não é só na sede que temos este extenso equipamento que está

vendo. - Eu o acompanho para fora do local, indo em direção à sala

onde os engenheiros e técnicos trabalham. - Em Los Angeles está

o que meu pai chama de "cérebro". É parecido com o que acabou de

ver, só que cinco vezes maior; e os servidores se comunicam entre

si, permitindo que saibamos de tudo em tempo real, tanto em Nova

York, quanto em Los Angeles.

Sua expressão de surpresa me alegra. Ele é tão difícil quanto

convencer um certo passarinho a me encontrar pessoalmente. Mas,

diferentemente de como é com ela, vou conseguir fechar o negócio

com esse homem.

- Seu pai tinha razão. - chamou minha atenção. - Você é

bom nos negócios e um ótimo negociador.

- Nunca ouvi meu pai falar essas coisas sobre mim. -

Lembro-me da nossa última briga, antes de ele sair irritado do meu

apartamento e ir à festa que eu devia ter ido.

- Ele sempre reconheceu a sua capacidade. Mas, não pode

mentir, dizendo que não era um imprudente com as mulheres. As

notícias saíam sobre você nos noticiários de fofoca. - brincou.

- É. Eu não posso. - Sinto-me ainda mais culpado.

Entramos na sala onde todos trabalham para manter tudo em

ordem. Sem os engenheiros, não somos nada. Ainda não sei como

funciona essa parte, mas também não preciso. Eu cuido da

administração e deixo essa área para os que amam as coisas

confusas que estão nas telas dos computadores agora. O local não é

tão fechado e todos estão em seus lugares, com vários monitores,

fios, e com uma climatização especial. Eu nunca tinha entrado aqui.

Milton é o chefe desse setor, e é ele quem nos explicará tudo.

- Bem... É aqui onde tudo acontece, Phil. Este é Milton,

chefe do setor, e quem realmente sabe o que acontece nessa sala.

O homem baixinho, quase careca e de sorriso que vai de

orelha a orelha, cumprimenta o nosso visitante e logo começa a sua

palestra sobre todo o processo. Eu deveria prestar atenção nisso

também. Não porque iria me ajudar a convencer Phil a nos contratar,

e sim porque gostaria de saber mais sobre tudo, já que agora sou eu

quem administro a TEC Corporation. O problema é que passo o

tempo inteiro tentando achar alguém que não quer ser achada.

Poderia deixar isso de lado e respeitar o anonimato dela, porém é

impossível impedir os meus olhos de buscar por ela, mesmo não

sabendo como achá-la.

Está difícil parar de pensar nessa mulher ou na possibilidade

de estar sendo enganado e, na verdade, estar conversando com um

estranho que sente a necessidade de brincar comigo. Apesar da foto

que recebi do seu pulso, pode ser isso.

Milton e Phil estão andando pelo espaço em minha frente

enquanto eu nem escuto o que eles dizem. Até que uma coisa no

meio do caminho chama a minha atenção. Embora não tenha

inspecionado este lugar, sei que aqui dentro não há tantas mulheres.

Milton me disse uma vez que dentre todos os engenheiros diurnos,

só há uma delas, a melhor entre todos. E estou a uns passos dela

agora. O mais interessante de tudo é que sua nuca, a cor dos seus

cabelos e sua pele clara não me são estranhos.

Eu posso estar ficando louco, já que pareço fantasiar

ultimamente. O passarinho que me perturba é anônimo, portanto

minha cabeça tenta, a todo custo, moldar uma pessoa física para ele.

Mas devo confessar que, em algum momento, já vi tais

características.

Tudo está começando a ficar estranho, pois ela parece

perceber que eu a encaro; toca na nuca com desconforto. Um de

seus colegas me olha com estranheza.

Quando percebo o quão ridículo estou demonstrando ser,

afasto-me, indo de encontro aos dois homens que passeiam pelo

setor de monitoramento.

Pego o meu celular e digito uma mensagem à mulher que está

me deixando louco.

"Você é culpada por estar me deixando louco, passarinho.

Passei a manhã toda andando pela empresa e foi impossível não a

procurar em cada canto. Deve, pelo menos, dizer para mim em qual

setor trabalha, só para me libertar dessa loucura."

É obvio que ela não me dirá, mas, mesmo assim, pedi. O mais

interessante é ouvir o som de uma notificação chegar em um celular

de dentro da sala. É um barulho sutil e breve que esquenta meus

miolos.

Acho que estou ficando louco.

- Devo confessar que não entendi muito bem o que disse,

mas me passou muita segurança. - falou Phil, trazendo-me de volta

à realidade.

A verdade é que a história com a estranha está me deixando

tão fora de mim, que me irrita. Assim, decido que o melhor para a

minha sanidade mental é esquecê-la. Nunca nos encontraremos e

ela continuará brincando com minha cabeça. Já estou cheio.

- Podemos terminar o nosso tour agora. Estou convencido

de que a melhor coisa a se fazer é contratar os serviços daqui.

Confirmo com a cabeça. Preciso voltar ao meu trabalho, às

reuniões intermináveis e à minha breve paz. A última opção sei que

não durará, pois são muitas as questões que me levam ao estresse;

e a tal desconhecida está se tornando uma delas.

Ao passar novamente pela mulher em frente ao computador,

que parece concentrada na tela, sinto outra vez aquela sensação de

semelhança.

- Isso já está indo longe demais. - falei a mim mesmo,

condenando-me.

***

A reunião foi mais do que chata, foi quase insuportável. Já

estive em muitos lugares onde o assunto me desse muito sono ou

onde o palestrante que estava me passando a sua ideia, não

parecesse bom no que fazia.

Mesmo dizendo que me esquecei da mulher, minha mente

idiota me trai. Na verdade, não para de pensar na funcionária que vi

mais cedo, na sala dos computadores. Eu devia ter falado algo e,

pelo menos, visto o seu rosto.

Ao pegar o meu telefone, que havia deixado de lado, vejo uma

única mensagem. É da anônima.

"Acho que isso passou dos limites. Nós dois não podemos ser

amigos e você ainda insiste em me conhecer. E, mesmo eu sabendo

que não é tudo aquilo que os outros falam, ainda me sinto confiante

em apenas conversarmos por mensagens. Acredite: não sou nada

interessante. E você é meu patrão. Querendo ou não, é melhor que

as coisas continuem como estão: relação de chefe e funcionária. Foi

culpa minha começarmos, e até gosto de conversar com você, mas o

problema é que isso esteja atrapalhando o meu e o seu trabalho.

Então, creio que o melhor a fazermos é parar de escrever um para o

outro."

Tenho que reler a mensagem várias vezes para acreditar no

que está escrito. Não era para ser nada de mais, pois ela é uma

pessoa anônima com quem me esbarrei há alguns dias. Não sei

como vive ou quais são os seus princípios, portanto deveria levar

tudo na maior tranquilidade.

Como se, em um passe de mágica, eu fosse me esquecer de

tudo! E, olha que nem foi grande coisa.

Olho as horas e constato que já deveria estar saindo do

escritório. Mas, infelizmente, meu corpo demora a reagir e o silêncio

se torna estranho.

Uma nova mensagem chega em meu celular, que está sobre a

mesa, e corro para ver quem é o remetente. Decepciono-me por não

ser de quem eu esperava que fosse.

"Já faz um tempo que não nos vemos. Que tal aproveitarmos que

estou na cidade e conversarmos um pouco?"

Já estou farto de apenas conversar. Eloísa não é a pessoa

que eu escolheria para uma conversa. Minha intenção com ela é

outra.

Emma

O que está acontecendo comigo? Ian Novack sabe me deixar

louca.

Como se a amizade que dizemos ter, fosse algo tão

importante e vital para a minha vida!

Ele estava a poucos centímetros de mim, encarando minha

nuca, causando arrepios pelo meu corpo todo e outras reações

idiotas que desejei rejeitar a todo custo.

Meu chefe é charmoso, e ver suas fotos me deixa boba.

Eu senti que ele estava a poucos passos de mim e seu

perfume sutil me deixou de quatro, no chão. Mas não como foi na

última vez.

Ele está frustrado, assim como eu. Por isso decidi acabar de

vez com nossa brincadeira. Eu fui culpada por ter a começado, então

terminei com ela.

Saio atrasada do trabalho, já imaginando que perderei o metrô

para chegar cedo em casa. Assim que ponho os pés para fora do

prédio, Ian sai com uma expressão nada legal.

Meu coração quase salta pela boca e o desejo de ir até ele,

vem até mim.

Não é como se tivesse sido semanas ou meses de conversa,

mas o pouco que falamos um com outro foi suficiente para me abalar

por esse "término" idiota.

Faço todo o caminho até a estação, pensando no que ele fará,

se é por minha causa o seu mau humor e se, em algum momento,

nós nos esbarraremos outra vez ou ele insistirá em continuar

mantendo contato.

Depois do que que lhe enviei, não obtive respostas. Não

deveria estar desejando isso, mas mentiria se dissesse que não

estou.

***

Apesar de ter passado o dia todo sentada, meu corpo está

cansado, insistindo para entrar na banheira e ficar lá até o outro dia.

No entanto, Bia, como uma fiel e pontual amiga, bate em minha porta

com o maior sorriso do mundo e com uma empolgação fora do

comum.

Apesar de sermos vizinhas e de ela estar ao meu lado durante

todos os cincos anos em que moro em Nova York, ainda me

impressiono com a ideia de que somos amigas. Ela é linda e

confiante. Mas, também... Pudera! A mulher tem um metro e setenta

de altura, cabelos naturalmente ruivos, corpo esbelto e

autoconfiança. Tudo que falta em mim.

Claro... Eu não sou horrorosa, nem acredito em um conceito

ou tipologia. Minha magreza é um mistério, já que sempre como o

mais variado cardápio de gorduras, e meus cabelos são pretos, lisos,

naturais e bem tratados em casa. Só não gosto de sair para comprar

roupas. Algo que Bia não deixa de lado e sempre me passa na cara.

- Sabe, Emma? Você deveria me dar uma porcentagem do

seu salário. - Senta-se em meu sofá, esperando-me. - É uma das

pessoas mais inteligentes que conheço, se não for a mais, é bonita e

tem dinheiro para dar e vender. Sei quanto ganha um engenheiro na

sua área. Eu pesquisei.

- Quer dinheiro emprestado? Eu já te ofereci. Foi você quem

não...

- É brincadeira, sua ridícula. - Revira os olhos e deixa o

sorriso voltar, iluminando seu rosto cheio de sardas. - Na verdade,

estou meio que em um trabalho.

Paro o que estou fazendo para prestar atenção no que ela irá

dizer. Essa é mais do que uma novidade, é um milagre. Claro que

Bia é esforçada e tenta, de diversas formas, arrumar um dinheiro por

si só, porém devo admitir que não consegue, de jeito algum, deixar

para trás a boa vida de uma filha de magnata.

- Trabalho? - Levanto as sobrancelhas. - Você?

- Posso saber que surpresa é essa? - Questionou ofendida.

- Sempre trabalhei. Fui personal trainer em uma das lojas da

GUCCI e até para aquela mulher que dava dicas de moda.

- Você durou mais ou menos quanto tempo em cada uma

dessas atuações? - Perguntei, tirando sarro dela. - Bia, você

realmente se esforça para ficar no trabalho, mas sempre diz que

ficou chato depois de duas semanas.

- Não pode me culpar pela última vez. A mulher poderia

trabalhar na loja mais chique da cidade, mas as roupas... Meu deus!

Eram horrorosas. - Faz cara feia.

- O que é dessa vez? - Visto-me em frente ao espelho. Pelo

que conheço dela, contará uma longa história que durará todo o

percurso da corrida. - Contadora do seu pai? Porque sempre diz

que quer ser independente, só que não sai do apartamento que ele

te deu e não para de comprar no cartão ilimitado. Bia, você não... -

Ela joga uma das almofadas em mim. Nem esperava que fosse usar

tanta força. - Ok. Vou levar a sério.

- Uma das minhas antigas amigas da loja me levou a uma

agência. E lá, eu... - Viro-me para a olhar com desconfiança. Eu

bem sei quem é essa amiga, e imagino que não deve ser boa coisa.

- O que foi? Por que está me olhando como se fosse me dar uma

bronca?

- Que amiga foi essa? - Perguntei com calma,

aproximando-me dela.

- Sei que Victória não é a pessoa mais confiável, mas...

- "Confiável" não deveria estar na mesma frase que o nome

dessa mulher. - Falei entre os dentes. - Você se esqueceu que

quase foi presa porque ela colocou drogas na sua bolsa? Sem falar

da joia cara que fez todos pensarem que você roubou.

- Eu não me esqueci disso, mas a perdoei. Além do mais, fui

bem recebida e aceita, enquanto ela foi rejeitada. - Contou com

muita alegria. - Meu primeiro cliente é lindo de morrer e tenho que...

- Beatriz Alencar, do que está falando?

Preocupar-me com ela já faz parte do combo. Realmente, eu

a tenho como uma irmã e não quero vê-la metida com coisas

erradas. Seu pai até me liga para perguntar como ela está, já que a

garota insiste em não falar com ele, mesmo que ele o banque.

- É algo sério e seguro, Emma; nada demais. - Nem se

importa com minha cara feia, só sorri e se prepara para contar a

longa história. - Eu não estava confiante para falar a verdade e

tinha as minhas ressalvas, mas depois que a mulher me explicou

tudo, passei a dar credibilidade a esse trabalho. Funciona assim: eu

sempre vou estar disponível para sair com caras ricos para onde eles

quiserem me levar. - A forma calma e empolgada como ela falou

essa frase, assustou-me e me paralisou.

Eu já sabia que minha amiga era maluquinha, só que isso é

loucura, uma maluquice digna de Beatriz.

- Não me olhe com essa cara! Eu não vou ser prostituta,

apenas sair com eles como uma acompanhante.

- Vou ligar para o seu pai e pedir para que ele te interne. -

Estou furiosa. - Ficou louca? Esse é um modo de punir sua família

ou a mim?

- Nem ouse ligar para o meu pai! Se ligar, a nossa amizade

acaba agora. - Reclamou, levantando-se. - Eu estava empolgada

para te contar, mas devia ter adivinhado que alguém tão sem graça

como você, não entenderia a real situação.

- Real situação? - Debochei. - É loucura, Bia. Sair com

homens ricos por dinheiro? Eu já ouvi falar nisso. Está se iludindo se

pensa que vai ficar só na amizade.

- Está me ofendendo. - Afirmou brava.

- Desculpe! Mas, o que quer que eu pense quando fala que

será uma acompanhante? - Nós duas estamos alteradas.

Minha cabeça já ameaçava doer por conta de Ian; e agora,

com essa conversa com Bia, ela nem ameaça mais e parte logo para

o ataque.

- Quer saber? Não vou mais sair com você. Já me colocou

muita preocupação e está agindo como uma mimada sem juízo.

- Quer saber, Emma? Você está sendo tão sem juízo quanto

eu. - Provocou-me, levantando o nariz e vindo em minha direção.

- Mente para si mesma e acha que esconde sua insegurança em

relação aos homens, mas a sua recusa em se revelar para o homem

que gosta e com quem conversa é a prova disso. Sempre foi assim,

até mesmo com a nossa amizade, quando se recusava a aceitar ser

minha amiga.

Quando Bia fica com raiva, fala muitas besteiras, como agora.

Eu deveria estar acostumada com suas piadas e deboche, só que

ela acabou de tocar em uma ferida ainda aberta.

- Não é porque ele é seu chefe. Não é porque não gosta de

fazer compras, que se veste assim; é porque se vê desse modo e

gosta de não ser atraente ou chamativa, pois tem medo de ser usada

e traída, como foi no passado.

- Saia do meu apartamento e só volte quando deixar essa

loucura de lado! Caso contrário, nossa amizade acaba aqui. - Tento

reprimir a insegurança e a decepção que me tomaram depois do que

ela me disse. - Está sendo malvada porque odeia quando estou

contra você. Até tem razão em algumas coisas, mas, como minha

amiga, não deveria dizê-las. Eu não faria isso com você.

O arrependimento no seu rosto é evidente, contudo não mudo

de ideia. Saio da sua frente e vou até o banheiro. Estou muito

cansada para continuar brigando. Eu queria ajudá-la, pois,

claramente, seu novo "trabalho" não é confiável.

Logicamente, não posso julgar nada que não conheço, porém

sei quando algo vai dar errado. Muitas meninas já se envolveram

com essas coisas e nada terminou bem para elas, pois os homens

costumam achar que podem usar e abusar delas, prometendo-as

tudo só para, no fim, saírem vencedores.

Eu não sei se Ian é como essas pessoas, já que mal o

conheço e agora nem dá mais para conhecer. Tive que acabar com

essa loucura antes de sair magoada dela.

Ele estava louco para me ver, no entanto, assim que pusesse

seus olhos azuis sobre mim, ficaria decepcionado. Hoje foi um teste.

Quando se aproximou, ainda assim não pensou que a garota com

quem conversava, pudesse estar em um espaço escuro, olhando

para um computador e vestida como uma estranha.

Odeio me ver em vestidos chamativos e meu corpo não é lá

essas coisas, embora tenha partes interessantes nele; também

nunca sofri abusos, nem nada. No entanto, chamei a atenção de

uma pessoa errada que usou da minha inocência e curiosidade para

me colocar no meio de um furacão.

Minha mãe, como uma mulher religiosa, quando isso

aconteceu, disse que a culpa foi minha, por ser inconveniente,

perguntar demais, não ir à igreja, e muito mais. Usou esse

acontecimento para me punir e me fazer acreditar que o erro foi eu,

não outra pessoa. E, desde esse dia, ela me fez usar roupas que

cobrissem mais o corpo, o cabelo comprido, nunca blusas com

decote, jamais saltos... E muitas outras regras sem sentido.

Essas coisas não têm relação com o que aconteceu e eu não

devia ter feito o que ela queria, no entanto sempre fui submissa. E,

com o tempo acabei me acomodando e me acostumando com a

forma de vida com a qual comecei a lidar.

Eu vir para Nova York era para ter sido a minha liberdade,

mas ela arranjou um emprego aqui e continuou a me exigir modos e

vestimentas específicas. Aí teve um dia em que não suportei tanta

coisa e brigamos. Desde então, não nos falamos mais.

Bia sabe de toda essa história e sempre me apoiou, só que

agora a usou contra mim.

Não posso dizer que entrar na banheira quente me relaxou, já

que minha cabeça não para de pensar em Ian e no que escrevi para

ele. Como, em tão pouco tempo, apeguei-me tanto a alguém? Ainda

por cima, é o meu chefe arrogante.

No fim das contas, Beatriz está certa: sou tão solitária e

medrosa, que afasto as pessoas para não me decepcionar.

Conversar com Ian, apegar-me e depois descobrir que ele se

arrependeu por tudo, seria terrível. Além do mais, o passado ainda

me corrói.

Pensando bem, onde pararíamos com essa amizade louca?

Ian Novack é meu chefe, um homem bonito, importante e muito

arrogante. Não quero mais problemas para a minha vida chata. Não

mais do que os já tenho.

Fiquei tão distraída com meus pensamentos, que só me liguei

que ainda estou na banheira, quando notei meus dedos enrugarem.

Será mais uma noite em que ficarei até meia-noite na frente

do meu monitor, tentando melhorar o meu sistema de monitoramento

e rastreio de dados que estou inventando? Na verdade, preciso de

um servidor adequado para o seu desenvolvimento. Meu computador

não tem a capacidade ideal para criar algo desse tipo, mas o

protótipo já está esboçado, esperando apenas as finalizações

numéricas. Quando estiver pronto, meu sistema poderá ser

implementado por bancos de dados, como os da TEC Corporation.

Dentro dele, será monitorado tudo, desde início, quando os dados

são armazenados, ao fim, quando as informações são modificadas

ou retiradas. Eu o chamo de soldados, pois protege, vigia e vai atrás

das pistas caso algo dê errado, para que não se perca as

informações.

Depois de colocar meu pijama confortável e ficar em frente ao

computador no qual trabalho em casa, passo um bom tempo apenas

encarando o objeto em minha frente. Sei o que devo fazer, só não

estou tomando a iniciativa. Parece que os conflitos do dia

permanecem me impedindo de continuar.

Qual é, Emma? Você já fez isso antes. Um problema não é

tão maior quanto sua inteligência e determinação.

A minha automotivação não ajuda, porém, meu telefone toca

ao meu lado, fazendo meu coração quase sair pela boca.

Ele nunca me ligou. Ian nunca me ligou.

Talvez seja um sonho estranho em que minha noite está se

tornando um filme de suspense e drama esquisito.

Quase desmaio com a respiração frenética e o coração

batendo mais rápido do que um motor de carro. O pior é que meu

corpo simplesmente toma a iniciativa de pegar o celular e atender a

chamada quando ela está quase caindo.

Por alguns segundos, a linha fica muda e eu acho que pode

ter sido um engano dele ou que algo no seu sistema tenha,

simplesmente, ligado para o meu número. Contudo, logo ouço sua

voz grossa e rouca ao meu ouvido, fazendo os pelos do meu corpo

ficarem arrepiados.

- Eu sei que você disse que era melhor pararmos de

conversar, e eu mesmo cheguei à conclusão de que era o certo a se

fazer, mas não consegui parar de pensar em você, apesar de não te

conhecer.

Eu não digo e nem direi um "pio". Ouvi-lo dizer essas coisas

só aumentou a idiotice dentro de mim, pois o sorriso bobo logo

tomou conta do meu rosto.

- Sabe, passarinho? Nenhuma mulher no mundo conseguiu

chegar tão longe. Claro... eu amo a minha mãe e avó. Mas fora

essas duas, nenhuma outra me fez perder o juízo. Confesso que o

mistério aumenta mais o meu interesse e a vontade de falar com

você todos os dias. Quero saber onde está, o que faz ou até contá-la

sobre a reunião chata e a loucura que acabei de fazer. Dispensei a

mulher com quem eu teria uma noite fantástica de sexo. - Eu não

estava preparada para ouvir isso. Nem sei como reagir. - Enquanto

ela falava sobre tudo que aconteceu em Paris, eu só pensava em

você, nas suas ironias.

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