Sou Enzo Lins, tenho 25 anos e sou dono do Morro do Chapadão. Preservo esse lugar como se fosse minha vida desde os 16 anos de idade, eu só tenho minha irmã Eliza e ela é minha única família. Meus pais? Quero bem longe de mim e da minha irmã, eles são os fantasmas do meu passado e o motivo de eu ter vindo parar aqui nesse lugar, em partes eu agradeço, conheci amigos de verdade e pelo meu esforço, pude garantir a segurança do morro como dono, outras o julgo por ter largado eu e minha irmã na rua sem ter pra onde correr. Tive que me virar da pior forma.
Tenho meus amigos, Lucca mais conhecido como Pitbull e Leon mais conhecido como LN, cada apelido tem um significado importante pra nós, eles são meus fechamentos e os únicos que eu mais confio nessa porra toda, se algum dia acontecer algo comigo, sei que tenho eles pra me fortalecer, eles somam e eu devo muito a cada um. Eles são sem duvidas os que eu mais confio aqui dentro, porque o bagulho é doido e pra roubar teu lugar, é o que mais tem.
Na Favela, algumas pessoas têm medo de mim, eu não sou carismático, não tenho motivos pra felicidade além de ver meu morro em paz e na segurança, sempre ajudo os moradores com alguma coisa, dinheiro pra mim não é problema. E quanto as minas? É tudo sem compromisso e cobrança. Seleciono muito bem as que eu fico, não me comprometo com ninguém e nem deixo elas acharam que tem moral sobre mim.
Uns me odeiam, outros acham que eu não tenho sentimentos, sou vazio, mas a verdade é que eu sou só flexível com quem merece. Sou sincero até demais, não gosto de muita proximidade e já deixo bem claro pra quem se aproxima com interesse, principalmente as piranhas daqui do morro que querem status de "fiel", coisa que nunca vai acontecer.
Saio da boca com meu turno terminado e avisto o Pitbull entrando, faço toque com ele, pego meu boné pendurado.
- Coé parceiro, chegou às caixas com drogas, só tem de separar qual é qual pra não criar confusão. Os armamentos de fora estão no quartinho, toma cuidado com esses viciados aí, vou pra casa que tô mortão. – Ele assente e eu meto o pé. Pego o alarme e destravo minha moto da BMW preta fosca, ponho a chave na ignição e arranco.
Eu moro quase no pico do morro, um pouco afastado das casas dos moradores, ela é enorme, a arquitetura dela quem fez foi minha irmã, ela e suas frescuras. Estaciono na garagem perto da piscina. Entro e vou direto no meu quarto que fica no 2º andar, tiro meu invicta do pulso e percebo que são 22:23, tiro a roupa e jogo no cesto, entro dentro do boxe e quase gemo quando sinto a água morna escorrendo pelo meu corpo. Que delícia!
Pego uma toalha de corpo, me seco e envolvo na minha cintura, puxo uma cueca boxe vermelha CK e uma calça moletom do guarda roupa, ao secar meu cabelo, escuto o celular tocando. Que inferno, não posso ficar em paz nem por 1h? Pego o celular e olho no visor a foto da Eliza, reviro os olhos, lá vem merda.
- O que é, caralho? – Digo irritado e a vejo rir do outro lado da linha.
- Irmão, vem me buscar? Por favorzinho. – Vaca. Sabe que falando desse jeito eu não resisto. Bufo.
- Manda o endereço por mensagem. – Desligo e ponho uma camisa qualquer, vou descalço mesmo, desço até a garagem e opto por ir com minha Range Rover, entro e sinto meu celular apitar. Abro o portão com o controle e meto o pé. Tem que ter uma razão muito boa pra Eliza me fazer sair essa hora de casa.
***
Entro numa rua deserta indicado pela placa e olho minha irmã e uma menina sentada.
- Porra, Eliza! Tá de sacanagem, cara? Me fez sair do morro, da minha deliciosa cama, meu dia folga pra vim te buscar das tuas farras? Toma juízo, menina! – Reclamo super puto ao ver ela entrando no carro junto da amiga que mais parecia um saco de batata com toda aquela roupa larga.
- Vai se foder, Bradock! Não me enche, quase nunca fala nada e quando fala é pra atazanar minha mente? Vai comer uma mulher! – Continuo com meu semblante sério.
- Me respeita que eu sou mais velho e não vou pensar 2x antes de meter uma bala na sua testa. Agora me conta, quem é essa múmia aí? Ela não fala? Não tem boca? – Olho pra menina quieta e ela me olha com uma careta, permaneço sério alterando o olhar entre o caminho de volta pro morro no sapatinho pra não topar com polícia e o espelho central.
- Ei. Como assim múmia? Por que está me chamando assim? – Quando ouço a voz dela, me arrepio todo, puta que pariu! Que voz é essa? Voz potente, de mulher madura. Permaneço focado na estrada de volta pra casa.
- Polegar, não provoca, ela tá sendo obrigada a ser freira, morou 12 anos no convento e saiu de lá tem poucos dias, não sabe nada da vida. – Liz me olha feio e eu olho espantado. Como assim ela não sabe nada? Impossível. É um mulherão, com certeza já beijou na boca, já recebeu uma chupada...
- Impossivel ela não saber nada da vida, Liz. Ela pode ser ingênua, mas alguma coisa ela deve saber. Já beijou na boca, menina? – Não sei por qual motivo mas minha curiosidade foi maior que qualquer coisa nesse momento.
- Bom, eu nunca beijei como os meus pais se beijavam, com língua e tudo mais. Mas, quando eu fui embora para o convento, eu tive um amigo que me deu um beijinho na boca. Acho que só, nunca mais tive contato com nenhum garoto. Mas no Convento, diziam que abraçar, beijar, e fazer outras coisas que eu não sei, nos tornaríamos impuras. – Ouço tudo com atenção e olho de soslaio a tal menina. Ela é até bonita de rosto.
- Como assim impuras? Beijar, abraçar e sexo todo mundo faz! Todo mundo pode ter um namorado e se apaixonar. Faz parte da vida, somos um só, temos que aproveitar o máximo possível. Tira essas coisas da sua cabeça, se não você vai se tornar uma infeliz. – Liz diz revirando os olhos e eu concordo com a cabeça.
- Ah, ok. Eu também sempre quis ter uma família igual aos meus pais, quando fui pro Convento, sempre soube que tinha algo errado e que eu não nasci pra ser freira. – Presto atenção na conversa delas, tô parecendo um viadinho fofoqueiro.
- Isso aí, Lua! Vou te ensinar a fazer muitas coisas e logo mais vou trazer você pra morar comigo, se sua tia souber de nós, ela vai te trancar e não vai te deixar sair, então boca fechada. Vamos tomar cuidado. – Trazer pra morar na minha casa? A Liz pirou? Ela nem falou comigo ainda. Garota retardada.
***
Acordo com os raios de luz atingindo meu rosto, olho no relógio e 11:30 ainda. Levanto e vou pro banheiro, tomo um banho e saio com a toalha na cintura, pego uma cueca boxe branca e uma bermuda jeans escura, bagunço o cabelo com a toalha e desço pra comer algo, como de costume. Faço um sanduíche e tomo um susto com a garota gritando.
- Meu Deus! Minha tia vai me matar. Tem misericórdia de mim, Senhor! – Ela diz juntando as mãos e olhando pra cima. Coço a garganta e ela me olha assustada. – Oh... Des-desculpa. Bom dia. Ela me olha dos pés à cabeça e fica vermelha, aceno com a cabeça e saio da cozinha. Ela vem atrás de mim e me encara.
- Olha, perdão te incomodar mas eu gostaria de saber se voce pode me levar pra casa. Minha tia vai me bater muito. – Ela olha pra baixo e eu bufo. Eliza traz as amizades pra casa e depois quem se fode sou eu. Essa mina tá começando a me irritar.
- Cadê Eliza? Por que veio pra cá se não pode? Puta que pariu, ein! – Levanto e subo pra vestir uma camisa. Quando volto ela tá no mesmo local. – Vamos logo antes que eu meta o pé pra rua e te deixe aí. – Pego o carro e ela vai atrás.
- Você é bem bruto, parece ser pior que minha tia. – Ela diz e eu sorrio de lado.
- Você não viu nada. – Digo focado na direção da casa dela.
- E nem quero, obrigada. – Ela bufa.
Chego ao local, ela agradece e sai receosa. Dou meia volta e meto o pé pro meu morro. Essa menina é meio engraçada, gostei de implicar com ela, ela tenta se defender mas não encontra as palavras certas. Isso é bonitinho.
Repenso nos meus próprios pensamentos e puta merda, bonitinho, Polegar? To ficando maluco mesmo. Vira sujeito homem, porra.
Entro no morro e subo pra casa, estaciono o carro e quando subo a Eliza, Pitbull e LN estão na sala um olhando pra cara do outro.
- Bradock! Até que enfim! Você levou a Lua pra casa? – Ela pergunta meio receosa.
- Sim Eliza, ela tava desesperada por causa da tal tia lá. – Jogo a chave em cima da mesa. Pitbull e LN olham um pra cara do outro. – Ih, coé a de vocês dois?
- Nada, irmão. Mas dificilmente tu dá moral pra alguma mina e agora leva uma delas pra casa? – Ele pergunta com a testa enrugada e ri.
- Qualquer uma não, Lucca! Ela é diferente, ingênua, eu expliquei muita coisa pra ela sobre a vid.... – Interrompo.
- O que você fala pra ela ou não, não é problema meu, e na próxima vez que trazer alguma amiga sua aqui pra casa, faça o favor de estar presente pra aguentar, não sou babá de ninguém. – Aceno e sento do lado dos caras.
- Para de ser grosso, garoto! Olha, logo mais à Lua vem morar com a gente, então, respeito com ela, ela ainda é muito inocente, se você der em cima dela, eu corto suas bolas. Isso serve pro Pit e pro LN. – Ela fuzila nós 3 com o olhar.
- Da em cima daquele troço, feio? Tenho o morro inteiro pra botar pra sentar. – Digo convencido.
- Coé, Eliza! Para de ser marrenta e ciumenta. – Pitbull diz e ri.
- Ciumenta seu rabo! Ela é muito ingênua, Pit. Não sabe nem o que é sexo, não quero vocês dando em cima dela porque ela não é as puta de AIDS que vocês pegam. – LN olha de soslaio, ele é igual a mim, bem quieto.
- Liz, para de drama, cara – LN diz e puxa Liz pro seu colo, Pitbull olha de cara feia e eu acho graça – Vamos ser amigo da garota, pô! Quando ela vier, você apresenta.
- Coé, chefe. – Meu radio apita.
- Manda a visão, Relíquia.
- Tem um cara que vive aqui na boca que tá devendo, apelido dele aqui é Madruga, cobrei dele e ele disse que ia dar o dinheiro mais tarde e agora ele tá aqui na minha frente porque assaltou a mulher do beco 15. Faço o que com ele?
- Devolve o dinheiro da mulher que ele assaltou e fala que ele tem 3 semanas pra me dar o dinheiro, se até lá ele não pagar, ele vai ser expulso do Morro junto com a filha dele SE eu tiver
bonzinho como eu to hoje.
- Valeu, Chefe. – Guardo de volta na cintura.
- Bradock, não tô te reconhecendo. Levou a mina pra casa e agora livra a barra do drogado. Tu tá bem, mano? – LN falou e eu dei dedo do meio pra ele.
- To de bom humor, é diferente. Se vocês ficarem me tonteando, vou ficar puto e capar vocês 3 na porrada. – Os 3 dão risada e eu subo pro meu quarto.
Deito na cama e fecho os olhos. Tanta coisa pra pensar e os meus pensamentos vão parar naquela mina inocente que se infiltrou na minha casa do nada... Vai render.
***
- Luara Cavalcanti -
Mexo no celular e descubro muitas coisas interessantes, faço uma rede social chamada Instagram que tem muitas pessoas bonitas, muitos vídeos de maquiagem, muitas roupas bonitas, pessoas falando sobre dieta e musculação, sorrio divertida e vou pro tal WhatsApp que a
Liza falou, vejo as conversas, os contatos, tem o número dela, apenas, clico e abre pra uma página de conversa, clico para escrever algo e mando um "Oiiiiiii", rio e volto pro tal Instagram.
Procuro por "Eliza Lins" e o Instagram dela abre com muitas fotos bonitas. Mexo mais um pouco e descubro muita coisa legal. Por que essas pessoas podem sair, se vestir bem, enquanto eu tenho que vestir essa roupa e viver trancada dentro de casa? Bufo frustada e a Eliza me responde, trocamos algumas mensagens e quando da 22:00, eu bloqueio o telefone e ponho ele abaixo do meu travesseiro.
***
Acordei no outro dia com a expectativa de fugir dali, não aguentava mais aquele lugar, queria sair, queria conhecer novos lugares, novas pessoas, uma vida digna de liberdade. Manda mensagem pra Eliza;
"Esteja em frente à porta do meu quarto as 22:00 da noite igual ontem. Acho que vou aceitar sua hospedagem, não aguento mais ficar aqui. Posso?"
Levanto radiante, nem acredito que sairei dessa casa, minha tia está passando de todos os limite e depois que eu descobri o gostinho da liberdade não quero outra vida.
Vou pro banheiro e tomo um banho relaxante, o tempo hoje está frio portanto opto por um moletom cinza já que não tenho o guarda roupa da Liza, deixo os cabelos soltos e desço para a cozinha. Tia Helga não está por aqui, estranho! Ela anda saindo muito... Vou na cozinha e Lena não está aqui também, vasculho os armários e não encontro nada de interessante, abro a geladeira e pego um iogurte natural, subo para o meu quarto e tranco a porta, sento na minha cama e tem uma mensagem de Liza.
"Meu Deus! Não acredito! Claro que pode. Vou estar te esperando as 22:00, nada de atrasos, viu mocinha?! Vai morar comigo e eu não vou te soltar mais."
Rio. É bom saber que temos alguém pra contar.
"Pode deixar, amiga! Vou ficar com você e não vou voltar. Mas e seu irmão? Acho que ele não gosta de mim." – Respondo.
"Ele não gosta de ninguém, Lua, é um ogro! Acostuma, e não, ele não liga."
Mando carinha de beijinhos e termino de marcar o horário pra ela vir me buscar. Vago pelo Instagram, vejo roupas, maquiagens, tatuagens, e nossa! Futuramente quero tudo.
Levanto e pego a mochila que usei na saída do Convento, ponho minhas roupas íntimas, documentos, alguns casacos e moletons, apenas isso. Não tenho roupas bonitas, muito menos acessórios e maquiagens. Volto pra minha cama e passo a tarde conversando com a Liza, ela me conta mais algumas coisas sobre homens e mulheres, me conta sobre a violência que existe no Morro e como o irmão dela trabalha, a princípio julgo, mas depois ela me faz entender que apesar de tudo - e dela não aceitar -, é um trabalho que banca eles dois, ela diz que ele é humilde e que mesmo o trabalho sendo sujo, não tem como voltar atrás, o Polegar não quis e a única solução pra ela foi apoiar o irmão. Fico feliz com a irmandade deles, mesmo nunca recebendo tanto afeto até Eliza esbarrar comigo no mercado, ela abriu meus olhos e me deu outro visão do mundo, e a única coisa que eu tenho que fazer é agradecer por tê-la em minha vida.
Noto que já escureceu e desço ouvindo os berros da minha tia com alguém.
- Seu ordinário! Você apronta todas comigo, me leva para cama, e agora quer me dispensar? Quem você acha que eu sou? – Ela grita pro celular e eu tampo a boca com espanto. Meu Deus! E eu achando que minha tia era a santa das santas! Rio e continuo com o ouvindo rente ao vão da porta.
- Não interessa! Você me jurou amor eterno e agora eu quero que você vá para o quinto dos infernos. Fique com sua família, seu indigente. E por favor, esqueça que eu existo! – silêncio – Não, Sam! Acabou! Não existe explicação. Adeus. – Ela desliga e eu saio correndo para o meu quarto rindo. Então quer dizer que minha tia estava tento um caso com um homem casado? Mas que safadinha! Rio mais ainda com meu linguajar, Eliza está me levando pro mal caminho.
Encosto minha cabeça no travesseiro e durmo, apenas ouço o barulho de toc na janela de madeira do meu quarto. Abro um pouquinho e vejo Eliza linda como sempre. Coço meus olhos e bato palmas igual a ela, a mesma ri.
- Vamos logo antes que sua tia te prenda, menina. – Ela diz apreensiva olhando para os lados, parece uma fugitiva.
- Só um minuto! – Pego a mochila, o celular e carregador, meus documentos, olho em volta para conferir se não esqueci algo e pulo a janela.
Adios, titia!
Vou em direção ao carro da Eliza descalça já que não tenho chinelos e entro. Abraço ela de lado.
- Tá preparada pra mudar de vida? – Ela diz com as mãos posicionadas no volante e a postura ereta sentada no banco do motorista.
- Prontíssima! Lá vamos nós. – Sorrio muito feliz enquanto ela movimenta o carro.
***
Ao adentrar novamente a casa da Liza, perco o fôlego ao deparar com incríveis 3 deuses sentados na cadeira em frente à piscina bebendo algo. Saio do carro totalmente tímida com meus moletons tamanho GG, descalça e os cabelos todo para o alto, pego minha mochila na mala e Liza me puxa pelas mãos indo até os meninos. Ao vê-los mais de perto, prendo a respiração e dou um sorriso tímido.
- Meninos, essa é minha nova melhor amiga e a mais nova integrante dessa casa, Luara Cavalcanti. Lua, esses são Pitbull e LN.
O tal Pitbull é bem familiar, tatuagem por todo o braço, boné da "Bulls" com um touro nele, uma blusa preta gola V e uma bermuda jeans, ele levanta, segura meu queixo e olha no fundo dos meus olhos. Sinto um arrepio na minha espinha e continuo encarando e reconhecendo de algum lugar.
Ele me abraça forte e sussurra no meu ouvido um "Pequena".
Congelo.