Ayla olhava a expressão de Emir e tentava segurar o riso. Ela sabia que o homem imaginava um restaurante com comida de verdade e deveria estar horrorizado por almoçar fritas com hambúrguer e refrigerante.
-E então... senhor Emir, me conte o que aconteceu com você nesta manhã, além de quase ter me atropelado?
Emir tentava decifrar a expressão no olhar daquela garota. Com aquela confusão pela manhã, ele não tinha reparado no rosto dela direito. Mas, ela tinha um olhar de quem amava ser desafiada e mesmo sendo uma chantagista, aparentava ser bem mais adulta do que a idade que ela falou no caminho para o restaurante.
-Você faz faculdade de jornalismo ou psicologia? - Perguntou e ela riu ao ouvir a pergunta.
-Você é sempre tão chato assim? Quero dizer, desde o momento em que nos conhecemos, você foi rude, mal-educado e, sinceramente, sem ser engraçadinho que eu notei que não combina muito com você.
Emir ficou sem palavras. Para cada frase que ele falava, ela tinha uma resposta.
-Você é bem direta para alguém tão nova.
Ayla percebeu em poucos minutos que aquele homem estava passando por algum problema. Samia dizia que ela tinha um lado intuitivo, que percebia quando alguém estava triste e passando por problemas. A mãe imaginava que ela faria psicologia, mas acabou escolhendo o jornalismo. Mas aquele estranho sem educação, era agradável, tinha algo que nele que a intrigava.
-Idade não quer dizer nada. Tem tantas pessoas com idade maior que a minha e, até a sua, com zero maturidade.
A conversa foi interrompida pela chegada dos pedidos e Emir ficou surpreso com o tamanho do hambúrguer dela. Enquanto ele pediu um simples de frango a garota provavelmente pediu o maior que havia no cardápio.
-Você vai comer só esse sanduíche e esse suco sem gosto? - Ayla apontou para o suco verde que Emir tinha pedido.
-Não sei você, mas eu pretendo viver muito tempo ainda e isso significa comer comida saudável e evitar frituras e doces.
Os dois comeram em silêncio por um tempo, até que Ayla, que não conseguia ficar calada, perguntou novamente o que havia acontecido com Emir.
-Então, senhor Emir, pode me contar agora? Você já comeu e tenho certeza de que seu mau-humor deve ter diminuído uns 50%. Me fale o seu problema que vou te falar a minha alegria de hoje.
Emir notou a mudança no olhar dela. Seus olhos brilhavam ao falar sobre o seu primeiro dia na faculdade. Ele voltou uns bons anos atrás, quando aos 19 anos entrou na universidade, depois de ter servido o exército por alguns meses. A irmã era pequena e o pai estava se aposentando, quando Emir decidiu sair de casa em Mardin.
O pai, senhor Firat, era um bancário aposentado e a mãe Banu, uma dona de casa que vivia para os filhos e a família, Bahar tinha um pouco mais de 10 anos. O publicitário conseguiu uma vaga numa das faculdades, mais concorridas na época, trabalhava em três empregos e assim que se formou aos 23 anos, conseguiu uma vaga em uma agência de publicidade e propaganda e lá foi onde conheceu seu amigo e sócio, Kerem.
De volta ao presente, Emir prestava atenção em tudo, era como se estivesse hipnotizado por ela. Ayla contou que as amigas – que ele não conseguiu gravar os nomes - ficaram preocupadas com seu atraso e que Samia não queria deixá-la entrar no carro dele, por isso que entrou daquele jeito antes que a amiga a impedisse.
Depois de quinze minutos e de narrar o seu dia épico, percebeu que Emir ouvia tudo calado.
-Então, senhor Emir... Eu falei como foi meu primeiro dia e agora pode desabafar. Fala que eu te escuto. Saiba que posso até falar demais, mas eu também sei ser uma boa ouvinte.
Emir pensou em uma má resposta, mas a chantagista universitária acabou se saindo uma companhia mais agradável do que ele esperava.
-Depois de toda a sua empolgação, não sei se contar os meus problemas vai mudar algo. - Emir não se abriria tanto para uma garota com menos idade que a dele.
-Eu trabalho em uma agência de publicidade. Tive uma péssima manhã por conta de um projeto que nós assumiríamos, mas descobri depois que deixei sua pulseira no conserto, que o meu concorrente havia ficado com a campanha. Bom, é isso e fim. Não tenho tanta coisa assim para contar a você.
Ayla percebeu que ele escondia algo, que não tinha revelado tudo o que realmente sentia e ela, por não ter tanta intimidade assim, não seria inconveniente em perguntar.
-Então, senhorita Ayla, seus pais trabalham com o quê? - Emir perguntou da garota que respondeu sem perceber que ele a estava interrogando.
-Minha mãe é vendedora de seguros e meu pai é contador em uma empresa. - Só depois que respondeu, se lembrou da mentira que havia dito para que conseguisse uma carona.
-Não se preocupe, não vou falar nada e você continua sendo uma chantagista universitária para mim. Mas no final, a sua companhia foi até agradável. Pude esquecer mesmo que, por alguns minutos, os meus problemas e agora precisamos voltar e buscar sua pulseira. É tarde e eu preciso retomar para o trabalho e acredito que sua mãe deve estar preocupada com você.
A conversa com Emir foi tão boa que a menina esqueceu de tirar o celular do silencioso e quando lembrou de pegar na bolsa, encontrou 20 chamadas perdidas, metade da mãe e a outra metade da amiga. Nem queria olhar o grupo do Whats com medo de ler o que as amigas haviam enviado.
Ayla, onde você está? Sua mãe me ligou e eu inventei que você já tinha ido para casa, presta atenção no horário.
Samia deveria estar desesperada e Elçin não ficou atrás em passar um sermão para a amiga.
Garota, se você for sequestrada por algum mafioso que quer tirar algum órgão seu, eu juro que vou atrás de você onde quer que esteja. Presta atenção na encrenca que você está nos enfiando!
Elçin era a mais briguenta e barraqueira. Ayla apenas enviou um Emoji de carinha feliz, depois faria uma chamada de vídeo com as duas.
-Pela sua expressão, seus pais devem estar preocupados com você. Me espera aqui, eu vou pagar nosso almoço e vou te deixar na joalheira. Essa hora sua pulseira deve estar consertada.
A jovem precisava inventar alguma desculpa para a mãe que, provavelmente, a deixaria de castigo. A sorte da garota era que a mãe mesmo sendo vendedora e vivendo na era moderna, abominava redes socais e ninguém conseguia entender como ela, sem ao menos um WhatsApp vendia mais do que todas as vendedoras de seguro com metade da idade dela.
Emir retornou, chamou a jovem e juntos foram para o carro dele. O publicitário deu partida e em silêncio seguiram até a joalheira. Ao estacionar, Emir avisou que não iria descer, o conserto estava pago e ele precisava voltar ao trabalho.
-Tudo bem, você já fez muito por mim e obrigada pelo almoço, me desculpa pela mentira que te contei sobre meu pai. No final, se eu fosse tão honesta, você não teria a sorte de passar alguns minutos ao meu lado.
Emir sorriu do que ela disse e acabou concordando.
-Tudo bem, senhorita. No final de tudo, o nosso problema acabou me distraindo do que estou passando.
Emir pegou seu porta-cartão que ele havia deixado no porta-luvas e tirou de lá um cartão de visitas.
-Aqui é o meu cartão. Se precisar de algo sobre a faculdade e eu puder te ajudar, pode me ligar. Você é uma garota inteligente e pelo pouco que conversamos, eu tenho certeza de que vai ter um futuro brilhante pela frente.
Ayla pegou o cartão da mão dele e viu o nome dele escrito Emir Divit. Ela então percebeu que contou quase tudo sobre a sua vida e que ele mal tinha falado sobre o seu problema. Ela nem mesmo perguntou se ele era casado, solteiro ou a idade. Ele não aparentava ter mais do que 30 anos e com curiosidade perguntou:
-Antes de descer, quero te dizer que pode me chamar de Ayla. Eu não perguntei sua idade e nem seu estado civil. É que sabe como é né, você me deu seu cartão, mas vai que eu te ligo em um horário impróprio. E se minha mãe ousar sonhar que me encontrei com um homem comprometido, eu sou carne-morta.
-Não precisa se preocupar. Eu não sou casado, não tenho filhos e tenho 36 anos. Agora já respondi sua pequena entrevista e realmente preciso ir. Novamente obrigado pelos minutos da sua companhia e toma cuidado ao andar por aí ouvindo música nas alturas. Eu fui legal com você e acabei comprando sua chantagem, mas nem todos os homens podem ser como eu.
Ayla se despediu dando um beijo no rosto do publicitário novamente e avisou que iria ligar para ele não apenas para falar sobre a faculdade, mas para saber como ele estava.
Saiu do carro e Emir ficou esperando-a entrar na joalheria, deu partida no carro e seguiu para o trabalho.