Salvatore, permite-me falar?
Dimmi. "Diga-me", ele fala com seu jeito duro de ser.
Eu quero sua permissão para voltar a estudar.
Falo pausadamente e me preparo para uma retaliação por minha
ousadia em pedir algo. Desde que fui obrigada a viver com ele, nunca pedi
nada com medo da sua reação, mas estou farta de ser apenas expectadora da
minha própria vida. Preciso respirar, viver. Sei que não será nada fácil, o
cenário ao meu redor é completamente desfavorável a mim.
Salvatore termina de amarrar o cadarço do seu sapato. De pé, próxima à
cama, aguardo sua reação. Tento não demostrar medo nas minhas feições,
mesmo que por dentro meu corpo esteja tremendo. Não me permito mais
desabar na sua frente, muito menos agir como uma pobre coitada. Cinco anos
já foram o suficiente.
Ele se levanta e veste seu terno com os olhos fixos em mim.
Permaneço imparcial. Salvatore me analisa. Seus olhos não demostram
crueldade, e sim curiosidade. Ele deve estar estranhando eu ter sido corajosa
e lhe dirigido a palavra sem que ele ordenasse, ainda mais desafiando sua
autoridade em pedir algo que provavelmente ele nunca cogitou. Depois de
alguns longos minutos analisando-me, meu captor se aproxima de mim.
Preparo-me internamente para ser agredida; externamente, mantenho-me
compenetrada para não demostrar medo. Salvatore passa seus dedos
calejados em meu rosto.
Qual é o curso que você fazia antes de nos casarmos, Perla mia?
Direito respondo, fazendo o máximo para que minha voz não
saia trêmula. Ele se afasta alguns centímetros e continua observando-me.
Consentito.
Ouço sua permissão e custo a acreditar. Minha vontade é de sair
pulando de felicidade por minha primeira conquista pessoal desde que
cheguei nesta casa, nesta vida, mas sei que essa permissão não será de graça.
Vou escolher um soldado de confiança para te acompanhar, daqui a
dois dias você estará matriculada.
Assim que termina de falar, ele sai do quarto. Vou correndo para o
banheiro, tranco a porta. Pego minha toalha e abafo a boca nela para gritar.
Pulo de tanta felicidade pela minha primeira conquista. Apesar do receio que
possa dar errado, uma coisa tenho absoluta certeza: Salvatore Bazzoti não é
homem de voltar atrás em suas decisões.
Vou para a faculdade.
Hoje é meu primeiro dia de aula. Não dormi direito à noite, de tanta
ansiedade. Desde que pedi ao Salvatore para
estudar, ele está diferente comigo. São dois dias sem agressão de espécie
nenhuma, dois dias que ele não me violenta sexualmente. Continuo com a
minha rotina, cuido da casa e da minha filha, mas as coisas estão diferentes.
Ele está diferente comigo.
Salvatore designou Giovanni, o soldado que cuidava da Donna, para
ser minha sombra enquanto eu estiver na faculdade. Matriculou-me no turno
da tarde para que eu pudesse cuidar do almoço antes de me ausentar. Donna
chega em casa depois das cinco, mais ou menos o mesmo horário em que irei
sair da faculdade.
Entrar em uma sala de aula depois de tantos anos enche meu coração
de alegria. Sem armas, sem homens mal-encarados, sem tensão. Os únicos
momentos em que me sinto assim são quando estou com Donna. A inocência
da minha filha e sua alegria são as únicas coisas que conseguem me alegrar.
Buon pomeriggio. Uma morena linda me deseja boa tarde com as
mãos estendidas para mim. Mi chiamo Nina ela se apresenta.
Muito prazer, meu nome é Perla.
Americana? Balanço a cabeça confirmando. Morei três anos
na Califórnia, agora tenho uma amiga para praticar meu inglês ela diz e
sorri.
Fico nervosa quando ela diz "amiga", não sei se Salvatore permite
que eu tenha amizade com outra mulher que não seja as esposas dos seus
aliados. Faz tempo que não sei o que é conversar com alguém sem que sejam
palavras previamente ensaiadas.
Os dias vão passando. Faço dos prédios da faculdade um lugar só
meu, como se lá fosse um outro mundo, um mundo onde não existe
Salvatore, nem máfia. Um mundo somente meu, onde eu posso finalmente
respirar, sorrir sem medo e conversar como uma pessoa normal. Nina passou
a fazer parte deste mundo. Nos seus vinte e dois anos, um ano mais nova do
que eu, Nina irradia alegria. Em sua companhia, esqueço o que me aguarda
todos os dias quando atravesso os portões para fora da faculdade.
Meu comportamento diante do Salvatore mudou. Não sou mais uma
garota assustada, com medo do castigo. Se disser que não tenho mais medo
dele, estarei mentindo, apenas não demostro mais como fazia antes.
Todos os dias quando chego da faculdade, vou direto preparar o jantar.
Depois, tomo banho e fico um pouco com minha filha, até Salvatore chegar.
Jantamos juntos, arrumo a cozinha e peço permissão para, depois de colocar
Donna para dormir, ir para biblioteca que temos em casa, estudar. Tem sido
assim todos os dias.
Faz uma semana que iniciei as aulas e ontem, pela primeira vez,
Salvatore disse que colocaria Donna para dormir.
Vou para a biblioteca estudar, como de costume. Quarenta minutos,
depois ele surge na minha frente de banho tomado, apenas de short. Apesar
da idade, meu captor tem um corpo muito bonito. Fico tensa, mas não
demonstro. Esta é a primeira vez que ele age assim.
Um pensamento rápido vem à minha mente. Nunca me entreguei a ele
de boa vontade, Salvatore sempre foi agressivo e me forçava todas as vezes,
machucando-me. Mesmo o odiando, vou ser, pela primeira vez, sua mulher
de verdade. Vou me entregar ao seu toque, às suas investidas, como gratidão
por ele permitir que eu estude. Se para continuar indo às aulas eu precisar
fingir que gosto do seu corpo sobre o meu, assim será, nem que eu vomite
após ao ato.
Terminou, Perla mia?
Sim, meu marido. Posso ir para nosso quarto tomar banho?
Cheguei da faculdade fui direto fazer o jantar, e depois vim estudar.
Ele maneia a cabeça. Fecho meus cadernos e saio da biblioteca,
seguida por ele.
Alguma vez te dei banho, moglie?
Meu coração gela com essa pergunta. Nesses cinco anos de
casamento, é raro ele se referir a mim como "esposa", mais raro ainda me
fazer pergunta de uma forma que não seja agressiva. Fico nervosa ao
imaginá-lo me dando banho. Mesmo que ele já tenha usado e abusado do
meu corpo, me sinto exposta.
Não digo, sem demostrar meu nervosismo.
Então hoje será a nossa primeira vez diz com firmeza.
Salvatore me conduz até ao banheiro e enche a banheira. Fico em pé,
sem saber o que fazer. Apenas espero. Ele se aproxima de mim e me despe.
Sua respiração está forte; ele não
cheira a uísque e nem a charuto, o que é raro. Todas as vezes que ele
me tomou, seu hálito e seu corpo só cheiravam à bebida e fumo.
Caldo.
Ele me chama de gostosa assim que me vê nua, como se estivesse me
vendo pela primeira vez. O que não deixa de ser verdade, nossas transas
sempre foram à base da força, com pouca luz e, depois do ato, ele adormece.
Salvatore me ajuda a entrar na banheira, em seguida lava meu corpo
com uma delicadeza que eu não sabia que ele tinha. É inevitável tremer. Cada
parte do meu corpo reage onde suas mãos percorrem. Minha mente sempre
está preparada para o pior, mesmo quando parece que tudo está bem. Meu
captor me tira da banheira; sinto vergonha dos seus olhos sobre mim
enquanto ele me seca. Salvatore faz sinal para que eu vá para o quarto.
Observo seu volume empurrando o short. Ele está excitado. Eu me entregarei
sem resistência, meu objetivo é não ser mais estuprada.
Em silêncio, ordena que eu me deite sobre a cama. Obedeço-o
prontamente. Ele pega quatro algemas, prende meus braços e minhas pernas
na cama, que contém quatro pilastras de madeira. Fico desanimada, meu
plano de não ser estuprada está indo por água abaixo.
Molto caldo.
"Muito gostosa", diz, e se deita sobre mim. Pela primeira vez, enfia
sua língua na minha boca, beijando-me como eu acho que um homem deveria
beijar uma mulher. As únicas vezes que beijei foi na adolescência. Salvatore
nunca me beijou de verdade, de língua, esta é a primeira vez. Meu sentimento
é de asco por esse homem, mas tenho que ser forte e prosseguir. Minha
língua se envolve com a dele, imitando seus movimentos.
Tu sei mia moglie. Mia moglie.
"Você é minha esposa", ele repete. "Minha esposa". Salvatore está
longe de ser aquele homem que convivi durante todos esses anos.
Sua boca vai descendo por todo meu corpo. Age com sutileza, mas
não consigo sentir prazer. Gemo, finjo sentir prazer, quando o que eu mais
queria era que ele terminasse logo. São tantos anos representando que me
tornei uma bela atriz. Beija-me outra vez e me penetra. Não sinto dor,
aproveito seus cinco minutos de bondade e peço, sussurrando em seu ouvido,
que ele me solte. Vendo que estou entregue, ele pega as chaves no criadomudo e solta meus braços. Sai de dentro de mim e solta meus pés.
Quando ele volta a me penetrar, cruzo minhas pernas em suas costas,
seguro seus cabelos. Salvatore grunhe e aumenta a velocidade de suas
estocadas.
Caldo.
Finjo estar gozando, gemo alto e fico mole. Ele estoca fundo, urra e
goza, desabando sobre mim. Fica assim por alguns minutos, depois se deita
ao meu lado, sem me tocar. Não esperava nada diferente. De repente, ele se
levanta, vai até ao banheiro e bate a porta. Permanece lá por uns quinze
minutos. Quando sai, finjo estar dormindo. Sinto sua respiração sobre mim,
ele tira meus cabelos do meu rosto e depois se deita.
Quando ele se entrega ao sono, vou ao banheiro me lavar. Esfrego-me na
intenção de eliminar tudo que Salvatore deixou sobre meu corpo.
Em frente ao espelho, me pego sorrindo. Ainda vou dominar esse
homem, e, quando isso acontecer, vai ser a sua ruína.