Depois daquele encontro nada hostil em que a possível esposa dele me falou aqueles absurdos, nunca mais a vi - o que a meu ver é uma benção, a mulher é totalmente descontrolada - mas me preocupo que isso afete o relacionamento deles, já que Oliver parecia decidido a me acompanhar até que eu tivesse alta.
Acho que devo solicitar que se preciso de acompanhante, que seja Archie.
- Tudo bem? Você ficou quietinha do nada. - Archie perguntou.
- Sim, só estou pensando em quando finalmente vou ter alta, assim paro de atrapalhar a vida de todos vocês. - Fui honesta.
- Pare de pensar bobagens menina, não está atrapalhando em nada. - Ele retrucou
- Posso te fazer um pedido?
- Claro, o que deseja?
- Se for preciso que alguém fique aqui comigo o tempo todo, o que acho que não é necessário embora goste de companhia, você se importa de se candidatar no lugar de Oliver? - Questionei
Ele arregalou tanto os olhos, que pensei que fosse saltar das órbitas.
- O que foi? - perguntei preocupada.
- Por que você quer se livrar do Oliver? Ele só está preocupado com você. Talvez nem imagina que esteja te incomodando tanto.
- Não. - Gritei. - Não é nada disso, só não quero ser motivo de discórdia dele com a esposa.
Archie que levava nesse momento um copo de café aos lábios, se engasgou com a bebida. Começou a tossir muito tentando recuperar o fôlego, ficou tão vermelho que me preocupei.
- Esposa? De onde tirou isso Pandora? -Ele perguntou depois que retomou o ar.
- Ora, quando acordei a primeira vez, tinha uma mulher furiosa aqui. Me acusou de me jogar na frente do carro do homem dela deliberadamente. Não sou louca nem suicida. Por que faria uma coisa dessas?
- Pand... Posso te chamar assim? - Questionou. - Provavelmente quem você viu foi a Emily. Ela não é esposa do Oliver, muito pelo contrário, é uma ex-namorada maluca que não aceita o término e vive perseguindo-o.
Não pude segurar o choque.
Então aquela era a Emilly, a quem Oliver intitulou como a causadora do seu descuido ao volante no dia do acidente.
Mesmo que ele estivesse atento, eu não estava e entrei na frente do carro sem perceber.
- Mesmo assim, gostaria de evitá-la se possível e se ela sempre vai aonde ele está, não duvido que venha aqui de novo. Não gosto de pessoas arrogantes, ela nem me deu o direito de me desculpar por ter entrado na frente do carro sem perceber.
- Pequena, nunca, jamais, abaixe a cabeça na presença da Emilly. Aquela ali faz uma bruxa chorar de remorso, de tão má que é.
- Não preciso saber disso, não vou ficar na vida de dele tempo suficiente para vê-la de novo.
- Quanto a isso... - Archie foi interrompido pela entrada do médico no quarto, que nos olhou com um sorriso no rosto, que me trouxe uma calmaria instantânea. Aquele sorriso só podia significar que não tinha nada de errado com os meus exames e logo poderia ter alta. Deus queira.
- Senhorita Pandora, estou em posse dos seus exames e estou impressionado. Sua melhora foi significativa. - Ele começou. - Tão significativa, que estou considerando lhe dar alta, se for comprometida no repouso que deve fazer nessa primeira semana, sem muitas estripulias porque não pode bater a cabeça de jeito nenhum por pelo menos três meses, fora o acompanhamento comigo até que eu perceba que está realmente tudo ok. A partir da segunda semana, precisa começar o acompanhamento com a fisioterapeuta, para recuperar o movimento da mão esquerda que teve o punho fraturado. Pode fazer isso?
- Claro Dr. Alexander. Mas sinto muito em dizer que a fisio não vou conseguir. - Respondi envergonhada. Como explicar para aquelas pessoas, que obviamente tinham boas condições financeiras, que eu não podia esbanjar o pouco que tinha? Já era uma sorte estar nesse quarto de hospital por conta do Oliver, não podia admitir que a fisioterapia fosse paga por ele também.
- Por que não? - O médico estava realmente preocupado.
- Não tenho muitas economias atualmente, preciso de um emprego primeiro, antes de investir em uma fisioterapeuta.
- Deixe de bobagem Pand. Onde já se viu uma coisa dessa. - Archie entrou no assunto. - Como se a gente estivesse te cobrando algo, saiba que a fisioterapia está incluída em tudo o que foi feito até agora, faz parte da sua recuperação. Você só precisa vir até o hospital.
- Mas...
- Sem essa de "mas". - Retrucou emburrado e eu segurei um sorriso. O doutor pigarreou chamando nossa atenção de volta.
- Esse empasse resolvido, vou assinar sua alta. Tem alguém para vir buscá-la? Ou pode passar o endereço ao Archie e ele te leva até sua casa.
Fiquei muda.
Com todo esse transtorno de ter sido atropelada, esqueci de ver o airbnb. Não tinha para onde ir agora.
Droga.
- Vou levá-la para minha casa. - Oliver respondeu, entrando no quarto de supetão e pegando a todos de surpresa.
- Porra Oliver, não falei para ir para casa descansar? - Archie brigou com o amigo.
- E eu fui. Comi, tomei banho e me senti revigorado, por isso voltei. - O cabeça dura respondeu. - Fiquei muito feliz em saber da alta dela Pai, pode ter certeza de que ela vai seguir certinho tudo o que disse.
- Pai? - Questionei
- Sim, sou pai desse teimoso aqui. - Dr. Alexander respondeu com um sorriso. - Bom, se ela vai para a casa de vocês, fico mais tranquilo quanto a sua recuperação. Qualquer coisa, podem me ligar e em uma emergência, corram com ela até aqui. - O doutor orientou antes de sair do quarto.
Me virei para os dois espertinhos que me olhavam, acreditando mesmo que eu ia com eles.
- Quem disse que vou para sua casa?
- Ora Pand, não seja assim. Não vamos te fazer mal e lá você terá conforto enquanto se recupera, depois pode ir para onde o vento te levar. - Archie brincou.
- Pand? - Oliver questionou
- Claro, já somos amigos... Né Pand? - Archie riu.
Não aguentei e ri junto.
Ele era uma figura.
- Ok, concordo com isso. Mas é somente até minha perna melhorar e tirar esse gesso, entenderam?
- Sim, senhora. - responderam em uníssono.
***
Depois de assinar toda documentação da minha alta, finalmente deixei o hospital na companhia dos dois amigos mais improváveis que acabei fazendo.
Me sentia bem na presença deles, na realidade, me sentia bem desde que cheguei em Londres, mesmo com tudo o que se passou. Me senti adulta pela primeira vez na vida, eu que tomei decisões, ninguém mandou em mim, pelo contrário, me deram opções sem me forçar.
Estava finalmente livre.
Londres é deslumbrante a noite, parecendo uma cidade de natal com todos essas luzes, deixando um ar tão familiar e ao mesmo tempo, cena de filme. É de tirar o fôlego. Conforme seguíamos, fiquei o tempo todo colada no vidro tentando absorver o máximo daquela experiência que começou de um jeito um tanto quanto inusitado, mas que logo iria mudar. Estava decidida a não desistir, esse tempo em Londres vai ser classificado como férias. Bem-merecida por sinal. Que teve o percalço do acidente, mas ainda assim férias. Quando o médico finalmente me liberar depois desse retorno daqui a duas semanas, vou retornar ao Brasil.
Foi uma decisão difícil, porém necessária.
Com mais fôlego, mais sede de vida e nada me fará desistir do meu objetivo de crescer profissionalmente e ser feliz.
Vou ser uma grande advogada um dia.
Percebo que me distrai quando o veículo começa a diminuir a velocidade e me deparo com um imenso portão aberto, dando passagem a uma longa estrada envolta em árvores. Parece a entrada daqueles castelos de filmes ou daquelas mansões de gente muito rica.
Conforme o veículo vai se distanciando da entrada, meu queixo cai. Meu Deus, eles são mais ricos do que imaginei. A mansão é toda branca, com uma varanda que circula a frente da casa. Olhando assim de fora, deve ter bem mais do que 7 quartos como Oliver disse inicialmente. É intimidadora. Tem detalhes em dourado envolta das portas e janelas. O veículo para em frente à entrada principal e imediatamente funcionários saem do local para abrir a porta do veículo e pegar os meus pertences que estão no porta-malas.
Oliver circula o veículo e me ajuda a descer sem fazer muito esforço, quando se aproximada da escadaria, abre um sorriso travesso e me pega no colo.
Solto um gritinho com o susto.
Escuto a risada de Archie atrás de nós e morro de vergonha.
Assim que chegamos na enorme varanda, Oliver me coloca no chão e eu dou um giro de vislumbrando tudo ao meu redor. É um lugar aconchegante. Tem distribuído por toda a varanda, várias mesinhas, pufes e algumas redes. Seria perfeito aproveitar o fim de tarde aqui com meu kindle, até consigo me imaginar fazendo exatamente isso.
Foco Pandora, essa casa é temporária.
Quando entramos, logo de frente tem uma imensa escada dupla, que liga dois espaços.
Acho tão chique esse tipo de escadaria, lembra muito de a Bela e a Fera. Mas se for para ser realmente honesta, essa aqui é bem mais chique. Tem os degraus principais, que vão de encontro a um pequeno hall que se estende em duas escadas laterais, que dão em corredores, possivelmente em quartos. Único detalhe que não passa despercebido, é que entrando no hall ainda de frente, tem uma porta com uma fechadura digital. Muito elegante.
A mansão deve ser dividida por alas. É tudo muito claro em cores neutras. Ao lado da escada, tem uma longa janela com vista a parte de trás da mansão, com uma enorme piscina com cascata. Do outro lado, tem o acesso a sala e uma porta que deve ter na biblioteca ou escritório.
Essa casa é um sonho.
- Esse lugar é maravilhoso. - Suspiro
- Você gostou? - Oliver pergunta
- Se eu gostei? Eu amei, é tudo tão lindo. Tão claro e tão aberto, ao invés de ser intimidadora, é aconchegante. - Respondo sonhadora.
- O que gosta de fazer no momento de lazer? - Archie questiona
- Ler, eu vivo muito bem se sempre tiver meu Kindle por perto - respondo. - Também gosto de cozinhar, muito, era o que fazia quando... - Falo e paro. Quase deixei escapar que cozinhar era um acalento para aguentar a dor que o Matheus me causava. - Quando estava sozinha. - Concluo.
Os dois me observam de perto, como se não acreditassem no que digo e prendo a respiração aguardando o que vão dizer. Suspiro aliviada quando Archie fala que posso cozinhar para eles sempre que quiser, e depois que eu descansasse, eles me mostrariam onde fica a cozinha. Em seguida, os dois me ajudaram a subir a enorme escadaria e me questionam se eu quero um quarto do lado direito ou esquerdo. Com base na visão da piscina, escolho o lado esquerdo.
- Essa é a ala dos visitantes. - Archie explica. - Nesse lado do corredor tem sete suítes a disposição.
- Na outra ala, onde fica nossos quartos, tem mais sete, contando com os nossos. - Oliver complemente.
Arfo surpresa, quatorze suítes é muita coisa.
- A família de vocês é grande? - Questiono
- Muito, e extremamente bagunceira. - Oliver responde sorrindo
- Quando eles decidem que é o momento de se reunirem, é para cá que todos vem. De diversas partes do mundo, para nosso lugar de paz. - Archie resmunga. - Deixe de ser de paz na temporada da família, mas não reclamo.
- Você ia gostar de conhecê-los, em especial a Liv. - Oliver comenta.
- Preciso conhecê-la
- Minha irmãzinha é meio temperamental. - Archie brinca. - Mas acredito que vocês serão grandes amigas.
- Você se surpreendeu com a ideia de ter quatorze quartos aqui, mas na verdade são quinze. - Oliver diz despretensiosamente.
- Como?
- Tem um acesso ao terceiro andar, lá tem a suíte master, que ocupa todo o andar. Tem três closets bem espaçosos, uma jacuzzi na varanda, banheira de hidromassagem na suíte, fora a cama que foi feita exclusivamente para lá, é enorme e aconchegante. Tem também diversas prateleiras para uma biblioteca particular. Um minibar. Enfim, é uma segunda casa, - Oliver diz.
- E por que está vazia? Os dois podiam revezar para aproveitar essa casa, dentro de casa - falo rindo
- Está vazia porque ainda falta detalhes - Oliver começa.
- Não está pronta para uso. - Archie completa.
- Mas assim que estiver, vamos usar com certeza.
- Desse lado, você pode escolher qualquer quarto, embora, acredito que vá se apaixonar pela visão do último. - Oliver me avisa.
Decidida a verificar a vista que o Oliver falou, guio-me até a entrada do quarto, sendo flanqueada pelos dois até o final do longo corredor. Paramos em frente ao quarto com portas duplas. É perfeito. Assim que abro as portas, nada me preparou para a visão a minha frente. O quarto é enorme como já previa, mas o que me surpreende é a fachada toda de vidro, do chão ao teto, proporcionando uma visão espetacular da parta de trás da casa, com vista para enorme piscina, área de lazer, um campo de esportes e um jardim espetacular, com um labirinto de rosas.
Observando ao redor, vejo a cama king que parece tão aconchegante, que tenho vontade de me jogar nela. Em frente a cama tem uma TV enorme, que perde pouco para as telas de cinema. Já prevejo longos dias assistindo minhas séries perdida na cama, especialmente quando os dois estiverem em casa. Não quero ser inconveniente nos seus momentos de lazer em casa.
Do lado esquerdo da cama, tem uma porta quase imperceptível, que acredito que de acesso ao banheiro. Quando me direciono até ela, fico momentaneamente perdida, porque não tenho ideia de como abrir, sorrindo, Archie ergue a mão e desliza pela porta onde deveria ter um puxador, fazendo um pequeno barulho de cadeado abrindo e a porta automaticamente desliza para o lado.
Santa tecnologia.
Lá dentro, me deparo com um closet de causar inveja, mas que que vai engolir minha malinha. As roupas que eu trouxe, não ocupa nem cinco cabides que tem aqui. No fundo, tem outra porta que dá acesso ao banheiro, com duas cubas, um chuveiro enorme que dá para fazer uma festa embaixo e uma banheira.
Fico encarando a banheira, me perguntando como proteger minha perna para ficar submersa nela até a água esfriar.
No balcão próximo as cubas, tem diversos artigos de higiene pessoal e localizo as esferas para jogar na água. Sim, vou dar um jeito de isolar o gesso rapidamente para me perder na banheira.
- Bom, agora que conhece tudo, sinta-se em casa. - Archie diz
- Se estiver com fome, vamos pedir algo para o jantar. Tem algum alimento que não possa comer? Gosta de massa? - Oliver pergunta
- Gosto de tudo, mas massa é um ponto fraco. - Respondo.
- Que bom, vou fazer o pedido te aviso assim que chegar.
Quando os dois se retiram do quarto me dando privacidade, começo a refletir na reviravolta que minha vida deu e em como estava vivendo poucos dias atrás. Sem perspectiva nenhuma de sair daquele relacionamento tóxico em que vivia, chorando todos os dias, isolada do mundo.
Mesmo que ainda esteja sem emprego, por enquanto não estou chorando mais nem sofrendo. Isso já é alguma coisa. Enquanto não sei o que fazer da minha vida, vou relaxar nessa banheira que está me convidando desde que a vi minutos atrás. Depois, vou me jogar nessa cama maravilhosa, porque tenho muito sono para pôr em dia fora de um hospital. Essa vai ser a primeira noite em Londres, que vou dormir em paz.