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As horas que se seguiram à descoberta do corpo de Ricardo foram um borrão de confusão e procedimentos frios. Fui levada para outra sala do hotel, um espaço mais formal e impessoal, onde dois detetives me aguardavam. Seus rostos eram sérios, seus olhos perscrutadores, analisando cada palavra e cada reação minha.
O interrogatório começou de forma metódica, com perguntas sobre meu relacionamento com Ricardo, as circunstâncias que levaram ao nosso casamento e os detalhes da noite anterior. Expliquei sobre o contrato, sobre a necessidade financeira de minha família, tentando transmitir a natureza puramente transacional de nossa união. Senti seus olhares fixos em mim enquanto falava, buscando por qualquer sinal de hesitação ou falsidade.
Perguntaram sobre meu conhecimento dos inimigos de Ricardo, sobre qualquer desavença que eu pudesse ter presenciado durante a recepção. Mencionei os nomes de Sofia Alencar, Eduardo Vargas e Isabella Flores, relatando as impressões que tive deles e a tensão que senti em suas interações com Ricardo. Não omiti o olhar frio de Sofia, o ressentimento amargo de Eduardo e a mágoa palpável de Isabella.
Os detetives tomaram notas meticulosas, sem expressar qualquer opinião ou julgamento. Suas perguntas eram diretas e objetivas, buscando fatos e informações que pudessem lançar luz sobre o assassinato. Senti-me como um espécime sob um microscópio, cada detalhe de minha vida sendo examinado e analisado.
Enquanto eu respondia às perguntas, a notícia da morte de Ricardo Montenegro começou a se espalhar como um incêndio. Meus olhos encontraram brevemente um televisor ligado em um canto da sala, onde um jornalista com uma expressão grave anunciava a tragédia, interrompendo a programação regular. Imagens de Ricardo, sorrindo em eventos corporativos, e do hotel onde estávamos hospedados eram exibidas na tela.
A manchete estampada na tela era chocante: "Magnata Ricardo Montenegro Encontrado Morto na Noite de Núpcias". A notícia detalhava brevemente as circunstâncias da morte, mencionando que a polícia estava investigando o caso como homicídio e que nenhuma prisão havia sido efetuada até o momento.
Naquele instante, a dimensão da tragédia se tornou ainda mais clara para mim. Não era apenas a morte de um homem que eu mal conhecia, mas a queda de um ícone, um evento que certamente abalaria o mundo dos negócios e atrairia a atenção da mídia e do público em geral. E eu, a recém-casada viúva, estava no centro desse turbilhão.
Imagino o impacto da notícia sobre Sofia Alencar, Eduardo Vargas e Isabella Flores. Sofia, talvez, estivesse calculando as implicações da morte de seu rival nos negócios, vendo uma oportunidade para ascender ainda mais. Eduardo, talvez, sentisse uma ponta de satisfação sombria, vendo seu antigo inimigo pagar por seus atos. E Isabella, talvez, sentisse um misto de choque e uma estranha sensação de justiça.
Após horas de interrogatório, fui finalmente liberada, mas não sem antes ser informada de que eu deveria permanecer à disposição da polícia para mais questionamentos. Fui levada de volta para a suíte, que ainda estava isolada e sob investigação. A atmosfera era pesada, carregada de vestígios da tragédia.
Sentei-me na cama, sentindo-me exausta e emocionalmente esgotada. O luxo do quarto agora parecia sombrio e ameaçador. Eu estava sozinha, uma viúva em circunstâncias extraordinárias, ligada para sempre a um homem que morreu violentamente.
Peguei meu celular, que havia sido devolvido pela polícia. Havia inúmeras mensagens e ligações perdidas de minha mãe, de amigos e até mesmo de números desconhecidos. Liguei para minha mãe, tentando manter a voz firme para não assustá-la ainda mais. Contei a ela o que havia acontecido, omitindo os detalhes mais chocantes, e prometi que voltaria para casa assim que possível. Sua voz do outro lado da linha estava embargada pelo choro e pela preocupação.
Naquela noite, dormi pouco. As imagens de Ricardo morto voltavam à minha mente, misturadas com os rostos dos suspeitos que conheci brevemente. Um detalhe da recepção começou a martelar em minha cabeça. Lembro-me de ter visto Eduardo Vargas e Ricardo em um canto do salão, aparentemente envolvidos em uma discussão acalorada. As palavras não chegaram aos meus ouvidos, mas a tensão entre eles era palpável. Eduardo parecia furioso, e Ricardo mantinha sua habitual expressão impassível, mas seus olhos brilhavam com uma raiva contida.
Naquele momento, não dei muita importância ao incidente, atribuindo-o às tensões normais do mundo dos negócios. Mas agora, à luz do assassinato, aquela cena adquiriu um novo significado. Será que aquela discussão havia sido mais séria do que eu imaginava? Será que Eduardo Vargas realmente tinha motivos para querer Ricardo morto?
Outra lembrança surgiu em minha mente. Durante uma conversa superficial com Isabella Flores, ela havia feito um comentário amargo sobre como Ricardo havia destruído sua vida e como ele merecia tudo de ruim que lhe acontecesse. Na época, achei que fosse apenas a amargura de uma ex-noiva rejeitada, mas agora suas palavras soavam sinistras.
Senti um calafrio percorrer minha espinha. Eu estava cercada de pessoas que poderiam ter desejado a morte de Ricardo. E eu, a esposa por contrato, estava no meio desse turbilhão de segredos e ressentimentos. A polícia estava investigando, mas eu não podia simplesmente esperar passivamente. Eu precisava descobrir a verdade, não apenas para a justiça, mas também para minha própria segurança. A sensação de que eu também poderia estar em perigo começou a se instalar em minha mente, fria e persistente. O contrato de jade havia me lançado em um jogo perigoso, e as apostas eram muito mais altas do que eu jamais poderia ter imaginado. Preciso manter o controle emocional. Mas não será fácil . Ainda estou tentando digerir tudo isso . Nem tive tempo ainda de colocar os pensamentos no lugar . Estou nervosa. Sofrendo por antecipação . Só agora pude perceber que este casamento por contrato , sem amor , por conveniência acabou de jogando em uma teia de aranha . Será que a morte do Ricardo , é o começo de um jogo? Tudo isso é um jogo então? A quem interessa a morte do Ricardo? Quem se daria bem com isso? Ou será tudo isso um plano contra mim?