Capítulo 4 Primeiros passos na escuridão

A manhã seguinte à noite fatídica amanheceu fria e cinzenta, refletindo o estado sombrio da minha mente. A polícia ainda estava presente no hotel, embora a intensidade da investigação inicial tivesse diminuído ligeiramente. Eu havia insistido em permanecer na suíte, sentindo uma estranha necessidade de estar perto do lugar onde a vida de Ricardo havia sido brutalmente interrompida. Talvez fosse uma tentativa inconsciente de encontrar algum sentido no caos, alguma resposta no silêncio opressor do quarto.

Enquanto esperava por mais instruções da polícia, decidi que não podia ficar parada, consumida pela angústia e pela incerteza. A sensação de que algo não se encaixava na narrativa oficial crescia dentro de mim. A polícia estava focada nos suspeitos óbvios, aqueles com histórico de conflito com Ricardo. Mas e se o assassino fosse alguém que ninguém esperava? E se o motivo estivesse oculto nas sombras de segredos bem guardados?

Com essa determinação recém-descoberta, comecei minha própria busca por respostas. O quarto ainda continha alguns pertences de Ricardo, itens que não haviam sido levados pela polícia como evidência. Comecei com a mesa de cabeceira ao lado da cama onde ele havia sido encontrado morto. Entre alguns papéis e um livro de capa dura, encontrei um pequeno bloco de notas com anotações rabiscadas. A maioria eram números e abreviações que não faziam sentido para mim, mas uma frase em particular chamou minha atenção: "Reunião com a coruja - cuidado com a traição."

A "coruja"? Quem seria essa pessoa? E a menção à traição era perturbadora. Seria uma pista para o motivo do assassinato? Anotei a frase em meu próprio celular, sabendo que poderia ser importante mais tarde.

A seguir, explorei o closet de Ricardo. Seus ternos impecáveis e camisas de grife pareciam vazios e sem vida. Em um bolso de um casaco, encontrei um cartão de visitas elegante com o nome "Isabella Flores - Consultora de Arte". O verso do cartão continha um número de telefone rabiscado à mão e a breve anotação: "Devolver a ligação - urgente". Essa urgência me intrigou. Teria Ricardo ligado para sua ex-noiva na noite de seu casamento? E sobre o quê?

Decidi que precisava falar com Isabella Flores. Peguei meu celular e digitei o número rabiscado no cartão. Ela atendeu no terceiro toque, sua voz soando fria e distante. Marquei um encontro com ela para aquela tarde, alegando que precisava conversar sobre algo relacionado a Ricardo. Ela hesitou por um momento, mas acabou concordando.

Minha próxima pista veio de um laptop que estava sobre a escrivaninha. A polícia já o havia examinado, mas talvez tivessem perdido algo. Esperei até ter certeza de que não havia ninguém por perto e liguei o aparelho. Para minha surpresa, não havia senha. Comecei a navegar pelos arquivos, procurando por e-mails, documentos ou qualquer coisa que pudesse fornecer informações sobre os negócios ou a vida pessoal de Ricardo.

Encontrei uma pasta intitulada "Projetos Confidenciais". Dentro dela, havia vários documentos criptografados. Tentei adivinhar algumas senhas óbvias, como a data de nosso casamento ou o nome de sua empresa, mas nenhuma funcionou. Frustrada, continuei procurando em outras pastas.

Na caixa de entrada de seu e-mail, encontrei uma troca de mensagens recente com Sofia Alencar. As mensagens eram formais e concisas, tratando de assuntos de negócios. No entanto, em um dos e-mails de Sofia, havia uma linha que me chamou a atenção: "Lembre-se do nosso acordo, Ricardo. As consequências de quebrá-lo serão severas." Que acordo seria esse? E que consequências Sofia estava mencionando? Copiei o e-mail e o salvei em meu próprio dispositivo.

Minhas buscas no laptop não revelaram mais nada de significativo. Fechei o aparelho, sentindo-me um pouco frustrada, mas também determinada a continuar investigando. Eu precisava descobrir quem havia matado Ricardo e por quê.

Enquanto eu estava absorta em meus pensamentos, meu celular tocou. Era o detetive responsável pelo caso, solicitando que eu comparecesse à delegacia para prestar mais depoimentos. Respirei fundo e aceitei, sabendo que precisava colaborar com a polícia, mesmo que estivesse conduzindo minha própria investigação em paralelo.

Na delegacia, fui novamente interrogada, desta vez com mais foco nos meus movimentos e nas minhas observações durante o casamento e a noite anterior. Os detetives pareciam particularmente interessados em saber se eu havia notado alguma interação suspeita entre Ricardo e outros convidados. Mencionei novamente a discussão entre Ricardo e Eduardo Vargas e o comentário amargo de Isabella Flores.

Ao final do interrogatório, perguntei ao detetive sobre o andamento das investigações e se eles tinham algum suspeito em mente. Ele evasivo, dizendo apenas que estavam seguindo várias linhas de investigação e que era muito cedo para tirar conclusões.

Saí da delegacia com a sensação de que a polícia estava tão perdida quanto eu. Eles estavam seguindo os rastros óbvios, mas talvez o verdadeiro assassino estivesse escondido nas sombras, esperando que a poeira baixasse.

Naquela tarde, encontrei-me com Isabella Flores em um café discreto. Ela parecia tensa e nervosa, seus olhos evitando os meus. Comecei a conversa perguntando sobre o cartão que encontrei no bolso de Ricardo.

"Ele me ligou na noite do casamento", ela disse, sua voz baixa e hesitante. "Queria conversar sobre algo... algo do passado."

"Sobre o quê exatamente?", insisti.

Isabella hesitou por um momento, olhando ao redor do café antes de responder. "Sobre o nosso rompimento. Ele disse que se arrependia de como as coisas terminaram e queria se desculpar."

Essa revelação me surpreendeu. Por que Ricardo esperaria até a noite de seu casamento para se desculpar com sua ex-noiva? Parecia estranho e fora de lugar.

Continuei conversando com Isabella, tentando descobrir mais sobre seu relacionamento com Ricardo e sobre seus sentimentos em relação a ele. Ela admitiu que ainda sentia mágoa e ressentimento, mas negou veementemente qualquer envolvimento na morte dele.

Ao final do nosso encontro, senti que Isabella estava escondendo algo. Havia uma hesitação em suas palavras, um brilho estranho em seus olhos. Ela era uma das principais suspeitas da polícia, e agora eu entendia por quê.

Voltando para o hotel, senti o peso da investigação sobre meus ombros. Eu estava apenas começando a desvendar a teia de segredos e mentiras que cercavam a vida de Ricardo Montenegro. E a cada nova descoberta, a escuridão parecia se aprofundar, tornando a verdade ainda mais difícil de alcançar. Mas eu sabia que não podia desistir. Eu precisava descobrir quem havia manchado minha noite de núpcias com sangue e trazer justiça para Ricardo, mesmo que nosso casamento tivesse sido apenas um contrato. Os primeiros passos na escuridão haviam sido dados, e eu estava determinada a seguir em frente, mesmo que o caminho à frente fosse perigoso e incerto.

            
            

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