Capítulo 2 A noite de núpcias

O grito que escapou dos meus lábios ecoou pelo quarto luxuoso, que apenas algumas horas antes parecia um símbolo de um novo começo, mas agora se transformara em um cenário de horror. A visão de Ricardo Montenegro, meu marido por contrato, inerte e com uma mancha escura se espalhando em sua camisa branca, era surreal, como se eu estivesse presa em um pesadelo vívido do qual não conseguia despertar.

O som do meu grito pareceu romper o silêncio pesado que se instalara após o estampido mortal. A porta da suíte nupcial se abriu com um estrondo, e uma onda de seguranças uniformizados invadiu o quarto, seus rostos tensos e preocupados. O burburinho de vozes confusas e alarmadas encheu o espaço, substituindo o silêncio opressor de momentos atrás.

"O que aconteceu aqui?", questionou um dos seguranças, um homem corpulento com uma expressão severa, seu olhar percorrendo o quarto até se fixar no corpo imóvel de Ricardo na cama. A incredulidade e o choque eram evidentes em seus olhos.

O silêncio que se seguiu à sua pergunta foi ainda mais aterrorizante do que o tiro. Os seguranças se aproximaram da cama com cautela, seus rostos antes tensos agora empalidecendo visivelmente ao constatarem a terrível realidade. A mancha escura na camisa de Ricardo crescia, e o cheiro metálico e inconfundível de sangue pairava no ar, impregnando o ambiente com a brutalidade da violência.

Eu estava paralisada, sentada na beira da cama, meu corpo tremendo incontrolavelmente. Meus olhos estavam fixos em Ricardo, naquela figura imponente agora reduzida à fragilidade da morte. A ficha ainda não havia caído completamente. Aquele homem, com quem eu havia trocado votos apenas algumas horas antes, estava morto. Assassinado em nossa noite de núpcias.

Um dos seguranças, aparentemente o líder do grupo, pegou seu rádio e começou a falar em voz baixa, mas urgente. As palavras "emergência", "homicídio" e "CEO" ecoavam pelo quarto, confirmando a gravidade da situação.

Em poucos minutos, o som distante de sirenes começou a se aproximar, rasgando o silêncio da noite. A notícia da morte de Ricardo Montenegro, um dos homens mais poderosos do país, certamente se espalharia como um incêndio, causando ondas de choque por toda a cidade e além.

A polícia chegou em grande número, invadindo a suíte com uma eficiência fria e profissional. O quarto foi imediatamente isolado com fitas amarelas, transformando o cenário de luxo em uma cena de crime. Detetives com expressões sérias e investigadores forenses começaram a examinar o local, procurando por pistas e evidências que pudessem levar ao assassino.

Eu fui conduzida para um canto do quarto, longe da agitação da investigação, e colocada sob a supervisão de uma policial gentil, mas firme. Ela me ofereceu um copo de água e um cobertor para me aquecer, observando-me com um olhar de preocupação. Eu estava em choque, minhas emoções em um turbilhão confuso de medo, incredulidade e uma estranha sensação de vazio.

As perguntas começaram a surgir, lançadas pelos detetives com um tom calmo, mas inquisitivo. Eles queriam saber tudo sobre a noite, sobre nossos últimos momentos juntos, sobre qualquer coisa que pudesse ter parecido estranha ou suspeita. Eu relatei os poucos e frios momentos que compartilhamos após a recepção, a conversa breve e impessoal antes de nos deitarmos, o silêncio opressor que pairava entre nós.

Quando me perguntaram se eu havia ouvido ou visto algo, a imagem do estampido abafado ecoou em minha mente. Descrevi o som, a minha hesitação inicial em acreditar que fosse um tiro, e o momento de terror quando percebi a verdade.

Os detetives também interrogaram os seguranças que estavam de plantão no andar, os funcionários do hotel e, em breve, começariam a questionar os convidados do casamento. A lista de potenciais suspeitos parecia extensa. Ricardo Montenegro, apesar de seu sucesso e poder, não era um homem amado por todos. Sua ascensão meteórica no mundo dos negócios havia inevitavelmente deixado um rastro de inimigos e desafetos.

Enquanto a investigação se desenrolava, meu olhar vagava pelo quarto, tentando processar o que havia acontecido. A cama, onde poucas horas antes havíamos nos deitado como marido e mulher (ainda que apenas no papel), agora estava marcada pela tragédia. A mancha de sangue no lençol branco era um lembrete brutal da violência que havia ocorrido ali.

Pensei em Sofia Alencar, a empresária rival com quem Ricardo travava uma batalha nos negócios. Seu olhar durante a recepção havia sido carregado de uma intensidade fria que me perturbara. Lembrei-me de Eduardo Vargas, o ex-sócio com o rosto sombrio e o ressentimento palpável. E de Isabella Flores, a ex-noiva amargurada, cuja presença na festa parecia prenunciar algo sinistro.

Cada um deles tinha um motivo potencial para desejar a morte de Ricardo Montenegro. Sofia poderia se beneficiar de sua ausência no mundo dos negócios. Eduardo poderia buscar vingança pela forma como foi tratado. Isabella poderia ter sido consumida pela raiva e pelo desejo de retribuição.

Mas havia também outros. Sócios descontentes, concorrentes invejosos, até mesmo membros da própria família de Ricardo poderiam ter segredos e motivos ocultos. A teia de relacionamentos de um homem tão poderoso era certamente complexa e cheia de nós.

Naquela noite longa e sombria, enquanto a polícia vasculhava cada centímetro da suíte nupcial, eu me senti cada vez mais isolada e perdida, como se estivesse sozinha em um mar revolto. Eu era a viúva, a esposa por contrato de um homem que mal conhecia, agora envolvida em um mistério sombrio e perigoso que pairava sobre mim como uma nuvem de tempestade. O contrato de jade que me unira a Ricardo Montenegro havia se transformado em uma mortalha fria e manchada de sangue, prenunciando um futuro incerto e repleto de perigos. E eu sabia, com uma certeza sombria que me gelava a alma até os ossos, que minha vida nunca mais seria a mesma, marcada para sempre por esta noite trágica e envolta em um véu de mistério que clamava por ser desvendado.

Eu estava completamente desesperada . Minha cabeça doía tanto. Meu Deus! O que eu vou fazer agora?

            
            

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