- Você tem que parar de sair com estranhos. Tem que parar de fazer essas merdas. O George está crescendo e em algum momento ele vai perceber que o pai é um idiota de merda. - Uma pausa. Ele olhava para mim, como se esperasse que magicamente eu me tornasse numa cópia perfeita sua. - Pela primeira vez em muito tempo eu realmente acreditei que não tinha que me preocupar com o que o meu irmão estava aprontando, porque, aparentemente, ele estava indo à terapia, trabalhando, cuidando de si mesmo, se divertindo... - sua cabeça balançava em negação. - Porque ele estava finalmente superando a porra da morte da mulher que nem o amava.
- E eu estou - eu tentei dizer.
Cabisbaixo, o olhei por entre os cílios.
Aquela onda de vergonha que sempre me atingia quando ele começava a discussão tomou conta do meu corpo. Eu perdia o controle de novo, e me sentia como naquele maldito dia...
- Eu estou tentando, pelo menos.
- Tentar não é o bastante, Anthony. - Ele olhou para mim sentado da cadeira, o tom superior da sua voz me dizia que estava no pedestal que sempre o deixei ficar. - Eu não quero repetir o que aconteceu há seis anos. E espero que você também não.
- Não.
- Ótimo, porque dessa vez, eu juro que deixaria você na porra daquela casa de reabilitação! - Ele disse num tom simetricamente divertido. Se não tivesse levantado os cantos da boca, teria acreditado que já estava cansado de mim. - Eu só quero que melhore.
Eu sorri.
Lembro que Rich me visitava sempre que podia. E quando trocaram a minha terapeuta, foi o primeiro a saber que eu estava apaixonado. Ele não levou a sério, porque eu não passava de um desesperado, mas por algum motivo, quando disse o que Sarah Davis me fez sentir, ele acreditou. Eu aprendi com o tempo que aquela mulher, a minha terapeuta sexy, não merecia alguém como eu. A paixão virou uma espécie de brincadeira. Passaram 3 anos desde que a conheci, e ela ainda me faz as mesmas perguntas e escuta as mesmas respostas:
Se pergunta se eu estou bem, eu respondo que sim.
Se pergunta como eu me sinto, eu respondo que bem.
Se pergunta como eu estou lidando com tudo, eu respondo o que quer ouvir.
É um alívio, na verdade.
Ela não espera que eu diga nada. Me compreende sem que precise que eu diga alguma coisa, e em troca, eu digo que o sutiã que usa deixa seus peitos um pouco mais fartos, ou que batom está tão vermelho que me convida para um beijo.
Ela se tornou a única mulher que escuta meus sentimentos e eu não espero que tire a calcinha por isso - não por falta de esforços, claro.
- Eu estou realmente bem.
E ele sorriu.
***
Deveria ser quase meia-noite quando resolvi que seria ótimo dar uma pausa no que eu e Jessica, a veterinária que cuidava do meu grave caso de tedionite estávamos fazendo. Ela tentou me puxar para a cama algumas vezes, mas não a deixei ganhar. Vencida, ela se arrastou comigo até o banheiro. Não me largava nem por um segundo, e tive que fodê-la com força embaixo do chuveiro para que me deixasse em paz de uma vez por todas. Ela foi embora quando disse que precisava dormir, porque amanhã iria acordar cedo. Talvez tenha ficado chateada por eu tê-la chamado de carrapato...
Rich tinha saído com alguns amigos e Alice fora para a sua casa. George estava dormindo.
Só estava eu e o espelho, que me olhava friamente. Talvez fosse o meu reflexo distorcido por gotículas d'água.
Escovei os dentes com força.
Minha boca tinha o gosto ruim de Jessica.
Eu precisava me livrar daquilo.
Respirei fundo.
Apoiei os braços no balcão e encarei minha cara no espelho.
Eu não conseguia ver nenhum traço daquele Anthony.
Como ele era?
Já não me lembrava mais.
Tentei puxá-lo do fundo da memória, mas ele me fez uma careta e foi embora. O velho Anthony, aquele que eu enterrei com Rachel, raramente me visitava. Aquele Anthony poderia viver com o peso da culpa? E se vivesse, o que aconteceria se ele me visse?
Ficaria envergonhado?
Eu olho para mim mesmo, mas não me reconheço.
Esse Anthony tem olhos azuis tão escuros que parecem vazios.
Esse Anthony tem cabelo castanho caramelado curto.
Esse Anthony tem um corpo bonito...
Mas também tem um corpo ferido, dilacerado.
Bonito por fora, horrível por dentro.
O que o velho Anthony faria?
O que ele faria?
O que faria?
O que eu faço?
- Não! - Um grito. Virei a cabeça na direção do som.
George!
Prendi a toalha na cintura e corri para o quarto de George, que se arqueava na cama, chutando o cobertor e agarrando Bonnie com tanta força, que o lagarto ameaçava se desfazer em suas mãos.
- George! - Eu disse, parando ao seu lado. Ele continuava murmurando alguma coisa baixinho. - George! - Toquei suas costas e balancei seu corpo, mas ele não acordava. - Vamos, George! Acorda, acorda, amigão. - Disse baixinho.
Quando finalmente consegui fazê-lo acordar, constatei que estava assustado. Os fios do cabelo grudaram à testa, o peito subia e descia freneticamente. Os olhos pareciam perdidos.
Eu ferrei com a sua mente.
- O que foi, garotão? - Perguntei suavemente, passando a mão por seu cabelo. Ele voltou o olhar para mim. - Ei, ei... tá tudo bem. Eu tô aqui. - Eu o encarei e subi na cama. - Lembra do que o seu tio disse quando tivesse um pesadelo?
Ele fez que sim.
...