Passei a semana seguinte na casa dos meus pais, num estado de dormência.
A minha mãe, a Ana, cuidou de mim com uma devoção silenciosa, trazendo-me comida que eu mal tocava e chá que eu esquecia de beber.
O meu pai, o Rui, era mais direto.
"Vais deixá-lo destruir-te?" ele perguntou uma noite, sentando-se na beira da minha cama. "Aquele canalha não merece as tuas lágrimas."
"Eu não estou a chorar por ele," eu disse, e era verdade. "Estou a chorar pelo meu filho."
"Eu sei," disse o meu pai suavemente. "Mas a vida tem que continuar. Tens que te levantar e lutar."
No dia seguinte, contratei a melhor advogada de divórcio da cidade, a Dra. Campos.
Ela era uma mulher de meia-idade, com um olhar penetrante e uma atitude pragmática.
"Ele abandonou-te no hospital e fugiu com a outra," disse ela, depois de eu lhe contar a história toda. "E há a questão do brinco. Isto é um caso claro de adultério e abandono. Vamos depená-lo."
Eu não queria vingança. Eu só queria acabar com isto.
"Eu só quero o que é meu por direito," eu disse. "O apartamento foi comprado com o dinheiro da minha herança. Eu quero o apartamento e o divórcio. Nada mais."
A Dra. Campos acenou com a cabeça. "Simples e limpo. Gosto disso. Vamos notificá-lo."
Os papéis do divórcio foram enviados para o escritório do Leo.
Dois dias depois, ele ligou-me. Pela primeira vez em mais de uma semana.
Atendi, colocando a chamada em altifalante para que a Dra. Campos, que estava comigo no seu escritório, pudesse ouvir.
"Sofia, que raio estás a fazer?" ele gritou, sem sequer dizer olá. "Recebi papéis de divórcio! Estás louca?"
"Não, Leo. Estou perfeitamente sã," respondi calmamente.
"Tu queres o apartamento? O nosso lar? Depois de tudo o que eu fiz por ti?"
"O que fizeste tu por mim, Leo? Além de me deixares sozinha para perder o nosso filho?"
"Eu estava a cuidar de uma pessoa doente! Quantas vezes tenho que te dizer isso? Tens zero compaixão!"
"E tu?" retorqui. "Onde estava a tua compaixão quando eu estava a sangrar no hospital?"
Ele ficou em silêncio por um momento.
"Olha, eu cometi um erro," ele disse, a sua voz suavizou-se um pouco. "Eu devia ter estado lá. Peço desculpa. Mas o divórcio? Não é um pouco extremo?"
"Não. Não é extremo. É necessário."
"É por causa da Eva, não é?" ele acusou. "Estás com ciúmes. Não há nada entre nós, ela é só uma amiga."
"Uma amiga cujo brinco encontrei no nosso quarto? Uma amiga com quem vais em 'viagens de negócios'?"
A linha ficou silenciosa novamente. Eu tinha-o apanhado.
A Dra. Campos sorriu-me, um sorriso predatório.
"Sofia, por favor," ele disse, a sua voz agora a soar a desespero. "Não faças isto. Pensa em tudo o que passámos."
"Eu estou a pensar, Leo. E tudo o que vejo é dor. Eu quero o divórcio. Assina os papéis."
"E se eu não assinar?" ele desafiou.
"Então," a Dra. Campos interveio, a sua voz era cortante como aço. "Sr. Alves, vamos levar o assunto a tribunal. E acredite em mim, com as provas que temos – testemunho do hospital, registos telefónicos, o brinco – o juiz não será favorável à sua causa. A sua... 'amizade' com a Sra. Eva será exposta publicamente. Tem a certeza que é isso que quer?"
Houve um longo silêncio. Eu podia quase ouvi-lo a pensar.
"Vocês vão ter notícias do meu advogado," ele disse finalmente, e desligou.
"Ele vai lutar," disse a Dra. Campos. "Mas ele vai perder."
Eu senti-me exausta, mas também aliviada. O primeiro passo tinha sido dado.
A guerra tinha começado.