Para nos aproximarmos deles, para entendê-los sem o brilho do nosso status, deixamos nossos impérios para trás e vestimos o uniforme de estagiárias, recebendo um salário mínimo que mal pagava nossos cafés.
Durante um ano, dedicamos cada minuto a eles. Nossas ideias de design, que valiam milhões, foram usadas para projetar interiores de condomínios de luxo. Nossos contatos, cultivados ao longo de anos na alta sociedade, abriram portas que eles jamais conseguiriam abrir sozinhos. Acompanhamos reuniões, preparamos apresentações, viramos noites trabalhando em projetos que transformaram a pequena empresa deles em um nome em ascensão no mercado. Eles estavam à beira de lançar o "Residencial Vértice", o empreendimento que consolidaria sua fortuna e os colocaria no mapa dos grandes empresários. E nós estávamos lá, torcendo por eles, acreditando que finalmente, depois do sucesso, poderíamos revelar quem éramos e viver nosso romance.
Na noite anterior ao grande lançamento, o clima no escritório era elétrico. Pedro e Ricardo nos chamaram para a sala de reuniões. Achamos que seria para agradecer, talvez até para nos oferecer um cargo de verdade. A porta se abriu e eles não estavam sozinhos. Ao lado deles estava Vanessa, uma influenciadora digital com mais seguidores do que escrúpulos. Ela nos olhou de cima a baixo, com um sorriso de desprezo.
Pedro, o mais velho e o homem por quem meu coração batia mais forte, falou primeiro, com uma frieza que eu nunca tinha visto.
"Laura, Isabela. Temos uma última tarefa para vocês."
Ele empurrou uma pilha de papéis sobre a mesa. Eram rascunhos dos meus designs, anotações de contatos da Isabela.
"Queremos que vocês entreguem todas as suas ideias e contatos para a Vanessa. Ela será o novo rosto da nossa empresa."
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Ricardo, o irmão mais novo que havia encantado Isabela com sua energia, riu.
"Vocês são estagiárias, não têm ambição. Para que precisam dessas ideias e contatos? Usem suas ideias e contatos para ajudar a Vanessa a ter sucesso, assim ela pode nos ajudar na alta sociedade."
Vanessa sorriu, satisfeita. "É uma grande oportunidade para vocês, meninas. Ajudar alguém como eu."
A humilhação era palpável. A traição cortava mais fundo do que qualquer outra coisa. Ricardo se aproximou, sua voz se tornando uma ameaça velada.
"Não se façam de difíceis, ou vamos pegar à força."
Sofia, nossa jovem assistente e a única outra pessoa no escritório que nos tratava com genuíno carinho, entrou na sala naquele momento. Vendo nossos rostos, ela percebeu que algo estava terrivelmente errado.
"Senhores Santos, elas trabalharam tanto por esses projetos. Isso não é justo!"
O rosto de Ricardo se contorceu de raiva. Ele se virou para Sofia com uma crueldade repentina e chocante.
"Quem você pensa que é para opinar? Você está demitida! E vou garantir que você nunca mais consiga um emprego nesta cidade. Vou espalhar que você rouba ideias e as vende para a concorrência."
Sofia ficou pálida, as lágrimas brotando em seus olhos. Ela era jovem, estava no início de sua carreira. Uma acusação dessas a destruiria. Ela olhou para nós, desamparada, antes de sair correndo da sala, soluçando. Aquele ato de crueldade gratuita contra uma inocente foi a gota d'água.
Isabela e eu nos entreolhamos, a incredulidade dando lugar a uma fúria gelada. O amor que sentíamos havia se transformado em cinzas. Isabela sussurrou para mim, sua voz tremendo de raiva.
"Laura, eu quero expor tudo isso nas redes sociais. Agora. Vou destruir a reputação deles antes do amanhecer."
Eu balancei a cabeça, meus olhos fixos em Pedro, que me encarava sem um pingo de remorso.
"Não", eu disse, minha voz baixa e firme. "Isso é pouco. Eu vou esperar por eles no topo do mercado. Vou derrubá-los com minhas próprias mãos."
Isabela me olhou, surpresa com a minha calma. Ela sabia que minha raiva, quando silenciosa, era a mais perigosa. Ela entendeu.
"Tudo bem," ela respondeu, com uma determinação sombria. "Mas eu não fico aqui nem mais um segundo."
Ela se virou para os irmãos e para Vanessa.
"Considerem este o meu aviso prévio," ela disse, com um desprezo cortante. Ela pegou seu celular, abriu seu perfil de "estagiária" com poucos seguidores, e o deletou na frente deles. Um ato simbólico, mas poderoso. Ela estava se desconectando daquela farsa, daquela vida. "Aproveitem bem as migalhas que vocês estão roubando. Vocês vão precisar."
Ela se virou e saiu da sala, de cabeça erguida. Eu fiquei para trás por um momento, encarando os três. Prometi a mim mesma, e a Isabela, e à pobre Sofia, que a vingança não seria apenas sobre expor a verdade. Seria sobre tomar de volta tudo o que eles nos roubaram, e muito mais. Seria sobre mostrar a eles a diferença entre a ambição mesquinha deles e o verdadeiro poder.
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