Eu também achava. Para que ela se casasse comigo, eu usei um sistema misterioso que me prometeu curar minha doença terminal se eu conseguisse o amor dela.
Nos últimos cinco anos, eu me dediquei de corpo e alma a essa família, cuidei de Clara, cuidei de Sofia, e acreditei que ela me amava de verdade.
"Papai, mamãe, tenho um desejo de aniversário para vocês", disse Sofia, nossa filha de quatro anos, com uma voz infantil e fofa, piscando seus grandes olhos.
Eu sorri e disse, "Claro, meu amor, pode dizer."
Sofia juntou as mãos e disse com seriedade, "Eu desejo que vocês se divorciem logo."
Meu sorriso congelou.
Clara, sentada à minha frente, não pareceu surpresa. Ela apenas olhou para Sofia com um leve sorriso, como se esperasse por isso.
"Por que, meu bem?", perguntei, minha voz um pouco trêmula.
"Porque assim o tio Ricardo pode ser meu novo papai", Sofia respondeu, com uma inocência que feria. "O tio Ricardo é incrível, ele é um músico famoso, e a vovó e o vovô gostam muito mais dele."
Ricardo Silva, meu irmão mais velho.
Ele era o verdadeiro orgulho da família Silva, um músico e compositor de sucesso que estava no exterior há cinco anos.
Ouvindo o nome dele, meu coração afundou.
Clara finalmente falou. Ela empurrou um envelope na minha direção sobre a mesa. Sua voz era fria, sem qualquer emoção. "Antônio, vamos nos divorciar."
Abri o envelope. Dentro, havia um acordo de divórcio e um cheque.
Um cheque de cinquenta milhões de reais.
"O que é isso?", perguntei, sentindo um nó na garganta.
"É uma compensação", disse Clara, sem me olhar nos olhos. "Ricardo voltou. Eu nunca te amei, Antônio. Você foi apenas um substituto. Eu precisava de alguém para ocupar o lugar dele enquanto ele estava fora, e você serviu bem a esse propósito."
Suas palavras foram diretas, sem rodeios, e cada uma delas me atingiu com força.
Substituto.
Então, os cinco anos de dedicação, o amor que eu achava que tínhamos construído... tudo era uma farsa.
Eu era apenas uma sombra do meu irmão.
"Você pode ficar com o dinheiro", continuou Clara, seu tom pragmático. "É o suficiente para você viver o resto da sua vida no luxo. A única condição é que você desapareça da nossa vida pública. Não quero que você manche a reputação da nossa família ou da escola de samba."
Eu olhei para ela, para a mulher com quem dividi a cama por cinco anos. Seu rosto era lindo, mas seus olhos eram frios como gelo.
Senti um vazio imenso por dentro, uma dor oca.
"Tudo bem", eu disse, minha voz soando distante para meus próprios ouvidos. "Eu aceito."
Clara pareceu surpresa com a minha rápida aceitação. Ela me olhou por um momento, talvez com um pingo de pena. "Sofia vai ficar comigo. Mas você pode visitá-la uma vez por mês, se quiser. Desde que não cause problemas."
Eu apenas assenti, incapaz de falar.
Naquela noite, eu estava arrumando minhas coisas no quarto de hóspedes. Eu não tinha muito, apenas algumas roupas e livros. Eu ouvi Sofia conversando com Clara no corredor.
Sofia estava falando em inglês, uma língua que Clara a ensinou para que ela pudesse se comunicar melhor com o mundo. Elas não sabiam que eu, um simples dançarino de samba, também entendia. Eu tinha aprendido para ajudar Sofia com seus estudos no futuro.
"Mamãe, por que o papai ainda não foi embora?", perguntou Sofia. "Ele é tão chato e não sabe fazer nada direito. O tio Ricardo é muito melhor."
A voz de Clara era suave, tranquilizadora. "Ele irá em breve, querida. Não se preocupe. Logo o tio Ricardo estará aqui conosco para sempre."
Meu coração, que eu achava que já estava em pedaços, se partiu mais um pouco. O desprezo na voz da minha própria filha era a humilhação final.
Eu terminei de fazer minha mala e saí do quarto.
Clara e Sofia estavam na sala. Clara estava no celular, rindo de algo. Quando me viu, seu sorriso desapareceu.
Eu não disse nada. Apenas peguei o cheque da mesa de centro e me dirigi para a porta.
Antes que eu pudesse sair, o celular de Clara apitou. Ela olhou para a tela e um sorriso radiante iluminou seu rosto, um sorriso que eu raramente via.
Ela abriu o Instagram. Era uma nova postagem de Ricardo. Uma foto dele e de Clara, abraçados, com a legenda: "Finalmente em casa com o amor da minha vida. O futuro começa agora."
A foto tinha sido tirada hoje. Enquanto eu preparava nosso jantar de aniversário.
A humilhação foi pública e instantânea. Os comentários choviam, parabenizando o novo casal e zombando do "ex-marido sortudo" que finalmente foi descartado.
Eu me senti nu, exposto ao mundo inteiro.
Saí daquela casa, o lugar que eu chamei de lar por cinco anos.
Lá fora, a noite do Rio de Janeiro estava abafada. As luzes da cidade pareciam zombar de mim.
Entrei no meu carro, um modelo simples que contrastava com os carros de luxo da garagem de Clara.
Sentei-me ao volante por um longo tempo, olhando para o nada.
Então, peguei meu celular. Abri minhas redes sociais, que eu mal usava.
Escrevi uma única postagem.
"Eu, Antônio Silva, e Clara Mendes nos divorciamos hoje. Agradeço a todos pela preocupação."
Depois, em voz baixa, falei para o vazio do carro.
"Sistema, eu falhei. A missão de curar minha doença falhou. Peço para sair deste mundo. Por favor, me deixe desaparecer."
Uma voz mecânica e sem emoção soou na minha cabeça, uma voz que eu não ouvia há cinco anos.
[Pedido recebido. Procedimento de saída iniciado. Tempo restante neste mundo: 10 dias.]