Como a clínica popular onde eu trabalho estava fechada no fim de semana, e ela parecia genuinamente aflita, senti pena e concordei em fazer uma visita domiciliar, levando os medicamentos necessários.
Meu marido, Ricardo, era piloto comercial. Isso significava que eu passava muitos fins de semana como este, sozinha. Ele estava em um voo longo, segundo me disse, para a Ásia. Uma viagem de cinco dias. A casa era exatamente como eu imaginava, com brinquedos espalhados pela grama e uma bicicleta rosa encostada na varanda. Toquei a campainha e esperei.
A porta se abriu e uma mulher de aparência frágil, com uma barriga proeminente de gravidez, sorriu para mim. Era Sofia.
"Doutora Maria? Muito obrigada por vir. Eu estava tão preocupada."
"Não se preocupe, vamos ver o que a pequena tem."
Entrei na casa. O ambiente era acolhedor, cheio de fotos de família. Fotos de Sofia, da menina e de um homem. Um homem cujo rosto eu conhecia melhor do que o meu próprio. Era Ricardo. Meu marido. Em todas as fotos, ele sorria, abraçando Sofia, segurando a menina no colo, cortando um bolo de aniversário. O ar de repente ficou pesado, difícil de respirar. Meu coração começou a bater descontroladamente no peito.
"Aconteceu alguma coisa, doutora? Você está pálida."
Sofia me olhou, preocupada, sem ter a menor ideia da bomba que acabara de explodir dentro de mim. Eu não conseguia responder. Minha garganta travou. Olhei para uma foto na estante: Ricardo, a menina e Sofia na praia, construindo um castelo de areia. Ele parecia tão feliz, tão completo. Uma felicidade que eu nunca via em casa.
Nesse momento, uma menina de pijama de unicórnio desceu as escadas correndo. Ela tinha os olhos de Ricardo. Os mesmos olhos castanhos e expressivos.
"Mamãe, o papai chegou!"
A voz dela era doce e infantil, mas para mim soou como um trovão. E então, eu o vi. Ricardo entrou pela porta dos fundos, vindo do quintal, com um saco de carvão nas mãos, vestindo uma camiseta velha e bermudas. Ele estava com a barba por fazer, com um ar caseiro e relaxado que eu raramente via. Ele não estava na Ásia. Ele estava aqui, vivendo uma outra vida.
Ele me viu. O saco de carvão caiu de suas mãos, espalhando pó preto pelo chão limpo da cozinha. Seu rosto perdeu toda a cor. O sorriso que ele tinha se desfez, substituído por puro pânico.
"Maria? O que... o que você está fazendo aqui?"
A menina correu e abraçou as pernas dele.
"Papai, você demorou! A mamãe disse que a gente ia fazer churrasco hoje!"
Papai. A palavra ecoava na minha cabeça, ricocheteando nas paredes do meu crânio. Sofia olhou de Ricardo para mim, a confusão em seu rosto começando a se transformar em compreensão e medo.
"Ricardo, vocês se conhecem?", ela perguntou com a voz trêmula.
A menina olhou para mim com curiosidade e depois se escondeu atrás da perna de Ricardo, apontando um dedo na minha direção.
"Papai, é a tia má que você falou? A que não te deixa ficar com a gente sempre?"
Tia má. Fui reduzida a isso. A vilã na história de conto de fadas deles. A dor no meu peito era física, uma pressão esmagadora que me impedia de respirar. Eu me lembrei de todas as vezes que ele disse que me amava antes de uma "viagem longa". Lembrei-me da nossa conversa na semana passada, quando eu sugeri que tentássemos ter um filho e ele desconversou, dizendo que era melhor esperar, que sua carreira era muito instável. Agora eu sabia o porquê. Ele já tinha uma família. Estava construindo outra.
Senti o chão sumir sob meus pés. O mundo inteiro girava. Eu olhei para o rosto chocado de Ricardo, para a barriga de grávida de Sofia, para a menina que o chamava de pai. Eram anos de mentiras. Uma vida inteira de engano desmoronando na minha frente em uma sala de estar suburbana.
Não consegui dizer uma palavra. A maleta com os medicamentos caiu da minha mão, fazendo um barulho surdo no tapete. Eu me virei, tropeçando nos meus próprios pés, e corri para fora daquela casa. Corri sem olhar para trás, fugindo da cena de uma vida que não era minha, mas que destruiu a minha completamente. Entrei no carro, bati a porta e apoiei a cabeça no volante, enquanto as lágrimas que eu segurava finalmente começaram a rolar, quentes e amargas.