"Claro que existe", ele disse, com uma calma assustadora. "A Laura é minha filha. O bebê que a Sofia está esperando também é meu. Eles são meus filhos. E você é minha esposa. Nós podemos trazê-los para cá. Ou arrumar uma casa maior. Você sempre quis filhos, não é? Agora você tem dois. Uma enteada e um que vai nascer."
Eu fiquei sem ar. A audácia. A completa falta de noção. Ele não estava apenas confessando. Ele estava me propondo a aceitar seus filhos bastardos, a acolher a amante grávida, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
"Você está louco?", minha voz saiu falha. "Você realmente acha que eu vou criar os filhos da sua amante? Você acha que eu vou dividir meu teto, minha vida, com a prova viva da sua traição? Você está cometendo o crime de bigamia, Ricardo! Você tem duas famílias!"
"Não grita comigo!", ele avançou, o tom de voz subindo. "Eu estou tentando consertar as coisas! Estou tentando ser um homem e assumir minhas responsabilidades!"
"Assumir suas responsabilidades seria ter me contado a verdade há seis anos! Seria não ter se casado comigo!", eu gritei de volta, a raiva me consumindo.
Ele chegou perto demais. Seu rosto estava a centímetros do meu, vermelho de raiva.
"A culpa também é sua! Você vive para o seu trabalho! Está sempre cansada, sempre ocupada! Um homem precisa de atenção, de carinho!"
E então ele fez. Ele levantou a mão e me empurrou com força. Eu tropecei para trás, batendo as costas na quina da cômoda. A dor aguda me fez ofegar. Foi a primeira vez que ele encostou um dedo em mim com violência. Naquele instante, o último resquício de sentimento que eu poderia ter por ele morreu.
"Você... você me bateu", sussurrei, mais para mim do que para ele.
O choque no meu rosto pareceu trazê-lo de volta à realidade por um segundo. Ele olhou para a própria mão, como se não a reconhecesse.
"Maria, eu não...", ele começou, mas se interrompeu. A raiva voltou. "Você me provocou! Você não entende a situação. A Sofia é frágil, ela precisa de mim. Ela não tem ninguém."
"Frágil? Aquela mulher sabia que você era casado! Ela foi cúmplice da sua mentira por todos esses anos! Não venha me vender essa história de vítima!"
Ele passou as mãos pelo cabelo, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado.
"Pense nas crianças, Maria. A Laura não tem culpa de nada. O bebê que vai nascer também não. Eles merecem um pai. Merecem uma família estável."
Era a cartada final. A chantagem emocional. Usar crianças inocentes para justificar sua canalhice.
"Eles merecem um pai honesto, Ricardo. Coisa que você não é", eu disse, a voz firme, a dor nas minhas costas me lembrando exatamente com quem eu estava lidando. "Eles já têm uma família. Com você e a mãe deles. A minha família, a que você jurou construir comigo, acabou. Eu quero o divórcio."
A palavra pairou no ar, pesada e definitiva.
"Divórcio? Você não pode estar falando sério. Depois de tudo o que passamos?"
"Exatamente por causa de tudo o que eu passei SOZINHA que eu estou falando sério", eu o corrigi. "Acabou. Saia da minha casa."
"Nossa casa", ele retrucou, o tom ameaçador.
"Não mais. Saia. Agora."
Ele me olhou com um ódio que eu nunca tinha visto. O homem que eu amava tinha desaparecido para sempre, se é que um dia existiu. No lugar dele, havia um monstro egoísta e violento. E eu sabia que ele não ia desistir fácil.