A Vida Paralela Dele
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Capítulo 3

Ricardo finalmente quebrou o silêncio, mas as palavras que saíram de sua boca só jogaram mais gasolina no fogo.

"Foi um erro, Maria. Eu conheci a Sofia antes de você, em um momento difícil da minha vida. Eu achei que ela estava grávida de outro cara, eu só quis ajudar. Fui um cavalheiro."

"Um cavalheiro?", repeti, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Você chama isso de cavalheirismo? Mentir por seis anos? Ter uma filha e esconder de mim?"

"Eu ia te contar! Eu juro! Eu só estava esperando o momento certo."

"O momento certo? E quando seria, Ricardo? Quando o segundo filho nascesse? Ou talvez no aniversário de 15 anos da Laura?", minha voz pingava sarcasmo.

Peguei o recibo da joalheria de cima da cama e o joguei na cara dele.

"E isso? Você comprou um anel de noivado para ela um ano antes de me conhecer! Você ia casar com ela! O que aconteceu? Ela te deu um pé na bunda e você veio correndo pra mim, o plano B?"

O rosto dele se contorceu. Ele sabia que eu o tinha pego na mentira. A história de "ajudar uma mulher em apuros" era uma farsa. A cronologia não batia. A filha deles tinha cinco anos. Nós estávamos casados há cinco anos. Ele começou o relacionamento comigo já tendo uma filha recém-nascida com a outra.

"Não foi assim...", ele gaguejou, tentando formular uma nova mentira. "Ela... ela voltou pra mim depois que a gente já estava junto. Ela disse que a filha era minha. Eu não tive como dizer não. Eu tive que assumir minha responsabilidade."

Ele estava se enrolando cada vez mais. Cada palavra era uma pá de terra a mais na cova do nosso casamento.

"Responsabilidade?", eu disse, me aproximando dele, olhando-o nos olhos. "Sua responsabilidade era comigo! Com a sua esposa! Você deitou na nossa cama todas as noites sabendo que tinha outra família te esperando. Você me beijou com a mesma boca que beijava ela. Você me fez de palhaça, Ricardo."

De repente, ele fez algo que eu nunca esperaria. Ele caiu de joelhos na minha frente. Agarrou minhas pernas, o rosto contorcido em uma súplica teatral.

"Me perdoa, Maria! Por favor, me perdoa! Eu te amo. É você que eu amo. A Sofia foi um erro, um peso que eu carreguei sozinho pra não te fazer sofrer."

Aquela cena era tão patética, tão calculada, que meu estômago revirou. O grande piloto, o homem charmoso e confiante, ajoelhado no chão, implorando. Mas eu não senti pena. Senti nojo.

"Levanta daí, Ricardo. Você não está em um filme. Sua atuação é péssima."

Puxei minhas pernas com força, me afastando dele.

"Você não me ama. Você nunca me amou. Você ama a conveniência. Eu era a esposa troféu, a médica com um bom emprego que te dava estabilidade, enquanto a outra era a 'família de verdade', a que você escondia. Você não carregou peso nenhum. Você viveu o melhor dos dois mundos."

Ele se levantou, o desespero em seu rosto dando lugar à frustração.

"O que você quer que eu faça? Eu errei! Homens erram!"

"Não, Ricardo. Ladrões roubam. Assassinos matam. E você mente. É o que você faz. É quem você é", eu disse, a voz fria como gelo. "Você não só mentiu. Você me transformou em um 'step'. Eu fui o seu 'plano B' que deu certo, o 'tapa-buraco' de luxo. Você me fez de quem assume o fardo alheio, como dizem os chineses. Só que, no seu caso, a responsabilidade era sua mesmo, e você a escondeu de mim para que eu te aceitasse. Você é desprezível."

Ele me olhou, chocado pela minha frieza e pela palavra que usei. Ele sabia o que significava. Em uma de suas viagens, ele me contou sobre esse termo, rindo de um colega que estava em uma situação parecida. A ironia era doentia.

"Não fale assim, Maria..."

"Eu falo como eu quiser. Esta é a minha casa. A casa que eu ajudei a pagar enquanto você sustentava sua outra família com o nosso dinheiro. Acabou, Ricardo. A farsa acabou."

            
            

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